Que músicas já foram comentadas. . .

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sábado, 16 de setembro de 2023

"The Only Exception", Paramore

    Há quase dez anos, depois de uma segunda tentativa de suicídio, foi-me diagnosticada uma depressão major. Fiz terapia numa unidade de saúde pública, mas não correu bem e, por isso, abandonei o tratamento. Anos depois, com o incentivo de várias pessoas, principalmente da minha irmã, voltei a fazer terapia, desta vez fora do SNS. Ainda não abandonei o tratamento e não conto fazê-lo. Em 2020, tive uma re-avaliação da minha condição médica e, afinal, não tenho uma depressão major. Não quero indicar o seu termo aqui, mas chamemos-lhe «depressão de dois pólos» (e não, não é bipolaridade). Interessa somente dizer que comecei a tomar medicação e que continuarei durante anos. Portanto, faço psicoterapia e tomo drogas. Esta combinação já me salvou várias vezes de profundas crises depressivas e novas tentativas de suicídio, pelo que não me arrependo de ter procurado ajuda. É fácil? Não, mas tem-me mantido aqui. Por que são estas informações importantes? É que este é um tratamento de ANOS e o caminho para a recuperação não é linear. A minha depressão domina-me há mais de duas décadas, e não é em seis meses que ela vai resolver-se. O progresso também não vai ser sempre a subir. Há altos e baixos, momentos em que recuo e outros em que avanço e ter noção disto é importante quando lidamos com alguém que esteja numa condição semelhante à minha. Pode parecer confuso e este texto mostra-o, de certeza.

    Não sei como aconteceu isto, não sei como cheguei àquilo que vos quero contar. Não me apercebi que aquela fase dos sonhos que tive em Fevereiro era o prenúncio da fase mais grave da minha doença desde os anos da pandemia. Creio que o facto de não ter o meu tempo nem o meu espaço tenha contribuído, em parte, para esse desapercebimento. Também o afastamento físico das melhores pessoas da minha vida não terá ajudado, além da já habitual desilusão em termos de crescimento académico.

    Este texto tem muitas camadas, mas para contextualizar basta dizer que eu achava que as minhas melhores amizades foram um conjunto de mentiras. Mais precisamente, eu acreditava que tinha sido enganada outra vez e que nunca deveria ter acreditado na falsa amizade que supostamente alguém desenvolvera comigo. Tudo porque essa pessoa não esteve inteiramente focada em mim e nos meus problemas durante mais de três dias seguidos. Tudo porque eu achava que essa pessoa não dava tanto àquela amizade como eu e que eu cometera o erro de ser sua amiga. E foi assim que começou.

    Falhei, como sempre falho. Entrego-me inteiramente e espero sempre que o retorno seja inteiro; mas não é. Será este o meu fatal destino em todas as minhas ligações humanas: entregar-me sem existir um alguém para me receber ou para devolver o eterno que lhes dou? Servirei apenas para afogar as mágoas das almas que sofrem? Serei apenas um farol temporário, onde um corpo aporta por momentos, enquanto aguarda a chegada do seu navio que o leva a um porto seguro? Serei eu um cofre que permite guardar as preciosas energias que apenas são resgatadas num instante de desespero e que é deixado vazio quando o Sol brilha?

    Falhei. Falhei outra vez. E falhei pelo simples facto de ser eu. Falhei porque quero cuidar, porque quero proteger, porque quero amar e porque quero que me amem na mesma medida. Será assim tão errado, será assim tão difícil de atingir, será assim tão complicado de perceber? Não guardo o que sinto e esse impulso emocional leva-me ao limite. Por isso, falho. Não por que dê menos, mas por que dou demais. Não por que me escondo, mas por que me mostro demasiado. Não por que rejeito, mas por que aceito o pouco que me dão de volta. Não por que não quero; é exactamente por que ambiciono que sempre cometo o mesmo erro. É um ciclo que sempre se repetiu e que aparenta ser inquebrável. E o erro é sempre meu.

    E será talvez o único erro que nunca consigo emendar e com o qual nunca aprendo. Será talvez o erro que mais me pontua o peito com remendos invisíveis, que mais feridas deixa abertas, que mais cicatrizes desenha no meu corpo. Mas tenho consciência de que é um erro só meu, só meu porque só eu me dou conta dele. Sei que caminho ele segue; sei sempre onde começa, tenho certezas de onde acaba. Vejo-o percorrer essa ténue linha, essa corda-bamba, como se nem a maior tempestade o desequilibrasse. Vejo-o nesse trilho a partir da janela do meu coração, contornando a mesa em passos lentos, vagarosos, subtis, e nada faço para o impedir. Vejo-o seguir com impetuosidade para o seu destino final; quero pará-lo mas nunca consigo abandonar aquela mesa, aquela janela, o meu coração. Petrifico-me na esperança que desta vez seja diferente. Petrifico-me com o poder que ele emana sobre mim, com o poder que ele liberta nos palcos por onde passa. Petrifico-me na vontade de destruí-lo. Mas a impotência apodera-se de mim e a esperança deseja sempre o mesmo: que esse todo que eu entrego seja sempre recíproco. E não é. Nunca é. Nunca será. 

