Um passo em frente e tudo se desmoronou. Tu salvaste-te sem esforço; eu aterrei, de repente, no puzzle que montáramos. Eu desfiz-me em pedaços; tu permaneceste intacto, lá no topo do mundo. Impávida e serena, permaneci no meu poiso involuntário, olhando o alto, procurando-te com o coração. Tu caminhaste até ao limiar do abismo e olhaste-me lá de cima: um olhar anónimo, nem sorridente nem triste. Senti esse silêncio cair aos meus pés, gritando docemente um «eu sempre soube» vindo de ti, que nunca quiseste saber. Recebi-o como autêntico, como um aviso que esperava há muito. Eu também sempre soube, mas sempre esperei que quisesses saber mais. Escolhi não acreditar no que sempre soubeste, no que sempre sentiste. E agora caí.
Lembro-me claramente do nosso primeiro encontro. Disseste dezassete vezes que as tuas relações têm sempre um fim atribulado, quase sempre próximo de um início efervescente. Optei por pensar que eu ia fazer-te querer saber o que poderia existir para lá do fim de uma relação. Repeti, uma e outra vez, que comigo seria diferente, que eu seria a que mais tempo permaneceria a teu lado, que eu seria a tua salvação, que aprenderias a amar como é suposto – sem sentir remorsos por isso. A tua voz gozava-me num tom irónico, mas o teu olhar acreditava em cada palavra que voava da minha boca. Os teus olhos, nervosos caminhantes entre os cantos do meu sorriso e os meus lábios, saboreavam explicitamente as minhas intenções, as minhas ideias, as minhas vontades. E eu pensava que te estava a ajudar, a criar um vindouro «nós» que assentava na verdade dos nossos desejos.
Mas os nossos desejos enganam-nos; sempre, porque sabemos o que desejamos, mas não é isso que queremos ou precisamos. Pior: era a carência que nos toldava o juízo, que nos permitia aqueles luxos a que chamamos «sentimentos verdadeiros», pensando que eram isso mesmo: sentimentos. Por isso, desde o início, as nossas bases conjugavam a mentira que compõe o desejo com a carência que nos dilacerava o peito; e assim começaria uma relação que se converteu num episódio de amor errático.
Eu dava tudo, esperando sempre pouco em troca, principalmente nos primeiros tempos, quando ainda me estava a habituar à tua distância auto-infligida. E, dando tudo, o pouco que me oferecias enchia-me o coração de alegria; o pouco que correspondias era suficiente. Não te pressionava, nunca te pressionei: isso só te afastaria ainda mais. Fui esperando, fui-me ficando, velando por dias de sol, quando permanecias debaixo de chuva intensa ou encoberto por um denso nevoeiro que quase me obrigava a questionar a tua existência. Fui-me ficando, com sorrisos compreensivos, paciências infinitas mas alegres, mãos estendidas, segurando o teu pobre e magoado coração.
Foste-te acomodando às minhas poucas exigências e, quando o fazias, eu retribuía, exigindo um pouquinho mais. E tu foste-te abrindo para mim, e eu fui-te descobrindo, entregando-me cada vez mais. Tu foste distribuindo pedaços de ti, encaixando-os no meu ser, completando a imagem que criara de ti, porque nunca estavas lá. O quadro foi-se compondo: eu dava-te, tu recebias e devolvias um pouco mais de ti. A minha premonição parecia estar a acontecer: eu iria quebrar as tuas barreiras e tu deixarias para trás anos de experiências que não fazem jus ao nome «relação». E o desejo, o nosso desejo, foi aumentado.
Mas a tua entrega por inteiro nunca a tive. Ias dando, mas tiravas mais do que davas. E eu fui-me retraindo, fui deixando de me ficar. Fui exigindo mais, sem perceber que atingiras o teu limite. Testei-te de várias maneiras: discussões, amores, invejas, prioridades, tempos. Fui-te desgastando, procurando no teu interior tudo aquilo que eu pensara ter criado, tudo aquilo que eu ansiava que estivesse lá. Chamei, gritei, desesperei pelo «tu» que pensara ter visto em ti, por tudo aquilo que eu esperava desde o início. Esquecera-me que obliterara da minha memória toda a tua pouca vontade de ter uma relação que não tivesse um fim trágico. Esquecera que descartara as tuas más experiências. Amnesiei a minha mente para permitir um sopro de felicidade ao meu solitário coração; e agora era esse pequeno espírito que pagava caro pelo meu erro.
Tu sempre soubeste que não havia futuro. Para ti, nunca há. A fenda que me dizia que agora seria diferente fechou-se, finalmente. Senti que puxara demasiado por ti; senti que te puxara demasiado para mim. Foste-te afastando cada vez mais e mais depressa, de uma forma quase violenta. As tuas não conversas, as tuas distâncias desesperantes, provocatórias e desalentadoras partiam-me em pedaços minúsculos, proibindo-me de juntar as peças com o máximo detalhe possível. Foste-me desfazendo de propósito, dilacerando o meu rosto como se de uma cara comum se tratasse; como se eu fosse ninguém. Trataste-me como se tivéssemos sido nada.
E eu não respondi, não reagi. Não me atirei àquela ideia como o último reduto, não a defendi com unhas e dentes, não a protegi como devia. Deixei-te desfazeres-me como um trapo. Não percebi, na altura, por que razão te deixei matares-me assim, tão devagar, fingindo que me eras tudo, quando, na verdade, nunca quiseste sê-lo nem pela metade. Apesar de tudo, apesar de já saber que tudo isto iria acontecer, o choque foi inevitável. Mas não demorei a seguir em frente. É certo que caí, quase sem ditame, mas o amparo esteve lá. Talvez no momento eu não me tenha apercebido, mas esse amparo esteve sempre lá. Foi esse aconchego que não me fez cair redonda no chão, foi esse pára-quedas que me permitiu cair de pé e ainda olhar para cima, para te ver rejubilar sem entusiasmo. Esse amparo era-me intrínseco. Esse amparo era eu mesma, depois de ser tu. E, por isso, sobrevivi.
"I pictured a rainbow
You held it in your hands
I had flashes
But you saw the plan
I wandered out in the world for years
While you just stayed in your room
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
The whole of the moon
You were there at the turnstiles
With the wind at your heels
You stretched for the stars
And you know how it feels
To reach too high
Too far
Too soon
You saw the whole of the moon
I was grounded
While you filled the skies
I was dumbfounded by truths
You cut through lies
I saw the rain-dirty valley
You saw Brigadoon
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
I spoke about wings
You just flew
I wondered, I guessed and I tried
You just knew
I sighed
But you swooned
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
The whole of the moon
With a torch in your pocket
And the wind at your heels
You climbed on the ladder
And you know how it feels
To get too high
Too far
Too soon
You saw the whole of the moon
The whole of the moon
Unicorns and cannonballs
Palaces and piers
Trumpets, towers, and tenements
Wide oceans full of tears
Flags, rags, ferry boats
Scimitars and scarves
Every precious dream and vision
Underneath the stars
Yes, you climbed on the ladder
With the wind in your sails
You came like a comet
Blazing your trail
Too high
Too far
Too soon
You saw the whole of the moon"
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