Era suposto escrever uma mensagem sobre a minha experiência no meu primeiro concerto, mas faltou inspiração para descrever tal estado de espírito. Porém, aqui vai outra experiência...
Era uma quarta-feira como outra qualquer. A única diferença era o facto de ser a primeira quarta-feira desde o fim das férias da Páscoa. Saí, contente, da última aula do dia, História das Religiões na Antiguidade, uma das minhas preferidas. Eram quase quatro horas de tarde. Caminhei até ao metro a ouvir a música do costume. Depois do metro, o autocarro até à casa da minha avó foi rápido e entusiasta. Estava entusiasmada nesse dia, não sei porquê. Cheguei a casa da minha avó às cinco. Lanchei, "peguei" na minha irmã, despedi-me da minha avó e segui no carro dela até minha casa. A minha irmã queria ir à casa-de-banho, mas, como a viagem era curta, disse-lhe que esperasse até chegar a casa. Até lá, eram 20 minutos; comigo ao volante, eram 15. Como era cedo, fomos por um caminho diferente, para me habituar; caso houvesse demasiado trânsito nos outros caminhos, eu já tinha uma alternativa. E lá fomos. Ainda não eram 6 horas. A minha irmã ia sentada no lugar do pendura, a ouvir música do seu MP3. Ainda pensei ligar o rádio, mas senti que não o devia fazer. Dez minutos depois e já estamos na estrada nacional que segue até à entrada do meu bairro. Tenho uma carrinha de caixa fechada, branca, à minha frente. Depois da última curva, já vejo o cruzamento que dá para a rotunda do meu bairro. Estou a aproximar-me, por isso, abrandei, vendo a carrinha ir-se afastando cada vez mais. Abrandei ainda mais, até não sei quando (não olho para o velocímetro quando abrando; só quando acelero). Atrás de mim, vinha um carro que não me lembro. Voltei a abrandar. Olhei em frente e fiz o pisca da esquerda. Falta pouco. Abrandei outra vez. A mão direita pousou na caixa de velocidades com naturalidade. O pé esquerdo foi pressionando a embraiagem carinhosamente. Com eficiência, meti a segunda. Olhei, novamente, em frente e dei uma espreitadela no retrovisor. À espera para entrada naquela estrada, um Opel Corsa branco parou no STOP, na saída da rotunda. Com fé nos meus olhos, comecei a virar à esquerda. O tempo pareceu abrandar drasticamente. Enquanto virava o Lancia, o condutor do Opel começou a fazer uns sinais estranhos. O meu instinto? Olhar para a direita. Uma mancha negra vinha na minha direcção; um carro, apercebi-me depois. O tempo voltou a abrandar. Com força, puxei o volante para a esquerda e depois para a direita, fazendo o carro guinar, para bater de frente, em vez de receber a pancada na lateral, onde estava a minha irmã. Ela, coitada, viu-me a olhar para a direita e, curiosa e assustada, seguiu o meu olhar. Assim que viu o outro carro, fechou os olhos.
Sem nada mais que pudesse fazer, preparei-me para o impacto. A cabeça e as costas colaram-se ao banco. A mão direita agarrou-se à caixa de velocidades e a esquerda pousou na perna correspondente. Deu-se o impacto. O tempo parou, por milésimas. Depois, retomou a marcha, milésima a milésima. Lembro-me de sentir o meu carro a parar e a ser arrastado. Lembro-me do airbag ir abrindo; a imagem mais clara era a de um video em slow motion: o airbag ia abrindo e eu ia deixando de ver a paisagem. Por duas vezes, deixei de ver, ou melhor, tudo ficou escuro. O carro foi sendo arrastado por uns metros; dois triângulos da rotunda, para ser mais precisa. Assim que voltámos a parar, o tempo voltou à velocidade normal. Um barulho ensurdecedor de buzinas fazia-se imperador, assim como uma dor horrível no meu peito. Reparei que o airbag não fechou. Com a mão direita e a dizer palavrões mentalmente, esmurrei-o até descer. Depois, havia a buzina que não se calava. Procurei a chave do carro, para desligar o motor - uma atitude idiota porque o carro não ia a lado nenhum. Apenas encontrei o porta-chaves; a chave tinha sumido para dentro do volante. "Boa...", ri-me, mentalmente e com ironia. Depois, olhei para a minha irmã: estava sem óculos e com um ar atordoado. Olhei em frente, procurando os outros condutores. O do Opel já tinha saído do carro - homem dos seus 30 ou 40 - assim como o da grande mancha que me