    Durante anos, perguntei-me pelos motivos desta inércia, desta incapacidade de mudar esta pequena e desastrosa característica que me atormenta a alma. A resposta à minha pergunta é longa e complexa; não é fácil de ouvir, não é fácil de processar, não é fácil de absorver.

    Recentemente, este erro voltou para me assombrar e, desta vez, atingiu-me como uma adaga no coração, torcida uma e outra vez, desferindo golpe atrás de golpe, matando-me vagarosamente. Desta vez, não estava à espera, não o vi sair do seu esconderijo e tomar conta do meu cenário. Desta vez, não tive um único momento de lucidez para perceber que as minhas amizades iam ser absorvidas pelo pior de mim e que isso ia acontecer, precisamente, na altura em que deveríamos estar todas em sintonia, num descanso colectivo. Não me apercebi e o erro cometeu-se.

    Neste momento, estou sozinha, em lágrimas, a escrever estas palavras. Há dias, semanas, meses que não falo com as pessoas importantes da minha vida, a quem dou tanto. Porquê? Por que os expulsei temporariamente do meu mundo. A anestesia produzida pelo meu cérebro prolonga-se no meu próprio corpo e impregna todas as minhas vontades, as minhas acções, atitudes e palavras. Deixo de ser o eu do costume e a outra mulher que vive em mim decide governar todos as partes do meu mundo. Essa mulher é aquela que eu tenho educado e combatido nas minhas sessões de psicoterapia. É ela a outra interlocutora nos meus diálogos interiores e é ela que me faz crer nas traições que os meus amigos supostamente cometem. Essa ‘outra Catarina’, como lhe chamo, é a que convence a ‘verdadeira Catarina’ a magoar as pessoas que a querem bem, mandá-las embora e cortar laços sempre que algo menos positivo acontece. É ela que demoniza todos os sorrisos que alguma vez recebi, todas as boas atitudes que alguém teve para comigo, todos os abraços, os desabafos e carinhos, todo o bom que há nos outros. É ela a mãe do erro que tenho repetido e de quem ainda não conhecia a origem.

    Aprendi com a minha psicóloga que não posso tomar acções precipitadas quando algo deste género acontece. Tenho uma amiga que está à espera há semanas que eu lhe explique por que é que fiquei chateada com ela. A ‘outra Catarina’ – chamemos-lhe Vitória, para simplificar – não se cansa de recomendar-me: “esquece-a. Como deves imaginar, essa pessoa está cansada de esperar e não está para aturar estas merdas, por isso nem vale a pena dizeres nada”. Discuto com esta mulher, resultado de anos de terapia: “mas ela diz que espera, que me quer bem, que tem saudades minhas e que me quer ver feliz. Ela diz que vai estar lá para me ajudar. E a verdade é que ela já me deu provas disso”. De nada serve. A Vitória insiste: “Mentira! É tudo mentira! E tu és uma estúpida por acreditares nessas merdas. É que nem faz sentido alguém dizer-te isso. Não faz sentido alguém suportar este tratamento de merda que dás às pessoas. Ninguém está para aturar estas porcarias que tens na cabeça. Ninguém quer lidar com os teus problemas mentais. As pessoas cansam-se de ti, idiota. Pensava que já tinhas aprendido isso. Querias o quê? Que fosse tudo para sempre? Estúpida!”.

    Esperei para falar com a minha psicóloga. E foi nesta última sessão que a Vitória nomeou o erro que eu repito inconscientemente: «sempre». Seis letras que eu não fazia ideia terem tanto poder sobre mim. Uma palavra nada saudável nas minhas relações. Um advérbio que arruinou tanto na minha vida. Finalmente, percebi. «Sempre» é aquilo que dou e aquilo que espero receber de volta. E isto nada tem de bom. Na realidade, é terrível. De repente, vi o nível de exigência com que pinto as minhas amizades mais próximas, aquelas que mais estimo, e vi os motivos que me levam a cometer o mesmo erro: exigo o «sempre» que lhes dou. E o problema não está no exigir; o verdadeiro problema é eu achar que uma relação saudável se deve basear no «sempre», uma eternidade quase a roçar a dependência. “Eu acredito que uma relação saudável é estar sempre lá, sempre disponível, sempre focado no outro, sempre ao seu lado, ser sempre seu, a todo o segundo”: é esta a premissa que a Vitória me fez crer ser a correcta durante anos, sem que eu me apercebesse. Ela domina-me o coração com aquele «sempre», um «sempre» que ela sabe que é impossível, totalmente irrealista, que ninguém algum dia irá cumprir, e usa-o para vencer as inúmeras batalhas que eu tenho travado, a fim de ficar melhor, a fim de me tratar, a fim de me curar. E a Vitória exige-o de toda a gente, porque nunca o teve quando deveria.

