Quero-te. És um sonho que caminha por entre o nevoeiro dos meus
medos. És invasor de lugares desconhecidos, repleto de exotismo e, ao mesmo
tempo, de uma autenticidade tão natural que parece que não existes como homem.
És pó colorido de deserto mate, opaco como água e transparente como luz. És
fruto da natureza, tão selvagem quanto as flores que cuido com sorrisos. És
tudo ao mesmo tempo, como se nada fosse diferente. És diferente sendo tão
vulgar.
Quero-te. E atrofia-me o coração não te ter. Parece que tudo se
despedaça dentro de mim quando sei que não te tenho. Vazios inteiros
acumulam-se no meu peito mal alinhavado. Estou curada deste mal, mas tu... Tu
recordas-me os meus tempos de pano velho, aqueles tempos em que andava num
farrapo, os tempos em que mal andava. Tu, um ‘meu’ distante, recordas-me um
sofrimento de outrora, que pensava ter já esquecido. Mas, de repente, tudo
volta. E tudo vai, subitamente, da mesma forma como veio. ‘Vai’ e ‘vens’ que me
assustam e que me apaixonam ainda mais.
Quero-te. Explode-me o peito só de te imaginar meu. Enche-me a
cabeça só de te sentir meu. Quero ter os teus ‘bons-dias’ junto aos meus
lábios. Quero o teu olhar a repreender as minhas atitudes. O teu beijo no meu
pescoço. Os teus braços na minha cintura, nas minhas costas, nos meus ombros.
Quero sentir o teu peito bater junto ao meu. Quero-te a meu lado. Quero ouvir a
tua voz sem pensar nas horas. Quero descobrir cada cor dos teus olhos. Quero
conhecer-te as expressões, as manhas e manias. Quero o teu riso mais estranho,
as tuas marcas de nascença, as tuas irritabilidades. Quero descobrir-te a alma.
Quero-te. O teu olhar arranca-me as flores do peito. As minhas
mãos invejam as tuas de cada vez que as levas ao cabelo de outro mundo. As tuas
costas provocam-me; trazem-me ao de cima uma louca espontaneidade que não
tenho; criam um conflito entre o bom senso de estar em público e o prolongado
abraço que te quero dar e que enceno mentalmente, vezes sem conta. O teu ar
maduro e adulto, subtilmente brincalhão, faz-me sorrir como há muito não
acontecia, torna-me mais tímida e agita-me como o vento que arranca docemente
as folhas das árvores. Os teus passos prendem-me ao chão, como se a gravidade
fosse mais forte do que aquilo que me chama para ti. Os traços do teu corpo
exaltam-me o espírito, montando-o e desmontando-o num incompleto puzzle
de mil peças; como se já não bastasse eu ser naturalmente desfeita. A tua voz
grossa, num tom baixo, transpira mistério e cria suspense, sugando a minha
atenção como se nada mais no mundo importasse. A tua existência faz-me viver e
não apenas existir.
Quero-te. E não quero partilhar-te com o mundo. Quero ser
egoísta, amavelmente egoísta. Quero roubar-te aos teus amigos, ao teu trabalho,
à tua vida. Quero tirar-te do teu mundo para que te juntes ao meu, para depois
voltarmos juntos para o teu. Quero entrar na tua vida mas quero-te na minha
primeiro. Quero ouvir-te dizer o meu nome; quero que o digas quando estás
feliz, num tom mais alto do que é normal para ti; quero que o digas cansado,
tão baixo que eu mal ouça; quero que o grites, irritado, num timbre que a tua
voz não permite repetir; quero ouvir o meu nome passear a tua boca como água
que mata a sede. Quero repetir o teu nome até aprender a gostar dele mais do
que o meu; quero repeti-lo até o sentir meu, até senti-lo nosso; quero evocá-lo
entre quatro paredes, na rua, num jardim, no meu coração. Quero habituar-me às
tuas rotinas, dar-te os ‘bons-dias’, ficar-te com as ‘boas noites’; livrar-te
de mim durante o dia, num acto tão natural como respirar. Quero aprender a
estar contigo. Quero reaprender-me a estar no mundo, contigo.
Quero-te. E não, não quero apenas um pedaço do teu peito. Quero-o
num todo, da mesma maneira que te entrego o meu. Quero-te por inteiro. Quero as
tuas qualidades, os teus defeitos, quero tudo o que venha contigo e tudo aquilo
que não vem. Quero o teu passado e o teu presente. O futuro, quero-o nosso. Quero
decorar-te como decoro a letra de uma canção. Quero escrever-te como se fosses
a minha única memória, a minha mais preciosa recordação de uma vida vazia.
Quero prender-te como se me escapasses entre os dedos. Quero viver-te como se
amanhã partisses e não mais voltasses. Quero-te por tudo e por nada. Quero-te
por aquilo que foste e por aquilo que deixaste de ser. Quero-te assim, belo por
dentro e por fora. Quero ser assim, tua, por dentro e por fora.
Quero-te. Começo a ficar sem timidez, sem forças, sem armas para
resistir a esta sensação. Quero perdê-las. Quero perder as armas, quero perder
as forças, quero perder a timidez, e quero perdê-las para ti. Quero falar-te,
ouvir-te, olhar-te. Quero sentir-te ao meu lado, de mão dada, de mão no bolso,
ao meu lado. Quero sentir-te junto a mim, como um escudo que me protege do
mundo, como um íman que me puxa para ti, como flor hipnotizante que nunca perde
a essência. Quero sentir-te longe, tão distante que me faça correr para ti
quando voltasses. Quero sorrir-te todos os dias, quero chorar contigo em
ocasiões emocionalmente fortes, quero perder o controlo de tudo aquilo que sou,
de tudo aquilo que sei que posso ser. Contigo, sempre contigo.
Quero-te. E nem sequer te conheço...
"Tu, é trevo de quatro folhas
É manhã de domingo à toa
Conversa rara e boa
Pedaço de sonho que faz meu querer acordar
Pra vida
Ai, ai, ai
Tu, que tem esse abraço casa
Se decidir bater asa
Me leva contigo pra passear
Eu juro afeto e paz não vão te faltar
Ai, ai, ai
Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar
E o tempo para, ah
É a sorte de levar a hora pra passear
Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá
Quando aqui tu tá
Tu, é trevo de quatro folhas
É manhã de domingo à toa
Conversa rara e boa
Pedaço de sonho que faz meu querer acordar
Pra vida
Ai, ai, ai
Tu, que tem esse abraço casa
Se decidir bater asa
Me leva contigo pra passear
Eu juro afeto e paz não vão te faltar
Ai, ai, ai
Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar
E o tempo para, ah
É a sorte de levar a hora pra passear
Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá
Quando aqui tu tá
Tu...
Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar
E o tempo para, ah
É a sorte de levar a hora pra passear
Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá
Quando aqui tu tá
É trevo de quatro folhas
É trevo de quatro folhas é
É trevo de quatro folhas
É trevo de quatro folhas é"
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