atingira (uma carrinha preta tipo Ford Focus) - um senhor com os seus 60. Estavam os dois de pé a falarem um com o outro. Num sussurro, pedi desculpa, várias vezes. A minha irmã gritava os meus murmúrios, numa espécie de tradução. Alguém apareceu à minha porta; um homem, jovem, que me perguntou se estava bem. Disse-lhe que sim, só por dizer. Voltei a olhar para a minha irmã. "Não te mexas!", gritei-lhe quando pude. Ela obedeceu. Eu sentia-me mal, mesmo mal. Mexi os dedos dos pés e depois os pés. "Ok, não parti a coluna", pensei, aliviada. Depois, mexi os joelhos e, por sua vez, as pernas. "Ainda bem", suspirei, mais aliviada, mexendo as mãos ao mesmo tempo. "Como é que te sentes?", perguntei à minha irmã. "Estou bem e tu?", retorquiu ela, mexendo-se bem. "Consegues sair?", questionei-a. "A minha porta não abre", disse-me, depois de a experimentar. "Então, sais por aqui". Tentei mexer-me para abrir a porta. Não consegui. "Ok, tens que esperar cinco minutos, que eu não me consigo mexer". "Está bem", assentiu ela, nas calmas. Ouvi mais pessoas a falar comigo, mas ignorei-as. A dor era imensa. Parecia ter um piano no peito e no braço esquerdo. "Foi o airbag...", pensei, acalmando-me. Alguém desligou a buzina do meu carro, directamente do motor. Ao fim de um tempo, ainda hoje sem saber como, abri a minha porta e saí do carro. Mais pessoas e mais perguntas. "Não estou muito bem...", fui respondendo. "Podes sair.", disse à minha irmã. Com uma agilidade que não denunciava, em nada, a realidade que acabara de acontecer, ela saiu do carro pela minha porta. Vi que a mão dela tinha sangue. "Estás a sangrar.", avisei-a. A resposta dela foi: "Tu também", e apontou-me para o lábio e para a bochecha. Rimo-nos dois segundos. Depois, a dor parou-me. "Telefona ao pai.", pedi-lhe, enquanto eu fui falar com os outros condutores. "Está bem?", perguntou-me o do Opel. "Mais ou menos", respondi, cheia de dores no peito. Aquele piano não desaparecia e o meu braço esquerdo não se mexia. "F*da-se! Isto dói p'ra caramba!", gritei mentalmente. Os outros condutores disseram-me que já tinham chamado a polícia e um reboque. Voltei para junto da minha irmã. O pai ainda não telefonara de volta. Reparei que havia imensa gente na rua, agora. E carros parados também. Enquanto esperava pela chamada, apercebi-me dos estragos: a frente direita do Lancia que eu conduzia desaparecera para dentro do carro; o meu farol esquerdo andava perdido, no meio da estrada; a porta da minha irmã estava arqueada para fora e sem um único vidro. Olhei para a minha irmã e perguntei-me como podia ela estar tão bem: a pancada fora do lado dela e ela não tinha airbag, só a mala da escola. Como podia estar assim tão bem? O meu pai telefonou. A minha irmã passou-me logo o telemóvel. Atendi, com serenidade. "Estou?", saudou o meu pai, que entrara ao serviço há apenas duas horas. "Olha não te assustes, está bem?", comecei, com calma. "O que é que foi, Catarina?", perguntou, preocupado. "Nós tivemos um acidente, mas estamos conscientes; está tudo bem. Foi aqui à entrada do bairro, na rotunda." "E o carro da avó pode andar?", quis saber ele. "O carro vai para a sucata." Tudo o que ouvi depois foi um suspiro e, de seguida, um "eu vou aí ter". Até o meu pai chegar, vesti o colete, alguém pôs o triângulo na estrada, apareceram mais pessoas, conversei com os outros condutores, respirei fundo para me acalmar, injuriei tudo e todos, mentalmente, por causa das dores e chegou a Guarda. Incrivelmente, respondi a todas as perguntas, fiz o teste do álcool, expliquei o acontecido aos guardas e preenchi os papéis, tudo sozinha. Entretanto, quase 40 minutos depois, o meu pai chegou. Falámos os dois, mais a minha irmã, e ele depois falou com a Guarda. A minha irmã tinha uma queimadura feia no pescoço e decidiu-se chamar os bombeiros. Enquanto eu acabava de ajustar as contas com a Guarda, a minha irmã foi posta na maca da ambulância chamada. Assim que me despachei, fui ter com ela à ambulância. Disseram-me que iam levá-la para o hospital, para confirmar se estava tudo bem. Pedi para ir com eles. Um pouco apreensivos, ofereceram-me o segundo lugar sentado, na parte detrás da ambulância.
