Que músicas já foram comentadas. . .

"Long Live", Taylor Swift ; "Mean", Taylor Swift ; "Better than Revenge", Taylor Swift ; "Closer to the Edge", 30 Seconds To Mars ; "Nashville", David Mead ; "Count On Me", Bruno Mars ; "Won't Go Home Without You", Maroon 5 ; "I don't wanna miss a thing", Aerosmith ; "Both of Us", B.o.B ft Taylor Swift ; "Somebody", Lemonade Mouth ; "Stay, Stay, Stay", Taylor Swift ; "Two is Better than One", Boys Like Girls ft Taylor Swift (desculpem, não consegui resistir!) ; "Sorte Grande", João Só e Abandonados ft Lúcia Moniz ; "Unbelievable", EMF ; "Hey Stephen", Taylor Swift ; "Fairy Tail", Yasuharu Takanashi (instrumental) ; "Predestination", Fairy Tail (instrumental) ; "Kanashiki Kako", Fairy Tail (Instrumental) ; "Puedes ver pero no tocar", RBD ; "I Knew You Were Trouble", Taylor Swift ; "Coming Home", Diddy ; "Never Grow Up", Taylor Swift ; "Wherever You Will Go", The Calling ; "Chasing Cars", Snow Patrol ; "Demons", Imagine Dragons ; "Beneath Your Beautiful", Labrinth ft Emile Sandé ; "Fantastic Dream", Kaleido Star (Instrumental) ; "A Pele que há em Mim", Márcia com J.P. Simões ; "The Diary of Me", Taylor Swift ; "Impossible", James Arthur ; "I'm Only Me When I'm With You", Taylor Swift ; "A Different Beat", Little Mix ; "All of Me", John Legend ; "Staring at It", SafetySuit ; "A Thousand Years", Chritina Perri ft Steve Kazee ; "Ordinary Love", U2 ; "Stop This Train", John Mayer ; "Radioactive", Imagine Dragons ; "Thinking of You", Katy Perry ; "One Last Time", Ariana Grande ; "Edge of Desire", John Mayer ; "Almost Home", Alex and Sierra ; "What I Did For Love", David Guetta ft. Emeli Sandé ; "My Songs Know What You Did in the Dark", Fall Out Boy ; "Dança", Pólo Norte ; "O Tempo Não Pára", Mariza ; "Long Live", Taylor Swift (2ª versão) ; "Roman Holiday", Halsey ; "Breathe Me", Sia ; "Até ao Verão", Ana Moura ; "Hands to Myself", Selena Gomez ; "Jet Black Heart", 5 Seconds of Summer ; "Let Me Go", Avril Lavigne ft Chad Kroeger ; "Kings and Queens", 30 Seconds to Mars" ; "Todos os Dias", Paulo Sousa ; "Paris", The Chainsmokers ; "In The Blood", John Mayer ; "Stangeness and Charm", Florence and The Machine ; "Another Day In Paradise", Phil Collins ; "Bedshaped", Keane ; "In The Air Tonight", Phil Collins ; "Ordinary World", Duran Duran ; "Trevo (Tu)", Anavitória ft. Diogo Piçarra ; "If I Ain't Got You", Alicia Keys ; "Blinding", Florence and The Machine ; "Someone That Cannot Love", David Fonseca ; "Yellow", Coldplay ; "Promise", Ben Howard ; "The Whole of the Moon", The Waterboys ; "Let it Go", James Bay ; "Believe", Mumford & Sons ; "Say Something", A Great Big World ft. Christina Aguilera ; "Gold Rush", Taylor Swift ; "Blinding Lights", The Weeknd ; "É Isso Aí", Ana Carolina ft. Seu Jorge ; "Renegade", Big Red Machine ft. Taylor Swift ; "lovely", Billie Eilish ft. Khalid ; "The Only Exception", Paramore ; "You're Losing Me", Taylor Swift ; "The Story", Brandi Carlile ; "Guilty as Sin?", Taylor Swift ;

