Despedaçada. Outra vez, despedaçada. Mas os meus olhos ignoram-me. Eles continuam a procurar-te como se buscassem o castanho-avelã que me roubas constantemente. De coração desarmado, mas os meus pensamentos atraiçoam-me. Eles permanecem presos ao teu peito como se agarrassem o teu amor; aquele amor que não me podes dar. Desfeita, mas os meus sentimentos descartam-me. Eles continuam a sorrir, na esperança de que esse gesto te faça corresponder da forma que eles precisam. Todo o meu corpo me trai, numa dança macabra, masoquista, que apenas me deixa ainda mais desconcertada. Quero-te mas sei que não te devo ter. Se apenas o meu corpo, se apenas o meu peito, se apenas os meus olhos obedecessem, tudo seria mais fácil.
Sei que não serves para mim, que não me quererás mais do que por alguns momentos. Mas eu teimo em pensar que sim, que podemos ter um futuro risonho, mesmo que curto e terrivelmente finito. Mas tu não foste feito para mim e eu não fui feita para ti. Quero demasiado de ti, mais do que aquilo que alguém te poderia exigir. Tu queres apenas uma parte de tudo o que tenho para te oferecer. É estranho e confuso. Não por que nunca me acontecera, mas sim por que o que ambos queremos, ambos poderíamos ter. Mas todas as contra-indicações que existiriam na nossa relação são o factor impeditivo de qualquer amor que pudesse crescer entre nós. Abraçamos os contras e rejeitamos os prós; somos um paradoxo que nunca acontece.
Mas eu tento esquecer esse possível futuro, tão facilmente concretizável. Tento esquecer tudo o que poderíamos ser, tudo aquilo em que nos poderíamos tornar, tudo aquilo que recusaríamos ser. Tento esquecer-te enquanto alguém que tomaria conta do meu coração, dando-lhe tudo aquilo que eu daria de volta. Tento esquecer-te como homem que és e tento imaginar-te apenas como o amigo que me puxou para um novo mundo. Quero ter-te na minha vida como um irmão, desejando-te do fundo do coração, mas sabendo-te impossível.
Mas a vida trai-me, uma e outra vez. A minha sensibilidade arruína todas as minhas tentativas de ver-te só como um amigo. A minha horrenda necessidade de expressar o que sinto, de me entregar com toda a minha pureza, arrasa-me de uma só vez. E sempre que volta, apenas me desfaz ainda mais. A verdade é a minha ruína, sempre. Porque sempre que a verdade explode do meu peito, a vida destrói-se em três tempos. As pessoas que eu mais quero fogem; as que eu não quero perder, desaparecem; as que eu amo de outra maneira, esfumam-se. E a solidão, com a qual lido tão bem e que tanto prezo, invade-me numa mistura negativa que não consigo controlar. E deixo de gostar de estar só. O silêncio faz mais barulho do que todas as eventuais discussões que eu poderia ter contigo. Conto o que sinto, as pessoas desaparecem e eu deixo de ser o «eu» que quero ser. Um ciclo vicioso que se repete desde que sou gente.
Mas eu não quero que te sumas da minha vida. Não desta vez. Não quero ter que ser sincera e receber a tua ausência em troca. Então, decidi que, desta vez, vai ser diferente. Eu vou calar-me, fechar-me a sete copas, encarcerar-me no mais fundo do meu ser. Irei aprisionar o meu coração, os meus sentimentos, as minhas vontades, fechar tudo a cadeado e expulsar-te do meu quarto imaginário. Vou-te deixar à porta, como quem espera uma ordem de entrada, mas nunca entrarás. E eu, eu nunca irei sair. E esse vai ser o verdadeiro teste.