Iniciámos caminho até ao Hospital Santa Maria. O bombeiro que vinha connosco fez-me os teste de tensão e outros, para saber os básicos, assim como perguntas como "com que frequência bebe bebidas alcoólicas" e assim. No hospital, puseram-nos as pulseiras às 20h e 06m, com a descrição: 'acidente de viação; colisão frontal'. Deitada na maca, a minha irmã reclamava para ir à casa-de-banho. As minhas dores estendiam-se, agora, à zona do queixo. O meu braço esquerdo já se mexia; com dificuldade, mas mexia. Eu fui a primeira a ser chamada à Triagem. Uma enfermeira jovem, de óculos, bonita e simpática, perguntou-me por que estava ali. Contei-lhe a situação, muito resumidamente. Ela disse-me que tinham que me pôr numa maca. Não apreciei a ideia, mas, quero dizer, eu não mandava nada ali. Lá veio a maca e um ajudante. Subi, com dificuldade, para a maca. Logo me meteram um colar cervical. As dores aumentaram com uma rapidez incrível. Fui levada para um médico de uma secção qualquer, Traumatologia ou Cirurgia, não me lembro. Estive lá uns longos vinte minutos. Fez-me perguntas, espantou-se quando lhe disse que tinha vindo pelo meu próprio pé, sorriu quando perguntei pela minha irmã... Lembro-me de ele dizer: "Tem aqui a marca do cinto...". Respondi-lhe logo: "Ah sim? Ainda não tive tempo de ver..." Ele não se riu, pelo menos, fisicamente. Desejou-me as melhoras quando pediu a uma enfermeira para me levar a fazer análises e não sei quantos exames. A enfermeira levou pelo corredor fora. Foi a segunda vez na vida que não chorei a tirar sangue. Contei esse feito à senhora, com orgulho, perguntando, novamente, pela minha irmã. Ninguém me sabia dizer nada sobre ela. Supus que lhe estavam a fazer a mesma coisa. Mais uns raios-x e deixaram-me num corredor qualquer. Com a adrenalina a desaparecer, as dores ficaram ainda mais fortes. Cada vez que queria falar, apenas um sussurro saía dos meus lábios. Vários médicos, enfermeiros e voluntários que por mim passavam perguntavam-me o que acontecera ou se precisava de alguma coisa. A certa altura, alguém apareceu com a minha irmã, numa maca do hospital, deixando-a ao meu lado.Ou vi alguém comentar: "e pronto, as manas já estão juntas". Eu estava mesmo preocupada com ela. Da maneira que foi, não sei como é que ela ficou viva. E não estou a exagerar! Quando já não estava ninguém ao pé de nós, perguntei-lhe, num murmúrio: "Então?". A resposta dela, a plenos pulmões, fez-me rir, apesar da dor: "Eu vou matar toda a gente! Ninguém me deixa ir à casa-de-banho!". Tinha imensa vontade de rir, mas só consegui fazê-lo por muito pouco tempo. Mais uns minutos e apareceram os nossos pais. A minha mãe estava com um ar de preocupada que assustava, mas logo a minha irmã a descansou, dizendo-lhe o mesmo que me dissera a mim. Fui levada a fazer uma ecografia. O meu pai acompanhou-me. Enquanto esperava, num corredor vazio, não me contive mais e chorei. Não chorei pelas dores; era muito stress acumulado, muitos nervos, muitos 'ses', muita raiva de mim mesma... "Como é que não vi o carro? Olhei e olhei e olhei outra vez... Donde raio é que ele veio?!", repetia para mim mesma, irritada. Uns dias depois, concluí que ele tinha que vir em excesso de velocidade para eu não o ver...