quinta-feira, 27 de maio de 2021

"Blinding Lights", The Weeknd

    “Desejo-te do fundo do meu ser há tanto tempo que já nem o consigo esconder das minhas páginas em branco. Desejo-te demasiado e preciso de expulsar este anseio antes que ele expluda e te atinja, devastando tudo à tua, à nossa, volta. Já não confio na minha boca para se manter fechada sobre este assunto. Preciso mesmo de escrever sobre isto, antes que te procure e to diga na cara; iria destruir-nos aos dois. Prefiro gritá-lo com todas as letras que mereces do que suprimi-lo até que se extinga. Mas, também, seria impossível extinguir-se; a atracção é tão forte que acho que nunca vou superar isto, nem quando já nem reconhecermos os nossos próprios corpos.

    Não descanso enquanto não me desfizer deste peso que carrego desde que te conheci. São demasiados anos a sobreviver a um delicioso inferno cá dentro. A temperatura está sempre demasiado alta quando me surges no pensamento e tudo o que era a minha luz de salvação transformou-se num mar de ilusões voluptuosas em que me afogo por vontade própria. Como se de repente, a minha cabeça deixasse de comandar o meu corpo, o meu coração, para se entregar inteiramente à tua imagem divina, abraçando-te como o meu mecenas, que me alimenta a todos os níveis.

    O palácio para onde me levas não deixa margem para dúvidas: eu sou feliz ali, em cada canto, em cada quarto, porque tu és o rei e eu sou a rainha, as amantes e as criadas; tu estás lá para mim e eu sou toda tua, como se nada existisse entre nós. A liberdade é imperatriz e amor é coisa que não falta. Levas-me por caminhos desconhecidos, com um sorriso hipnotizante no teu rosto esculpido em mármore, qual obra de arte. Mas és real, e eu sigo-te como fiel companheira, a única obediência que suporto no meu espírito. E deslizamos pelos corredores até à próxima porta, uma e outra vez, escondendo-nos no meio dos jardins que deixamos em cada cama, em cada chão, como se os lençóis estivessem vivos e tivessem alma, deixando a revolta pelo caminho.

    Nenhum outro homem poderá alguma vez suplantar tudo o que tu despertas no meu âmago, pois tu sabes exactamente onde é que eu me oculto quando o meu corpo não quer reagir. A minha voz solta-se porque tu sabes precisamente onde é que ela precisa de ser ouvida e que tom deve ser cantado. Descoberta num meio de um lago de águas paradas, tu amotinaste-me e eu sou agora o prenúncio de um oceano insurrecto, incapaz de se conter. A rebelião que nele habita é agora a rotina, como se a bonança fizesse parte de um sonho estranho que vivi em tempos.

    Destruíste a timidez em mim. Foste o primeiro; e, não tenho certezas, mas suponho que, por agora, serás o último. Quando houver outro, as expectativas já estão demasiado vincadas. O próximo terá de te superar, mas tu eternizaste-te na minha mente, no meu coração, no meu corpo. Em cada ruga, em cada dobra, em cada falha, o toque das tuas mãos marcaram o meu físico imaginário, como se o tivesses percorrido de uma ponta à outra, devagar, depressa, a tantos ritmos. E eu nunca consigo desprender-me dos teus olhos, esses olhos que me chamam e me devoram com subtileza e desassossego, provocando um alvoroço no meu peito em cada momento que te fixas em mim. Tudo acontece ao mesmo tempo mas tu fazes-me sentir como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Como é que alguém algum dia transporá a linha que tu desenhaste em mim?

    Naquelas alturas em que a minha cabeça não está perdida no meio de tanta luxúria, o meu pensamento consegue focar-se numa coisa só: aquilo que nos une, a nossa relação, o nosso elo. Nesses momentos, consigo apreciar os nossos silêncios da mesma forma que reverencio os nossos barulhos. Nessas pausas, permito-me desfrutar da tua companhia e apenas dela, ignorando o teu corpo nu e os teus olhares opiáceos e sorrisos sedutores. E tu deixas-me fazê-lo, porque também tu aprecias estes instantes, em que compartilhamos tranquilidade e conforto só com a presença estática um do outro. Paramos para sentir a leveza dos nossos génios, venerar a paz dos nossos âmagos, sorrir perante os nossos corpos etéreos. Paramos para existir um no outro, nas cores mais bonitas que alguma vez vi.

