«Por momentos, pensei que as borboletas tinham voltado ao meu estômago. Mas não é só de amor que são feitos os bichos que em mim habitam. Aliás, neste momento, as abelhas, rainhas do meu corpo, são feitas de luxúria e desejo, emoções pouco inocentes e ingénuas que há bastante tempo não me visitavam. E o meu estômago não tem nada a ver com isto.
Nunca esperei que chegasse a este ponto. Sem me aperceber, fiz crescer uma colmeia que agora não consigo controlar. As minhas trabalhadoras parecem começar a revoltar-se, pedindo-me que as satisfaça. Elas sabem o que querem e de quem o querem. A realidade surge como o único limite que consigo impôr-lhes; por isso, perco as noites a pintar sonhos que lhes matem esta nova sede.
Estes pensamentos já se arrastam há algum tempo, mas eu sempre os descartei. Claramente, era tudo imaginação minha, fruto da minha carência do calor de um outro corpo que não o meu. Ponderei, até, partilhar tudo isto mais cedo. Lá estava eu outra vez a fantasiar com alguém impossível; um clássico na minha vida. Quando ia finalmente fechar o livro, eis que o último capítulo me esmaga com uma reviravolta inusitada: as tuas atitudes tornaram-se sinais de que, se calhar, eu não estava a iludir-me. Sinais não no sentido de que eu estaria a ler umas supostas entrelinhas de acções corriqueiras, mas provas de que algo estava realmente diferente. E isso assustou-me. Teria levado a minha imaginação demasiado longe ou, de facto, tu emanavas outro espírito na minha direcção?
Aprendi que não podia tirar conclusões precipitadas. Precisava de ter a certeza que não eram os teus olhos nem o meu coração a enganar-me. Fui lendo os rostos das outras pessoas quando estavamos juntos. Tentei escrutinar as sensações que lhes saíam dos corpos quando tu fazias algo que eu sentia como novo, fosse um olhar, um toque, uma proximidade, uma gargalhada. Para meu espanto, notei que, por vezes, os outros olhares percebiam as novidades, os algos-fora-do-comum que trazias para a mesa, tal como eu; mas nunca consegui ter a certeza da interpretação que eles lhes davam. Algumas vezes, tinha suspeitas e tudo se relacionava indirectamente com o diagnóstico que eu desenhara. Mas teria razão? Seria seguro dar um passo em frente e arriscar ultrapassar uma linha sem caminho de regresso? A verdade é que continuo sem confirmação verbal desta possível nova dinâmica; e eu sempre tive problemas em decifrar comunicação não verbal no que toca a estas questões. Até que outros alarmes começaram a soar. E eu fui com a maré.
Os teus olhares prolongados no meu rosto; o teu sorriso a demorar-se nos meus olhos curiosos; os toques das tuas mãos nos meus braços ou na pele nua dos meus pulsos; o teu corpo a encostar-se ao meu, corando os meus ombros, como se o magnetismo fosse inevitável; a distância que nos aparte mingando vagarosamente sempre que estamos no mesmo ambiente. As estrelas que vagueiam o meu céu gentil e pacífico transformaram-se em supernovas, explodindo entusiasticamente a cada cor inédita que me oferecias. A minha tela começou a mudar e as certezas foram-se tornando cada vez mais fortes. As coincidências eram demasiadas; não podia ser tudo ilusão.
As minhas noites intensificaram-se. A tua imagem no meu pensamento já não era suficiente para apagar aquele fogo. Agora, tinha de escrever o teu nome no escuro, pensar no teu cheiro e no teu caminhar, sentir o teu modo de estar. Aqueles olhares prolongados e aqueles sorrisos que me lançavas ganharam vida e livre-arbítrio e eu permiti-me vivê-los, deixei-me possuir por eles. Repleta de emoções, comecei a responder a todas estas novas conversas que parecíamos ter. Dei por mim a prolongar o meu olhar no teu rosto, a esboçar-te um sorriso tímido, corado, convidativo; deixei as minhas mãos dedilharem levemente os teus ombros e braços, gestos disfarçados de um fortuito acaso; manti-me imóvel e recostei-me quando encontravas o meu encosto. Se havia algo que me denunciava era a vermelhidão que me percorria o rosto nestes momentos, mas tu nunca rejeitaste nenhum destes avanços. E eu continuei naquela deliciosa maré.
As noites já não chegavam e os dias tinham um tempo escasso para eu me perder em ti; por isso, um dia, decidi desafiar o universo e testar a minha teoria: era isto exactamente o que eu estava a pensar ou imaginação minha? Esse dia pareceu-me igual aos outros, excepto o facto de que a minha colmeia estava completamente amotinada. As minhas hóspedes sabiam que aquele seria um dia decisivo. Quando chegou o momento, hesitei, ponderei sobre a imutabilidade da sentença que estava prestes a declarar. Respirei fundo e tentei a minha sorte. Fiz bem em não fazê-lo pessoalmente, porque o silêncio foi a resposta que recebi. “O universo estava a brincar comigo”, pensei; “bom, ao menos, já estou habituada, sei bem como ultrapassar isto”. E o tempo passou. O desejo ainda existia, mas deixou de ser ardente. As minhas abelhas hibernaram e deixaram sossegar as minhas noites. Aos poucos, fui-me libertanto daquela febre, ainda que as raízes de tudo aquilo não tivessem secado. Um pé à frente do outro e a vida segue.
Semanas depois, voltámos a encontrar-nos. Grande parte de mim reagiu à tua aparição com normalidade. Já me esquecera da profundidade dos teus olhos, da sedução dos teus sorrisos, da dança que as tuas mãos, as tuas pernas, o teu corpo coreografavam na minha presença. O silêncio que o universo me tinha dado naquele dia transformou tudo isso em ilusões. Até que, de repente, vi essa intimidade a ressurgir, qual féniz, e voltei a questionar o meu discernimento. Seria possível? Não sabia. Não sei. Teria de deixar essa resposta para o tempo. E é nessa maré que agora estou: à espera de perceber se queres o mesmo que eu ou se todos esses momentos não passam de sinais que eu erradamente interpreto. Vou dar tempo ao tempo, sem nada a perder».
(textos perdidos no baú).
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