Depois da ecografia, voltei à zona onde estava, com a minha irmã. De seguida, fui levada a um ortopedista ou que era, que me fez levantar as pernas e os braços e mexer a cabeça. Fiz tudo, cheia de dores, mas só gritei, a plenos pulmões, quando ele espetou a mão dele na minha clavícula esquerda. "Isto vai ficar inchado durante uns dias..", anunciou ele. "Ah, seu filho da mãe! Já disse que dói, caramba! Tira daí a mão!", gritei, mentalmente; tão alto, que ele pareceu ouvir e tirou a mão. Voltei a ser levada para a zona onde estivera com a minha irmã. Ela já estava fora da maca e sorridente. "Então, já foste à casa-de-banho?", perguntei, tentando parecer bem-disposta. "Já! Não podia mais!", exclamou ela, fazendo-me sorrir. 'Ainda bem que não lhe aconteceu nada', pensei, feliz por ela estar bem. Mais uns minutos e levaram-me para a última consulta. Desta vez, a minha irmã também me acompanhou. A médica era uma senhora mais velha, mas não idosa. "Então, é assim, D. Catarina. A menina partiu duas costelas, por isso vai ter que ficar em repouso absoluto durante duas semanas". Não queria acreditar; não queria mesmo. "O quê?", perguntei, feita parva. "Sim, partiu a terceira e quarta costelas e acho que a segunda está rachada. O maior problema disto é que basta um movimento mais brusco e uma delas fura-lhe o pulmão ou o coração e pronto.". Fiquei em choque. Aquilo era a sério? O meu pai fez umas quantas perguntas e a médica foi respondendo sem qualquer sentimento. Quando saímos de lá e fomos ter com a minha mãe, contámos-lhe tudo.
Saí do hospital quase à uma da manhã. Não me conseguia mexer das ancas para cima, excepto o braço direito, que parecia nem pertencer ao corpo, de tão ágil que estava. Antes de irmos para casa, passámos pela minha avó, que soubera do sucedido pelo meu pai. Ela estava preocupadíssima. Seguimos, depois, para casa, chegando quase às duas da manhã. Decidi ligar a uma amiga da faculdade a contar-lhe tudo, pedindo-lhe para avisar os professores que eu teria que faltar duas semanas, mas que enviaria um e-mail a explicar melhor. Depois, bebi um copo de leite e fui para o quarto. A minha irmã e a minha mãe ajudaram-me a despir a roupa da rua e a vestir o pijama, assim como a deitar-me. As dores eram horríveis e eu demorei a adormecer. Não me podia mexer. Tinha que ficar a olhar para o tecto até 'apagar'. Por fim, adormeci.
A recuperação desta experiência foi difícil. Muitos me perguntam se fiquei com medo de conduzir ou de andar de carro. Não, não fiquei. Hoje, conduzo com mais cuidado, mas não tenho medo. Conforme o tempo vai passando e eu vejo as fotografias que todos tirámos do resultado do acidente, apercebo-me da sorte que eu e a minha irmã tivemos naquele dia. Já muita gente morreu naquele sítio, daquela maneira. Dou graças à sorte e ao meu instinto - com o risco de parecer convencida - porque foi isso que nos salvou naquele 23 de Abril. Este será um momento na minha vida que nunca esquecerei...
"The sea wants to kiss the golden shore
The sunlight warms your skin
All the beauty that's been lost before
Wants to find us again
I can't fight you anymore
It's you I'm fighting for
The sea throws rock together
But time leaves us polished stones
We can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love
Birds fly high in the summer sky
And rest on the breeze
The same wind will take care of you and
I will build our house in the trees
Your heart is on my sleeve
Did you put there with a magic marker
For years I would believe
That the world couldn't wash it away
'Cause we can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love
Are we tough enough
For ordinary love
We can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love
We can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love"
The sunlight warms your skin
All the beauty that's been lost before
Wants to find us again
I can't fight you anymore
It's you I'm fighting for
The sea throws rock together
But time leaves us polished stones
We can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love
Birds fly high in the summer sky
And rest on the breeze
The same wind will take care of you and
I will build our house in the trees
Your heart is on my sleeve
Did you put there with a magic marker
For years I would believe
That the world couldn't wash it away
'Cause we can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love
Are we tough enough
For ordinary love
We can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love
We can't fall any further
If we can't feel ordinary love
We cannot reach any higher
If we can't deal with ordinary love"
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