    Mas isto é tudo na minha cabeça.

    Não te vejo há meses. Parece que, na vida real, te perdi para o mundo; e tenho certezas, porque tu próprio mas deste, que te perdi para ela, a tua mais-que-tudo verdadeira, aquela que, de facto, existe nesta forma, na tua vida. Parece que te sumiste para sempre. O facto, porém, é que eu continuo aqui e, tanto quanto sinto, tu estás aqui também, encostado a mim, libertando o teu perfume nas minhas roupas, conquistando-me a cada passo, cada gesto, cada olhar, como se nunca tivesses desaparecido da minha vista, como se ainda caminhasses ao meu lado, abalroando-me com delicadeza, a tua mão abraçando a minha sempre que podia. E é este o grande mal da minha tão fecunda imaginação: é que tudo, amor, tudo é possível..."

quinta-feira, 20 de maio de 2021

"Gold Rush", Taylor Swift

             Olho-te como te olham todas as mulheres que se aproximam do teu planeta e quero-te como todas elas. És aquela imagem brilhante que grita pelas nossas vozes com um ímpeto semelhante ao do fogo-de-artifício, como se os teus olhos não bastassem para provocar esse arrastão constante que o resto do mundo presenceia diariamente. Observo-te como se observa o quadro mais belo de qualquer museu: não te observo, contemplo-te; porque observar-te não basta. É preciso respirar cada fio de cabelo que despenteias em momentos raros, cada pedaço de sorriso que deixas escapar, cada levantar de sobrancelha que fazes acompanhar certos tons de voz.

            A tua personalidade é um íman gigante e, ao mesmo tempo, um espelho convexo que nos engana e desengana a todo o momento, despedaçando qualquer tipo de raciocínio que ainda possamos manter na nossa tão finita sanidade. Isso e a tua energia, que se atravessa pelos campos de corações partidos, libertando uma sensação de conforto imediato, como se tudo estivesse curado em três tempos. As tuas conversas desencadeiam todo um outro nível de manifestação física, como se o ambiente mudasse de forma abrupta: tudo é cor e sossego, como se o preto e o cinzento e tudo o que é negativo não existissem. De repente, existe esperança, algo que nunca há nesta vida ingrata de pessimista incorrigível.

            Olho-te como se esta falsa sensação de paixão fosse verdadeira e não um conjunto de carências que tu tanto consegues preencher. Tento desejar que seja a sério, que eu esteja apaixonada e que tu não me correspondas, porque assim seria tudo mais fácil; porque assim estou já calejada. Mas sou crescidinha agora e sei que é tudo fogo-de-vista, ainda que seja um fogo belo, daqueles que nos devoram por dentro, deixando uma paz indescritível no seu lugar. Sou uma mulher adulta e consigo distinguir entre o que é e o que não é: eu sou carente e tu não és o que eu preciso, nem és o que eu realmente quero. Bem, talvez uma pequena parte de mim te queira realmente; és quase tudo o que sempre quis. E essa parte não é a que está a ser enganada; essa tem certezas do que sente e está a ser racional sobre o que oprime as outras.

            Eu preciso de mim, não de ti. Mas o que é mais bonito nisto tudo é que eu só percebo isso quando estou contigo; porque tu fazes-me ver a pessoa que sou e a pessoa em que eu me quero tornar, que eu mais quero amar nesta vida. Esta traição contínua que me pregas sem te aperceberes é das melhores guerras que me poderia acontecer no ponto biográfico em que estou hoje. Cresci com o meu passado e isso nota-se sempre que estou no teu eterno limbo, pendendo como algo inacabado, mas que já avançou tanto. Essa prisão traz ao de cima as minhas novas defesas, aquelas que desenvolvi ao longo dos anos, fruto de desconexões emocionais, relações unilaterais e inseguranças que se tornaram em autodeterminações.

