Sempre que posso, faço por ser uma voz activa na implosão da ignorância que tanto por aí se vê sobre doenças mentais, principalmente as que me tocam no âmago, por razões óbvias. Quanto às outras, procuro saber mais e difundir esses conhecimentos sempre que sinto que o lado de lá está interessado em compreender maleitas que matam tanto ou mais que o cancro – algo para o qual toda a gente é muito sensível. Sei que é uma batalha difícil; as pessoas ainda têm dificuldade em ler a depressão e a ansiedade como doenças e não como estados de espírito ou fraqueza emocional. Devagar se vai ao longe, penso; mas quão devagar estamos a ir?
Por forma a acordar os seres do seu sono ignorante, costumo
comparar (para efeitos puros de analogia) estas doenças com outras mais
«respeitadas», como o cancro – por vezes, e para simplificar, a gripe ou a
fractura de um fémur. Outras, faço um desenho imaginário, de maneira que o meu
interlocutor siga o meu pensamento; fazer um desenho, na realidade, ajuda. Na maior
parte das vezes, não sou bem sucedida: as pessoas não compreendem, ou não
querem compreender, que, tal como ninguém gosta nem escolhe estar vivo e com
cancro, ninguém gosta de estar vivo e querer estar morto ou passar o dia em
alerta, a pensar o pior de tudo. Não são escolhas, são doenças.
Aqui há dias, numa conversa aberta com os meus pais (que pouco
percebem de doenças mentais, mas que fazem um esforço imenso para estarem lá),
descobri algumas razões que explicam a ineficácia da minha acesa militância.
Claro que não foi óbvio; discutimos vários assuntos relacionados com a
depressão e a ansiedade e eu fui-me ficando, pensando e reflectindo no nosso
diálogo. Algumas palavras-chave saltaram-me à vista e algumas suposições que eu
achava implícitas revelaram-se mais complexas do que eu pensava. Percebi que,
focando-me tanto nas minhas guerras, ignorava as deles.
Não tomem isto como egoísmo: combater uma doença mental é tão
válido como fazer quimioterapia ou ficar de cama a curar uma gripe. Não estamos
a medir a gravidade de uma e outra situação; estamos a pô-las todas numa mesma
caixa, uma caixa de madeira gigante com a palavra «doenças» carimbada em letras
garrafais em todos os seus lados. Não quero discutir nem quero levantar nenhum
debate que diga que é pior morrer de depressão que de cancro; o que quero é
que, da mesma maneira que seja mau ter cancro, também seja mau ter depressão ou
gripe ou ansiedade ou tuberculose ou doença bipolar ou sarampo ou transtorno de
personalidade borderline. Todas são
doenças; ponto.
Quando se tem depressão ou ansiedade extrema, não é só o doente
que sofre; os seus entes queridos, as pessoas que estão à sua volta também
passam dificuldades. É-lhes difícil compreender as nossas atitudes, não sabem
como lidar com os nossos ataques, as nossas crises, os altos e baixos tão característicos de uma doença tão silenciosa mas tão ensurdecedora ao mesmo
tempo. O problema complexifica-se com a existência de todas as variantes da
depressão, visto que, dependendo daquilo que as causa, os sintomas e respectivo
tratamento são diferentes.
Explico que há vários tipos de depressão, que não é só e apenas
a pessoa estar numa profunda e constante tristeza para a doença ser
considerada. Por exemplo, a depressão funcional redirecciona as forças das nossas
vontades para a construção de uma máscara que se mantém perfeitamente
operacional durante o horário de trabalho ou em eventos sociais, mas que,
chegando a casa, se desfaz em pedaços, não restando nada a não ser areia nos
dedos. A depressão em dois pólos, que caminha entre os limites da mania e da
depressão profunda, eleva-me a fases de imensa loucura, ansiedade, pensamentos
acelerados, hiperactividade e, tempos depois, destrona-me, atirando-me para uma
escuridão imensa onde apenas conheço a angústia, o sofrimento, a inutilidade e
a urgência da fuga para outro lado que não este mundo. Ter depressão não é
estar triste; é muito mais.
Tenho percebido que, da mesma forma que eu não entendo os
motivos que, por vezes, me levam a ficar numa fase depressiva em determinada
altura, os meus pais também não, nem alguns amigos. A ignorância deles, porém,
não é propositada nem insultuosa, como compreendi recentemente. Ninguém lhes
ensinou a lidar com uma pessoa assim e eles nunca tiveram a necessidade de
aprender. Naquela conversa, tentei elucidá-los para as coisas que me atravessam
os olhos quando passo por períodos mais negros da doença. As reacções que são
em mim desencadeadas por uma determinada palavra que voou da boca deles ou a
resposta agreste que atirei para fechar uma pergunta desconfortável ou até o
olhar que me invadiu como resultado de uma atitude com a qual não concordei;
tudo isso tem uma explicação. Eu sei que tem, mas, por vezes, é difícil
verbalizá-la; às vezes, nem eu mesma sei, no momento em que o faço, os motivos
para tal.
Neste aspecto, a minha mãe não fala muito mas o meu pai quase
fala pelos dois. Explicou-me o que se estava a passar nas cabeças de ambos, as
dificuldades que eles sentiam em lidar comigo e com os meus demónios, as
barreiras que eles viam a todo o momento e que tanto esforço faziam para
ultrapassar, os obstáculos que eles desviavam do caminho mas que não sabiam se
estariam a fazer o correcto. Por outras palavras, mostraram-me que, tal como
eu, também eles se encontravam num mar revolto sem qualquer conhecimento de
navegação nem um capitão, por vezes, apenas com uma jangada. Lembro-me do meu
pai quase gritar «como é que é suposto eu lidar com isto tudo?! Nunca sei o que
é suposto fazer!». E eu respondi: «não sei, pai. Eu própria ainda estou a
aprender».
Óbvio que ele não ficou totalmente satisfeito com a resposta,
mas percebi que ambos tivemos um vislumbre das dificuldades que o outro
enfrentava. Foi aqui que acordei do meu sonambulismo. Foi aqui que compreendi
que, da mesma forma que eu tenho dificuldades em pedir ajuda, o lado de lá pode
sentir-se incapaz em ajudar-me como deveria. Pela primeira vez em tantos anos,
vi que, na realidade, havia outras formas de sofrer de uma doença que não é
nossa. Amar alguém que está doente também é um processo que envolve sofrimento,
impotência e, no limite, alguma solidão. De repente, compreendi que também eles
tinham incertezas e inseguranças sobre a melhor maneira de cuidarem de mim e,
pela primeira vez, admitiram-mo. E, pela primeira vez, eu acreditei que eles,
de facto, queriam o melhor para mim – e o melhor de mim.
No fim de contas, o mundo tem razão: nunca estamos sós.
Obrigada.
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