Olho-te como te olham todas as mulheres que se aproximam do teu planeta e quero-te como todas elas. És aquela imagem brilhante que grita pelas nossas vozes com um ímpeto semelhante ao do fogo-de-artifício, como se os teus olhos não bastassem para provocar esse arrastão constante que o resto do mundo presenceia diariamente. Observo-te como se observa o quadro mais belo de qualquer museu: não te observo, contemplo-te; porque observar-te não basta. É preciso respirar cada fio de cabelo que despenteias em momentos raros, cada pedaço de sorriso que deixas escapar, cada levantar de sobrancelha que fazes acompanhar certos tons de voz.
A tua personalidade
é um íman gigante e, ao mesmo tempo, um espelho convexo que nos engana e
desengana a todo o momento, despedaçando qualquer tipo de raciocínio que ainda
possamos manter na nossa tão finita sanidade. Isso e a tua energia, que se
atravessa pelos campos de corações partidos, libertando uma sensação de
conforto imediato, como se tudo estivesse curado em três tempos. As tuas conversas
desencadeiam todo um outro nível de manifestação física, como se o ambiente
mudasse de forma abrupta: tudo é cor e sossego, como se o preto e o cinzento e
tudo o que é negativo não existissem. De repente, existe esperança, algo que
nunca há nesta vida ingrata de pessimista incorrigível.
Olho-te como
se esta falsa sensação de paixão fosse verdadeira e não um conjunto de
carências que tu tanto consegues preencher. Tento desejar que seja a sério, que
eu esteja apaixonada e que tu não me correspondas, porque assim seria tudo mais
fácil; porque assim estou já calejada. Mas sou crescidinha agora e sei que é
tudo fogo-de-vista, ainda que seja um fogo belo, daqueles que nos devoram por
dentro, deixando uma paz indescritível no seu lugar. Sou uma mulher adulta e
consigo distinguir entre o que é e o que não é: eu sou carente e tu não és o
que eu preciso, nem és o que eu realmente quero. Bem, talvez uma pequena parte
de mim te queira realmente; és quase tudo o que sempre quis. E essa parte não é
a que está a ser enganada; essa tem certezas do que sente e está a ser racional
sobre o que oprime as outras.
Eu preciso de
mim, não de ti. Mas o que é mais bonito nisto tudo é que eu só percebo isso
quando estou contigo; porque tu fazes-me ver a pessoa que sou e a pessoa em que
eu me quero tornar, que eu mais quero amar nesta vida. Esta traição contínua
que me pregas sem te aperceberes é das melhores guerras que me poderia
acontecer no ponto biográfico em que estou hoje. Cresci com o meu passado e
isso nota-se sempre que estou no teu eterno limbo, pendendo como algo
inacabado, mas que já avançou tanto. Essa prisão traz ao de cima as minhas
novas defesas, aquelas que desenvolvi ao longo dos anos, fruto de desconexões
emocionais, relações unilaterais e inseguranças que se tornaram em
autodeterminações.
Quase todas
caímos na tua rede, mas nem todas se dão conta. Há excepções, claro. Há aquelas
imunes, que serão, provavelmente, uma força indomável da Natureza, e há aquelas
que têm redes ainda maiores e conhecem já todos os truques destes pescadores de
corações e não se deixam facilmente enganar. Há todas as outras e depois há
aquelas como eu, que se deixam levar pela corrente, pelo puro prazer de sentir
algo diferente, com a plena consciência de que, no fundo, não chegaremos a lado
nenhum; apenas queremos apreciar a viagem pelos teus caminhos afrodisíacos, uma
e outra vez, até que o momento se extinga. Amar o fogo que emana da tua alma é
algo que a minha imortaliza em cada conversa, querendo aproveitar cada segundo
como se tudo isso estivesse realmente a acontecer. Fisicamente, perco-me nas
cores que não vestes; porque se me perdesse nas outras, perdia-me a mim mesma,
cessando uma existência dificilmente substituível. E eu não me posso perder em
ti, como me perdi em todos os outros que vieram antes.
Desta vez,
estou preparada e sei quanto devo continuar, quando devo parar e quantas partes
de mim devo permitir-me espalhar pelos teus campos idílicos. Com o tempo e com
a experiência, apercebi-me que há uma forma segura de se gostar um pouco mais
de alguém; e é isso que estou a pôr em prática cada vez que estamos juntos. Sou
mais madura e sei cuidar de mim primeiro; por isso posso cair na tua armadilha porque
tenho todas as ferramentas que preciso para sair dela assim que me apetecer.
Porque tu também não me prendes com a força imensa que os outros reclamavam; ou
melhor, porque eu já não sou tão ingénua como antes. E a vida assim é mais
simples.
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