            Quase todas caímos na tua rede, mas nem todas se dão conta. Há excepções, claro. Há aquelas imunes, que serão, provavelmente, uma força indomável da Natureza, e há aquelas que têm redes ainda maiores e conhecem já todos os truques destes pescadores de corações e não se deixam facilmente enganar. Há todas as outras e depois há aquelas como eu, que se deixam levar pela corrente, pelo puro prazer de sentir algo diferente, com a plena consciência de que, no fundo, não chegaremos a lado nenhum; apenas queremos apreciar a viagem pelos teus caminhos afrodisíacos, uma e outra vez, até que o momento se extinga. Amar o fogo que emana da tua alma é algo que a minha imortaliza em cada conversa, querendo aproveitar cada segundo como se tudo isso estivesse realmente a acontecer. Fisicamente, perco-me nas cores que não vestes; porque se me perdesse nas outras, perdia-me a mim mesma, cessando uma existência dificilmente substituível. E eu não me posso perder em ti, como me perdi em todos os outros que vieram antes.

            Desta vez, estou preparada e sei quanto devo continuar, quando devo parar e quantas partes de mim devo permitir-me espalhar pelos teus campos idílicos. Com o tempo e com a experiência, apercebi-me que há uma forma segura de se gostar um pouco mais de alguém; e é isso que estou a pôr em prática cada vez que estamos juntos. Sou mais madura e sei cuidar de mim primeiro; por isso posso cair na tua armadilha porque tenho todas as ferramentas que preciso para sair dela assim que me apetecer. Porque tu também não me prendes com a força imensa que os outros reclamavam; ou melhor, porque eu já não sou tão ingénua como antes. E a vida assim é mais simples.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"Believe", Mumford & Sons

Querida amiga,

Antes do bom, o mau: vou tentar afastar-te como ninguém, apesar de nunca me largares.

É esse um dos maiores buracos negros que se prendem no meu peito. Será esse que provavelmente verás primeiro que todos os outros. Será esse que te iludirá primordialmente, como se nem o visses chegar. Aliás, no princípio, nem te vais aperceber que ele lá está, que ele me vai sugar, que ele te vai arrastar para terra firme e abandonar-me em alto mar, rodeada dos desperdícios de carinho e das migalhas de amor a que estou já habituada. Vou tentar afastar-te como se essa fosse a única forma de te salvar da ilusão que sou eu, como se essa fosse a única maneira de me proteger de tudo o que poderia correr mal. Vou afastar-te e esse será o primeiro passo para sabotar a nossa relação.

Depois, sempre que tentares forçar a entrada nesse terceiro quarto do grande palácio que é o meu coração, vou magoar a tua essência, vou rasgar-te as feridas, vou despedaçar-te o coração. Tornar-me-ei na tua pior desilusão, o teu maior desgosto, aquela alma que nunca perdoarias e não mais deixarias entrar. Tornar-me-ei no teu último objecto de ódio.

Tenho consciência do estado em que tu ficarias, assim como a tenho do meu próprio destino. Mas será que tu terás consciência de tudo isto? A tua sabedoria tem anos, mas há manhas que nem um ancião dissecaria lá do alto dos seus milénios. Os teus «porquês» ficariam no fim, meio perdidos entre a raiva e o desespero. Só os notarias quando tivesses ultrapassado tudo, tarde demais para tomar qualquer atitude.

Mas deixa que te responda já a todos os teus futuros «porquês».

Este meu buraco negro vai acordando e adormecendo, numa dança intermitente que se dissipa tão depressa quanto nasce. Ele só acordará definitivamente quando estivermos no nosso auge, quando a nossa amizade estiver mesmo a chegar àquele ponto de não-retorno, quando tivermos uma ligação extraordinariamente profunda, quando formos apenas uma. Será na nossa melhor fase que as minhas defesas me vão atraiçoar. Será aí que as minhas paredes se irão reerguer num ímpeto e com uma força imbatível, como se tivessem nascido de novo. Será aí que eu vou questionar absolutamente tudo e vai ser nesse momento que a minha experiência de vida me vai arruinar novamente. Sabotarei tudo o que construímos e fá-lo-ei por que, no meu âmago, a voz da infância grita-me que nunca serei feliz e que, se o sou agora, é por erro do Fado que me pintaram. Pior: ela berra-me que foi tudo mentira e que, na realidade, nunca tu quiseste os meus laços, aqueles que eu tão bem trato, aqueles que eu tão bem faço para proteger. Acredita: será a nossa morte.