    Esse «sempre» transforma as cores vivas das minhas amizades no pior retábulo que pode existir. Ele convence-me de que, quando alguém não corresponde às minhas expectativas, então, essa pessoa nunca me quis na sua vida ou, pior, esteve a desempenhar um papel quando foi gentil ou boa pessoa comigo. Sim, aquele «sempre» evoca a desilusão, falsidade e mentira a partir do momento em que essas pessoas cometem determinado erro; e eu acredito, sem pestanejar. Eu não concebia que alguém-que-me-pudesse-querer-muito pudesse errar, porque, na minha cabeça, isso apagava todas as coisas positivas e todas as provas de amizade que tinham existido antes. Eu não acreditava que essas pessoas-que-me-queriam-muito podem, sem qualquer intenção, fazer ou dizer algo que me pudesse magoar (ou que não estivesse em sintonia comigo) e isso não significar que não me queiram bem ou que não me queiram ajudar e que não estejam a dar o seu melhor. Basicamente, o «sempre» impede-me de ver os outros como seres humanos que cometem erros, tal como eu. Tal como eu, os outros também cometem erros. Tal como eu.

    Senti-me enojada quando percebi que, durante anos, andei a cobrar aos outros algo que eu não aceito em mim mesma, algo de que tenho um medo imenso, algo que não perdoo em mim: falhar. Percebi que uma das piores coisas que os meus anos de traumas me deram foi achar que era inaceitável e errado viver com o acto humano de falhar, que a demonstração de humanidade que é falhar para comigo ou para com os outros é algo imperdoável. Por outras palavras, a Vitória fez-me jurar, sem que eu notasse, que o verbo «falhar» deveria ser erradicado do meu vocabulário e que, se algum dia, ele desse o ar da sua graça, deveria ser profundamente punido. E isto servia para quando eu falhava comigo e com os outros, mas principalmente quando os outros falhavam para comigo, quase como se fosse uma ofensa.

    A melhor analogia para isto seria a da construção de um edifício: o edifício é a relação de amizade. Esta vai sendo construída bloco por bloco. Um dia, quase no topo, a pessoa comete um erro: a cor do tijolo é diferente das outras. De repente, a Vitória toma as rédeas e decide: “aquele tijolo amarelo é um erro, por isso não podemos acreditar nestes tijolos vermelhos que ela foi pondo; o veredicto é a demolição”. E assim se destrói uma relação. No fundo, descobri que a pior auto-sabotagem que alguma vez vi é aquela que tenho cometido sem me aperceber. E aquilo que vocês lêem agora é apenas uma pequena parte do que está a acontecer.

    As consequências físicas deste «sempre» são várias e dependem do momento que esteja a atravessar, nessa fase depressiva. Nesta altura, neste preciso momento em que escrevo isto (e sublinho que já estou melhor), já sou capaz de sair da cama às duas da tarde e cozinhar o pequeno-almoço tardio. Já tomei dois banhos em quatro dias e hoje consegui lavar os dentes a todas as refeições. Hoje também tive energia para pentear o cabelo e, pela primeira vez em dias, não me apeteceu dormir durante a tarde. É verdade que estive bastante tempo a fazer scroll no Instagram, sem ver efectivamente coisa nenhuma, mas sei que foi menos mal que dormir durante a tarde. Ah, hoje também pus creme hidrante nas minhas lindas tatuagens e cantarolei enquanto lavava a louça.

    Mas eu digo-vos como estava a semana passada e a anterior: dormia o dia quase todo, comia mal (ou mal comia, dependia da hora a que me levantasse), não lavava os dentes, não tomava banho, não saía de casa, não respondia a mensagens ou telefonemas, reservava a minha energia para as chamadas quase diárias com os meus pais (para não desconfiarem, claro), não sabia literalmente que dia ou hora eram. O meu corpo era um saco de cimento, a minha vontade de viver era continuamente nula. Arrastava-me pela casa quando me mexia. Não via, não cheirava, não sentia. Era absolutamente nada. Tudo por culpa daquele «sempre», que me deixou profundamente irritada e desiludida com uma amiga, mas que, afinal, essa atitude era uma projecção minha. Eu culpei-a do «sempre» que julgava que deveria ser. Eu culpei-a por um erro que me define. Eu culpei-a pelo horror que nasceu em mim, que vive em mim e que combato sem fim. Fui eu.

    Desculpa. Amigas?

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