Esbocei um sorriso triste, libertando as lágrimas num suspiro profundo. Pareceu-me vê-las correr pelo ar frio, sob a mesa parcialmente vazia, como borboletas. Com os olhos secos e de coração apertado, levantei-me devagar. O peso do meu corpo morto excedia as minhas expectativas. As palavras sacudiam-me o cabelo, como se o afagassem. O amor esmagava-me os ossos, corroía-me a mente e queimava-me o peito. Como é que amar podia doer tanto?
Caminhei-me pela rotina como se flutuasse; tudo era automático e eu não tinha controlo sobre as minhas carnes. Peguei num copo vazio, enchi-o de água e voltei a sentar-me na minha mesa predilecta. O café parecia mais cheio que o normal. Havia pessoas novas também. Outrora, a minha personalidade curiosa teria permanecido a observá-las durante alguns minutos, procurando os laços nas suas conversas e desvendando os seus olhares penetrantes. Hoje, tal como ontem, a curiosidade era apenas uma palavra. Como tantas outras, a sua essência compunha-se de letras, não de sentimentos. Estava mal de amores e as palavras, agora, eram só palavras.
Perscrutei o ecrã do meu objecto de trabalho. A página em branco permanecia intocável no meu computador. O meu ganha-pão era escrever; se ainda não o fizera, a minha fonte de sobrevivência esgotar-se-ia depressa. Sou escritora e não consigo escrever. Escrevo com o coração e, quando o coração não quer, as mãos não escrevem, a obra não nasce.
O peito magoava-me; amar doía-me como nunca doera. A dor era tanta que era como se o meu coração tivesse sido esmagado por uma rosa de vidro, espetando infinitos estilhaços num órgão que tanto idolatro. Sabia-o de cor, amava-o com todas as minhas forças e, mesmo assim, isso não chegava. Ele não me queria. Até agora, ser incorrespondida era a forma mais dolorosa que eu conhecera de ser magoada. Apenas as palavras me consolavam. Apenas o meu trabalho, o meu trabalho de sonho que poderia ser simplesmente chamado de «prazer remunerado», era aquilo que me fazia seguir em frente. Mas, hoje, essa força de vontade que me impelia a escrever, a trabalhar, em suma, a viver, parecia estar a esgotar-se.
Dei mais um gole no café expresso, o terceiro antes do almoço, que repousava no canto direito da mesa, junto à janela. O sininho da porta de entrada deu sinal aquando da entrada de um jovem casal, claramente apaixonado, que se sentou na mesa junto à minha, mesmo à minha frente. Decidi que iriam ser eles a minha fonte de inspiração para o trabalho de hoje. A forma como comunicavam um com o outro sem emitir qualquer som, naqueles dez segundos que demoraram a fazer o pedido, chamou-me à atenção. Discretamente, aconcheguei-me no assento, inclinando-me para a janela e reposicionando o computador, para poder observar os seus torsos encherem-se de ar, as suas mãos caminharem uma na outra sob a mesa e os seus sorrisos explodirem pelo ar.
À medida que esperavam, falavam um com o outro, mas também conversavam com os olhos. Quase conseguia ver as suas frases traduzidas nos cantos de cada sorriso. Ela estava de frente para mim e parecia eu há uma semana. Os olhos brilhantes, os lábios num sorriso constante que nunca diminuía, as covas do rosto tão acentuadas que deixavam rugas. O amor transbordava daquela face ruborizada. O seu riso ecoava pelas paredes de tecto alto do estabelecimento e obrigava os restantes clientes a lançarem diversos tipos de olhares na sua direcção. Era interessante reparar como é que as pessoas reinterpretavam as gargalhadas quando se apercebiam do contexto em que elas eram emanadas. Fui tirando notas de todas as suas atitudes, tanto das espontâneas como das claramente planeadas. Ditei-a como um todo para as minhas páginas de trabalho. Agora, queria-o a ele.
Pedi a um dos empregados um «reservado» para pôr na minha mesa. Frequentadora do espaço há vários anos, ele não hesitou em dar-ma. Conheciam-me como família, ali. Por isso, não estranharam quando reservei a minha mesa e me mudei momentaneamente para outra, apenas com a minha ferramenta de trabalho. A mesa que se encontrava a duas medidas a seguir à do casal estava livre e foi aí que assentei para retratar o homem da relação que me prendera o espectro. Muito diferente daquele que hoje me magoava, aquele traduzia os sentimentos da mulher que o acompanhava, exacerbando-os à sua medida, correspondendo às suas emoções como quem se vê ao espelho.