Habituei-me a ver o céu azul como uma farsa. Cresci a ouvir que os pássaros cantam porque viver dói e não porque a vida é bela. Acostumei-me à desgraça, ao romper de laços, à malformação do meu castelo da afectividade, ao desmerecimento de qualquer quadro positivo na minha linha cronológica. Aprendi que quando tudo corre bem, algo de mau está para acontecer; algo que destruirá o meu peito, uma e outra vez. Por isso, para não me magoar uma e outra vez, aprendi a defender-me: não sentir, impedir que os outros entrem, andar sempre com um pé atrás, como se os telhados sobre mim fossem de palha, como se o chão que piso fosse nada. Saboto as coisas boas porque não sei lidar com elas. Já escrevi uma vez e reescrevo com as mesmas letras: «Por que não é com o sofrimento que eu não sei lidar; é com a felicidade». É o príncipe dos meus demónios, a sabotagem. Combato-o há demasiado tempo para não reconhecer cada passo que ele irá dar até conquistar o que sobra do meu reino.

Mas não te deixes intimidar, por favor. Não deixes que os meus demónios te afastem de mim, que te verguem como a mim o fizeram. Por favor, sê forte! Forte por ti e por mim. Forte pelas duas. Porque eu não consigo fazer isto sozinha e sei que tu queres acompanhar-me nesta viagem. Tu mais do que ninguém.

Por isso, conto-te agora os bons: ser-te-ei leal, da mesma forma que o és para mim, da mesma forma que o serás para mim.

Por que eu agarro e não solto. Não sou de largar. Não sou de me ficar pela metade; por isso, vou querer dar-te tudo o que tenho e tudo o que não tenho. Dar-te-ei o meu tempo, o meu coração, a minha essência. Ser-te-ei leal, tão leal que até estranharás. Estarei do teu lado quando menos esperares e deixar-te-ei ir quando precisares. Impedir-te-ei de cair quando estiveres perto do abismo, mas deixar-te-ei senti-lo, porque caminhar no fim da linha alimenta a nossa vontade de viver. Roubar-te-ei o ruído de fundo e ajudar-te-ei a ver o Sol como se as nuvens nunca tivessem existido. Ser-te-ei leal, tal como a tua alma mo pediu desde o primeiro dia. E talvez eu ainda não entenda na totalidade o teu humor, talvez eu ainda não decifre facilmente os teus olhares, talvez eu ainda não tenha decorado os teus passos já vividos. Talvez eu ainda tenha muito para descobrir em ti, tal como tu tens para conquistar em mim. Mas uma coisa é certa: por tudo o que eu sou e por tudo aquilo que és, ser-te-ei leal até que me peças o contrário. Em suma, serei aquela chata que te chateia a um Domingo para me dares na cabeça. Porque isso faz parte de ti e tu fazes parte de mim.

Não nos percas pelo caminho.

Um beijo,
C.

"You may call it in this evening
But you've only lost the night
Present all your pretty feelings
May they comfort you tonight

And I'm climbing over something
And I'm running through these walls

I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
Everything you're trying to say to me

I had the strangest feeling
Your world's not all it seems
So tired of misconceiving
What else this could've been

I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
Everything you're trying to say to me

So open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind

Say something, say something
Something like you love me
Less you wanna move away
From the noise of this place

Well I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I wanna believe
Anything you're trying to say to me

So, open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind

So, open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind"

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

"Let it Go", James Bay

    Despedaçada. Outra vez, despedaçada. Mas os meus olhos ignoram-me. Eles continuam a procurar-te como se buscassem o castanho-avelã que me roubas constantemente. De coração desarmado, mas os meus pensamentos atraiçoam-me. Eles permanecem presos ao teu peito como se agarrassem o teu amor; aquele amor que não me podes dar. Desfeita, mas os meus sentimentos descartam-me. Eles continuam a sorrir, na esperança de que esse gesto te faça corresponder da forma que eles precisam. Todo o meu corpo me trai, numa dança macabra, masoquista, que apenas me deixa ainda mais desconcertada. Quero-te mas sei que não te devo ter. Se apenas o meu corpo, se apenas o meu peito, se apenas os meus olhos obedecessem, tudo seria mais fácil.