Repelir a minha vontade vai ser o desafio mais difícil que enfrentei até agora. Não será a primeira vez; essa já aconteceu, mas o lado de lá era mais ausente do que eu, por isso, foi fácil superar. Agora, agora é a desgraça total. Tu procuras-me mais do que eu te procuro a ti. Agora, tudo é mais intenso e eu ainda estou de rastos. Não sei onde descobrirei forças para suportar as barreiras que terei que impor entre nós, apenas para me manter afastada de ti e da minha vontade de me confessar. Preferia ver-te como um ser humano indiferente, igual a tantos outros, como o alguém de alguém. Preferia odiar-te a estar como estou. Vai ser doloroso...
Acredito que também não vá ser fácil para ti, sentires-me a desvanecer, veres-me a afastar-te. Acredita que sei que vai. Mas acredita também que será melhor para ambos, desaparecermos do mundo um do outro. Fico melhor sem ti e tu sobrevives bem sem mim. Não somos necessários aos corações um do outro. Os meus olhos ter-se-ão que habituar a uma paisagem vazia e os teus terão que reconhecer que eu não te embelezava a vista. Os meus sorrisos irão procurar outro receptor e os teus serão reservados para outras bocas. Os meus sentimentos hibernarão até ao próximo Inverno e os teus ficarão ancorados noutras almas. Sobreviveremos a isto; apenas estaremos longe um do outro.
Parece tola, mas foi a melhor solução que encontrei até agora: afastar-me. Será tremendamente difícil fazê-lo. Cheguei a um ponto de quase ruptura que será complicado ultrapassar. Mas o caminho faz-se caminhando e a minha rota de colisão não me parece o melhor trilho. Quero, por isso, experimentar aquele atalho que já deveria ter testado há muitos anos, mas que nunca tive coragem para o fazer. Quero tentar atravessar o deserto com o teu nome na minha mente sem que isso me prenda à Terra como um som árido. Quero tentar caminhar pela neve com os teus olhos no horizonte sem que sinta que o meu corpo se afoga sem piedade. Quero sentir que consigo chegar lá, a pensar em ti, mas sem que tu sejas o meu destino. Quero tentar ser grande como uma vez fui e como nunca mais consegui ser. Quero voltar a ser o «eu» que era antes de tu apareceres na minha vida, antes de destruíres tudo o que reconstruí em mim. Quero voltar a sentir-me completa apenas com a minha presença. Sim, quero-te mas, antes de tudo, quero-me a mim mesma: pura, regenerada, simples e plena. Quero-te mas quero a minha independência de volta, como se fosse impossível respirar sem ela.
Quando partires, tudo será devastador. O ar, o tempo, a luz, o vazio. Será tudo ruínas e pó, destroços de uma vida que eu planeei mas que sempre soube que nunca seria. Estarei em pedaços, deambulando pela névoa que a tua existência deixou para trás. Serei brumas num dia de Sol, um ser estranho num mundo tão igual e aborrecido. Serei coisa nenhuma. Mas prefiro ser coisa nenhuma do que algo inexistente. Porque é a isto que se resume: prefiro sentir nada a sentir tudo. E tu, tu és tudo...
"From walking home and talking loads
To seeing shows in evening clothes with you
From nervous touch and getting drunk
To staying up and waking up with you
But now we're sleeping at the edge
Holding something we don't need
All this delusion in our heads
Is gonna bring us to our knees
So come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
Everything that's broke
Leave it to the breeze
Why don't you be you
And I'll be me?
And I'll be me
From throwing clothes across the floor
To teeth and claws and slamming doors at you
If this is all we're living for
Why are we doing it, doing it, doing it anymore?
I used to recognize myself
It's funny how reflections change
When we're becoming something else
I think it's time to walk away
So come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
Everything that's broke
Leave it to the breeze
Why don't you be you
And I'll be me?
And I'll be me
Trying to fit your hand inside of mine
When we know it just don't belong
There's no force on earth
Could make it feel right, no
Trying to push this problem up the hill
When it's just too heavy to hold
Think now's the time to let it slide
So come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
Everything that's broke
Leave it to the breeze
Let the ashes fall
Forget about me
Come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
And I'll be me"
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