O tempo dos sonhos
voltou.
Primeiro, acontecem
uma ou duas vezes por semana; depois, passam a repetir-se; por fim, assaltam-me
a mente todas as noites. Se sonho, durmo, mas não descanso. Se não descanso,
bem, sabemos como isto acaba. Como sempre, quando se inaugura esta fase, a espiral
começa a tornar-se visível aos olhos dos que me querem e que estão lá. É um
processo que demora e que eu me esforço para evitar que passe para o mundo dos
outros. Por enquanto, ainda não notaram, mas, quando estiver bem avançado, o sucesso
será inexistente, claro está. A vida falha-me porque eu sou falível.
Os meus sonhos são
sempre vívidos. Isso é talvez o pior de tudo: não conseguir distinguir a
realidade do imaginário. Acordar a perguntar-me se isto ou aquilo aconteceu
realmente ou se sonhei. Parece engraçado, mas não é. É horrível. «Eu disse
mesmo aquilo?». «Aquela pessoa fez tal coisa?». Já aconteceu – e mais do que
uma vez – ter tomado decisões que, aparentemente, nunca estiveram em cima da
mesa e que tiveram de ser outros a esclarecer-me. Seria bonito se os meus
sonhos fossem bonitos.
Tenho sonhos bons mas
grande parte do que se passa no meu subconsciente durante a noite não é
adorável. São muito mais frequentes os pesadelos. Acordo de peito pesado,
lágrimas nos olhos, a cabeça a explodir. Outras vezes, são os gritos ou os
soluços que me resgatam daqueles infernos. Outras, não acordo. Nessas vezes, as
manhãs são quase impossíveis; a dúvida instala-se e não desaparece até ter tudo
comprovado e isso provoca-me um sentimento de impotência que mata todas as
esperanças de existir bonança nas minhas noites. Sei que a terapia está a
resultar quando já não desperto numa madrugada com as minhas próprias mãos
agarradas ao pescoço, sufocando-me até à espinha, deixando um rasto de sombras
vermelhas na minha pele apática. Sim, isto acontecia.
Já estou na etapa dos
sonhos diários há seis dias. Já acordo durante a noite com o olhar húmido, o
sal a banhar-me as bochechas, a dor a manchar a almofada. Já estou na fase do
peito pesado antes, durante e após o sono. Já cheguei ao momento em que não
quero ir dormir porque sei que será doloroso. O ar já me falta demasiadas
vezes. Os cenários que vagueiam pelos meus olhos nestas alturas já começaram a
entrar no campo da sensibilidade. Costumo ter sonhos sobre as coisas do dia-a-dia,
do trabalho, do quotidiano, como muita gente. Contudo, quando a porta dos temas
sensíveis é aberta, a situação agrava-se. E, nestes dias, tenho sonhado
demasiado com uma amiga que me é muito querida e com a minha avó.
A saudade pesa tanto
no meu peito que mal me aguento em pé quando penso nisto. Na realidade, ainda
não escrevi o que quero escrever e já estou a lacrimejar. Tenho muitas saudades
da minha avó. Tenho tido cada vez mais, ultimamente. Talvez seja a fase da vida
em que estou agora e que me está a testar. O que é certo é que a nuvem que me
envolve está cada vez maior e sinto que estou a perder o rumo. A falta que ela
me faz está a tornar-se insuportável e os meus sonhos só pioram este vazio.
Sonho com o passado.
Recordo os dias em que ia visitá-la ao hospital, da primeira vez que ela esteve
internada, em que se descobriram os seus problemas respiratórios. Lá subia eu,
sempre por volta da uma da tarde, ao quarto piso, para almoçar com a minha avó.
A minha marmita nos joelhos, enquanto me sentava na ponta da sua cama e ela se
endireitava com cuidado. Os olhares coincidiam naquela hora de partilha,
naqueles momentos de encontros quase espirituais. A minha coxa encostada à sua
canela, protegida pelas mantas; o meu torso virado na direcção do seu peito,
unindo os nossos corações. Os sorrisos entre as conversas sobre o tempo, a
comida e os «então, e hoje, o que vais fazer na biblioteca?». Foi nesta altura
que me apercebi que, um dia, eu teria de a deixar. Por isso, e isto lembro-me
perfeitamente, transformei aqueles momentos em tesouros. Gravei-os como um filme
estático, silencioso. Os instantâneos tornaram-se feixes de luz que, de quando
em vez, pintam o lado pálido da minha alma, permitindo-me sorrir com a verdade
no rosto.