    Sei que não serves para mim, que não me quererás mais do que por alguns momentos. Mas eu teimo em pensar que sim, que podemos ter um futuro risonho, mesmo que curto e terrivelmente finito. Mas tu não foste feito para mim e eu não fui feita para ti. Quero demasiado de ti, mais do que aquilo que alguém te poderia exigir. Tu queres apenas uma parte de tudo o que tenho para te oferecer. É estranho e confuso. Não por que nunca me acontecera, mas sim por que o que ambos queremos, ambos poderíamos ter. Mas todas as contra-indicações que existiriam na nossa relação são o factor impeditivo de qualquer amor que pudesse crescer entre nós. Abraçamos os contras e rejeitamos os prós; somos um paradoxo que nunca acontece.

    Mas eu tento esquecer esse possível futuro, tão facilmente concretizável. Tento esquecer tudo o que poderíamos ser, tudo aquilo em que nos poderíamos tornar, tudo aquilo que recusaríamos ser. Tento esquecer-te enquanto alguém que tomaria conta do meu coração, dando-lhe tudo aquilo que eu daria de volta. Tento esquecer-te como homem que és e tento imaginar-te apenas como o amigo que me puxou para um novo mundo. Quero ter-te na minha vida como um irmão, desejando-te do fundo do coração, mas sabendo-te impossível.

    Mas a vida trai-me, uma e outra vez. A minha sensibilidade arruína todas as minhas tentativas de ver-te só como um amigo. A minha horrenda necessidade de expressar o que sinto, de me entregar com toda a minha pureza, arrasa-me de uma só vez. E sempre que volta, apenas me desfaz ainda mais. A verdade é a minha ruína, sempre. Porque sempre que a verdade explode do meu peito, a vida destrói-se em três tempos. As pessoas que eu mais quero fogem; as que eu não quero perder, desaparecem; as que eu amo de outra maneira, esfumam-se. E a solidão, com a qual lido tão bem e que tanto prezo, invade-me numa mistura negativa que não consigo controlar. E deixo de gostar de estar só. O silêncio faz mais barulho do que todas as eventuais discussões que eu poderia ter contigo. Conto o que sinto, as pessoas desaparecem e eu deixo de ser o «eu» que quero ser. Um ciclo vicioso que se repete desde que sou gente.

    Mas eu não quero que te sumas da minha vida. Não desta vez. Não quero ter que ser sincera e receber a tua ausência em troca. Então, decidi que, desta vez, vai ser diferente. Eu vou calar-me, fechar-me a sete copas, encarcerar-me no mais fundo do meu ser. Irei aprisionar o meu coração, os meus sentimentos, as minhas vontades, fechar tudo a cadeado e expulsar-te do meu quarto imaginário. Vou-te deixar à porta, como quem espera uma ordem de entrada, mas nunca entrarás. E eu, eu nunca irei sair. E esse vai ser o verdadeiro teste.

    Repelir a minha vontade vai ser o desafio mais difícil que enfrentei até agora. Não será a primeira vez; essa já aconteceu, mas o lado de lá era mais ausente do que eu, por isso, foi fácil superar. Agora, agora é a desgraça total. Tu procuras-me mais do que eu te procuro a ti. Agora, tudo é mais intenso e eu ainda estou de rastos. Não sei onde descobrirei forças para suportar as barreiras que terei que impor entre nós, apenas para me manter afastada de ti e da minha vontade de me confessar. Preferia ver-te como um ser humano indiferente, igual a tantos outros, como o alguém de alguém. Preferia odiar-te a estar como estou. Vai ser doloroso...