Imaginei-o meu e logo sacudi esse pensamento. Era óbvio que ele nunca seria meu, por isso deixei essa esperança morrer. Mas intrigava-me aquela relação; queria saber mais sobre como eles tinham começado, queria conhecer a sua história. Mais uma vez, seriam as palavras a pintar-me um cenário que eu não tinha. Precisava disso; precisava de ouvir uma boa história, uma história feliz, para conseguir chegar ao fim do dia. Sentia-me compelida a interrogá-los e extrair a sua narrativa como se de veneno se tratasse. As minhas necessidades emocionais estavam a atingir um ponto de ruptura que me faria ultrapassar o limite.
Estava prestes a pisar o risco quando o beijo que vi acontecer me paralisou. Não havia palavras naquele gesto, mas, sem saber como, elas detiveram-me. Por instantes, o meu mundo parou. Mas apenas o meu; o deles prosseguiu de forma extraordinariamente natural, assim como o do estabelecimento. Os empregados continuavam a rodopiar entre as mesas, fazendo dançar as chávenas e pratos que carregavam com elegância. Lá fora, os carros passavam sem parar, e as pessoas corriam para as suas rotinas. Mas o meu mundo estagnara. Fixei o vazio com o olhar, bloqueando a mente, olvidando todo o género de pensamentos positivos.
O que é que é suposto fazermos quando temos tanto para dar e ninguém para o receber? O que é suposto fazermos quando tudo aquilo que temos dentro de nós cresce sem misericórdia? O que é que é suposto fazermos quando o amor, o carinho, a amizade, a confiança, o respeito e a vontade de estar com outro suplantam a racionalidade, transbordando do peito, sem ninguém para os tomar de braços abertos, pelo menos não da forma que queremos? É isto que é ser incorrespondido: ter tudo para dar, mas nada para receber de volta? É transbordar de emoções, que não conseguimos conter, mas ter que o fazer, porque a outra pessoa não as vai aceitar de volta? O que é que é suposto fazermos com isto tudo, engolir e calar? Reprimir? Fingir que não estão lá? Como é que é suposto fazermos isso? Como é que é suposto eu fazer isso? Sinto-me vazia, com tanto para dar. Como é que é possível, ter tanto, sentir tanto e, ao mesmo tempo, sentir nada pelo tanto que tenho?
O tiritar de uma colher de café que esbracejou para debaixo da minha mesa resgatou-me do naufrágio psíquico em que eu me enterrara. Senti-me agitada, como se algo me tivesse derrubado ou atropelado. Senti-me fora de mim. Por momentos, nem me apercebi do local onde estava. Um dos empregados deu-me uma cotovelada, acompanhada de um sorriso e de um «então, fez-se luz?». Lancei-lhe um sorriso rápido de volta e acrescentei para mim mesma: «não, a luz foi-se». Tinha caído na realidade. Estava a observar dois estranhos num encontro e estava a desejar que um deles fosse aquele par que eu queria ter, mas que não me queria a mim.
Olhei para o meu trabalho. Estava feito. Sem saber muito bem como, escrevera umas cinco páginas sobre uma felicidade que não sentia. Cinco páginas recheadas de palavras que, agora, me pareciam atacar e destruir. Palavras que trouxeram à superfície a imagem do meu objecto do desejo. Repentinamente, o meu coração fechou-se. Como fumo, a luz sumiu-se. E então, as palavras deixaram de servir...
"You locked up your heart
You wake up with tears and stars in your eyes
You gave it all to someone that
Cannot love you back
Your days are packed
With wishes and hopes for the love that you've got
You waste it all to someone that
Cannot love you back
Someone that cannot love
Love, ain't this enough
You push yourself down
You try to take confort in words
But words
They cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more
You secretly made
Castles of sand that you hide in the shade
But you cannot hold the tides that break them
And you build them all over again
You talk all these words
You make conversations that cannot be heard
How long until you notice that
No one is answering back
Someone that cannot love
Love, ain't this enough
You push yourself down
You try to take comfort in words
But words
They cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more
Love, love, ain't this enough
Pushing around
You try to take comfort in words
But words
Well they cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more
Someone that cannot love
Someone that cannot love
Someone that cannot love
Love, ain't this enough
You push yourself down
You try to take comfort in words
But words
They cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more
Love, love, ain't this enough
Pushing around
To find little comfort in words
But words
Well they cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more
You know they'll bruise you more
Words they will hurt you more
Words they will hurt you more
Yes they'll bruise you
Someone that cannot love
Someone that cannot love"
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