Estes meus sonhos,
porém, instalam a melancolia nessas imagens. A felicidade vai-se deturpando à
medida que a tristeza vai conquistando aquelas terras da memória. A mágoa, o
pesar, a angústia, tudo isso começa a tomar conta das coisas bonitas que uma
vez recordava e que, agora, os sonhos pretendem tornar dolorosas. E isto
arrasta-se durante o dia. Este é o verdadeiro perigo da minha mente: quando o
meu subconsciente começa a dominar o consciente e a realidade passa a ser
outra. A minha salvação são as fotografias e o seu nome na minha mão. Aí, sei o
que é falso e o que é real.
O mesmo não acontece
quando o centro do palco é a minha querida amiga. Aqui, coroa-se a dúvida como
se não existisse outro herdeiro, como se a nossa amizade valesse absolutamente
nada. Vivo com o medo constante que ela me largue, deixe de querer estar
comigo, arranje alguém que me substitua, me abandone. É um medo constante, sim,
e pontual, mas não assíduo. Não se traduz nos meus pensamentos a todo o
momento. É constante por que sempre existe, porque parte de mim tem como certa
a ideia de que, um dia, este irá concretizar-se, como se de uma
profecia se tratasse. Este medo constante de abandono apropria-se do meu corpo
especialmente quando entra alguém novo na vida dela ou ela começa a passar mais
tempo com outra pessoa e eu não sou incluída nesses planos. Quando estou bem,
fico feliz por ela, fico apaixonada pela inexistência de uma dependência em
relação ao meu ser, fico contente com a boa maré da vida dela. Quando estou bem
e ela está bem, fico bem.
Porém, quando estou
nesta fase dos sonhos, o medo apodera-se de tudo. As minhas engrenagens mentais
começam a trabalhar contra mim, pondo em causa tudo o que eu achava ser para
ela e ela ser para mim. Os demónios de que sou feita tomam conta do meu mundo e
a realidade deforma-se:
«Afinal, não somos tão amigas assim. Afinal, não sou essencial na vida dela. Claramente, ela está bem sem mim. Na realidade, até acho que está melhor. Sim, ela nunca foi minha amiga. Não há razões para isso. Acho que ela só andou a aturar-me este tempo todo porque é demasiado boa pessoa e não me queria dizer não. É, é isso. Eu só estorvei a vida dela. Só lhe dei dores de cabeça. Nem sequer fui uma boa amiga. Daquela vez, disse-lhe aquilo e magoei-a. Sou a pior amiga de sempre. Ela tem razão em deixar-me. Eu não mereço uma pessoa como ela. Agora, ela tem aquela outra pessoa, também não precisa de mim para nada. Era óbvio que ia ser substituída. Nunca ninguém me quer, na realidade. Eu é que acho que as pessoas gostam de mim. É tudo mentira. Eu não mereço ter estas pessoas na minha vida. É tudo mentira».
E repete.
E repete.
E repete.
É um discurso
contínuo, um monólogo imparável que me envenena o âmago, de noite e, ao fim de
um tempo, de dia também. Sonho com isto uma e outra vez. Tenho pesadelos repletos
de momentos em que ela e outras amigas me tiram das suas vidas, em que todos
parecem aperceber-se que eu sou nada e mereço ainda menos. Pesadelos em que os
protagonistas descobrem que é mais fácil contar os pontos luminosos na noite
estrelada do que encontrar razões para me amarem. Desenterro os meus gritos
quando os vejo afastarem-se de mim, nos meus sonhos. Esmago o meu peito quando
noto a sua indiferença perante a minha existência. Sinto-me brutalmente
sacudida para fora do cenário, como a areia da praia desesperadamente agarrada à
toalha que sobre ela descansa, e que dela é obrigada a despegar-se, porque
ninguém a quer levar para casa. Desviado para o lado, como um emplastro
indesejado, o meu ser torna-se um empecilho, o meu corpo um vazio silencioso e
a minha personalidade um borrão colectivo, desaparecendo na névoa da
inexistência. Como um apagão ambulante, como um nada que carrega apenas
palavras insignificantes e sentimentos impossíveis, sinto que mereço aquele
abandono porque mereço não ser amada. Por outras palavras, volto a acreditar em
tudo o que tenho combatido ao longo de quase quatro anos de psicoterapia.
Resultado? Afasto-me,
começo a desligar, faço autosabotagem; é só escolher. Acaba bem? Por acaso, tem
acabado, porque tem-se solucionado. Não consigo é ver esse final feliz, neste
momento. Ainda estou no meio da tempestade. A bonança ainda está longe e eu nem
consigo imaginá-la, quanto mais descrevê-la. Vamos só esperar que isto passe
depressa. É a única esperança que consigo arranjar. É a única energia que
consigo ter.
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