    Acredito que também não vá ser fácil para ti, sentires-me a desvanecer, veres-me a afastar-te. Acredita que sei que vai. Mas acredita também que será melhor para ambos, desaparecermos do mundo um do outro. Fico melhor sem ti e tu sobrevives bem sem mim. Não somos necessários aos corações um do outro. Os meus olhos ter-se-ão que habituar a uma paisagem vazia e os teus terão que reconhecer que eu não te embelezava a vista. Os meus sorrisos irão procurar outro receptor e os teus serão reservados para outras bocas. Os meus sentimentos hibernarão até ao próximo Inverno e os teus ficarão ancorados noutras almas. Sobreviveremos a isto; apenas estaremos longe um do outro.

    Parece tola, mas foi a melhor solução que encontrei até agora: afastar-me. Será tremendamente difícil fazê-lo. Cheguei a um ponto de quase ruptura que será complicado ultrapassar. Mas o caminho faz-se caminhando e a minha rota de colisão não me parece o melhor trilho. Quero, por isso, experimentar aquele atalho que já deveria ter testado há muitos anos, mas que nunca tive coragem para o fazer. Quero tentar atravessar o deserto com o teu nome na minha mente sem que isso me prenda à Terra como um som árido. Quero tentar caminhar pela neve com os teus olhos no horizonte sem que sinta que o meu corpo se afoga sem piedade. Quero sentir que consigo chegar lá, a pensar em ti, mas sem que tu sejas o meu destino. Quero tentar ser grande como uma vez fui e como nunca mais consegui ser. Quero voltar a ser o «eu» que era antes de tu apareceres na minha vida, antes de destruíres tudo o que reconstruí em mim. Quero voltar a sentir-me completa apenas com a minha presença. Sim, quero-te mas, antes de tudo, quero-me a mim mesma: pura, regenerada, simples e plena. Quero-te mas quero a minha independência de volta, como se fosse impossível respirar sem ela.

    Quando partires, tudo será devastador. O ar, o tempo, a luz, o vazio. Será tudo ruínas e pó, destroços de uma vida que eu planeei mas que sempre soube que nunca seria. Estarei em pedaços, deambulando pela névoa que a tua existência deixou para trás. Serei brumas num dia de Sol, um ser estranho num mundo tão igual e aborrecido. Serei coisa nenhuma. Mas prefiro ser coisa nenhuma do que algo inexistente. Porque é a isto que se resume: prefiro sentir nada a sentir tudo. E tu, tu és tudo...

"From walking home and talking loads
To seeing shows in evening clothes with you
From nervous touch and getting drunk
To staying up and waking up with you

But now we're sleeping at the edge
Holding something we don't need
All this delusion in our heads
Is gonna bring us to our knees

So come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
Everything that's broke
Leave it to the breeze
Why don't you be you
And I'll be me?
And I'll be me

From throwing clothes across the floor
To teeth and claws and slamming doors at you
If this is all we're living for
Why are we doing it, doing it, doing it anymore?

I used to recognize myself
It's funny how reflections change
When we're becoming something else
I think it's time to walk away

So come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
Everything that's broke
Leave it to the breeze
Why don't you be you
And I'll be me?
And I'll be me

Trying to fit your hand inside of mine
When we know it just don't belong
There's no force on earth
Could make it feel right, no

Trying to push this problem up the hill
When it's just too heavy to hold
Think now's the time to let it slide

So come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
Everything that's broke
Leave it to the breeze
Let the ashes fall
Forget about me

Come on, let it go
Just let it be
Why don't you be you
And I'll be me?
And I'll be me"

segunda-feira, 22 de julho de 2019

"The Whole of the Moon", The Waterboys

    Um passo em frente e tudo se desmoronou. Tu salvaste-te sem esforço; eu aterrei, de repente, no puzzle que montáramos. Eu desfiz-me em pedaços; tu permaneceste intacto, lá no topo do mundo. Impávida e serena, permaneci no meu poiso involuntário, olhando o alto, procurando-te com o coração. Tu caminhaste até ao limiar do abismo e olhaste-me lá de cima: um olhar anónimo, nem sorridente nem triste. Senti esse silêncio cair aos meus pés, gritando docemente um «eu sempre soube» vindo de ti, que nunca quiseste saber. Recebi-o como autêntico, como um aviso que esperava há muito. Eu também sempre soube, mas sempre esperei que quisesses saber mais. Escolhi não acreditar no que sempre soubeste, no que sempre sentiste. E agora caí.

    Lembro-me claramente do nosso primeiro encontro. Disseste dezassete vezes que as tuas relações têm sempre um fim atribulado, quase sempre próximo de um início efervescente. Optei por pensar que eu ia fazer-te querer saber o que poderia existir para lá do fim de uma relação. Repeti, uma e outra vez, que comigo seria diferente, que eu seria a que mais tempo permaneceria a teu lado, que eu seria a tua salvação, que aprenderias a amar como é suposto – sem sentir remorsos por isso. A tua voz gozava-me num tom irónico, mas o teu olhar acreditava em cada palavra que voava da minha boca. Os teus olhos, nervosos caminhantes entre os cantos do meu sorriso e os meus lábios, saboreavam explicitamente as minhas intenções, as minhas ideias, as minhas vontades. E eu pensava que te estava a ajudar, a criar um vindouro «nós» que assentava na verdade dos nossos desejos.

    Mas os nossos desejos enganam-nos; sempre, porque sabemos o que desejamos, mas não é isso que queremos ou precisamos. Pior: era a carência que nos toldava o juízo, que nos permitia aqueles luxos a que chamamos «sentimentos verdadeiros», pensando que eram isso mesmo: sentimentos. Por isso, desde o início, as nossas bases conjugavam a mentira que compõe o desejo com a carência que nos dilacerava o peito; e assim começaria uma relação que se converteu num episódio de amor errático.

    Eu dava tudo, esperando sempre pouco em troca, principalmente nos primeiros tempos, quando ainda me estava a habituar à tua distância auto-infligida. E, dando tudo, o pouco que me oferecias enchia-me o coração de alegria; o pouco que correspondias era suficiente. Não te pressionava, nunca te pressionei: isso só te afastaria ainda mais. Fui esperando, fui-me ficando, velando por dias de sol, quando permanecias debaixo de chuva intensa ou encoberto por um denso nevoeiro que quase me obrigava a questionar a tua existência. Fui-me ficando, com sorrisos compreensivos, paciências infinitas mas alegres, mãos estendidas, segurando o teu pobre e magoado coração.

   Foste-te acomodando às minhas poucas exigências e, quando o fazias, eu retribuía, exigindo um pouquinho mais. E tu foste-te abrindo para mim, e eu fui-te descobrindo, entregando-me cada vez mais. Tu foste distribuindo pedaços de ti, encaixando-os no meu ser, completando a imagem que criara de ti, porque nunca estavas lá. O quadro foi-se compondo: eu dava-te, tu recebias e devolvias um pouco mais de ti. A minha premonição parecia estar a acontecer: eu iria quebrar as tuas barreiras e tu deixarias para trás anos de experiências que não fazem jus ao nome «relação». E o desejo, o nosso desejo, foi aumentado.

    Mas a tua entrega por inteiro nunca a tive. Ias dando, mas tiravas mais do que davas. E eu fui-me retraindo, fui deixando de me ficar. Fui exigindo mais, sem perceber que atingiras o teu limite. Testei-te de várias maneiras: discussões, amores, invejas, prioridades, tempos. Fui-te desgastando, procurando no teu interior tudo aquilo que eu pensara ter criado, tudo aquilo que eu ansiava que estivesse lá. Chamei, gritei, desesperei pelo «tu» que pensara ter visto em ti, por tudo aquilo que eu esperava desde o início. Esquecera-me que obliterara da minha memória toda a tua pouca vontade de ter uma relação que não tivesse um fim trágico. Esquecera que descartara as tuas más experiências. Amnesiei a minha mente para permitir um sopro de felicidade ao meu solitário coração; e agora era esse pequeno espírito que pagava caro pelo meu erro.

    Tu sempre soubeste que não havia futuro. Para ti, nunca há. A fenda que me dizia que agora seria diferente fechou-se, finalmente. Senti que puxara demasiado por ti; senti que te puxara demasiado para mim. Foste-te afastando cada vez mais e mais depressa, de uma forma quase violenta. As tuas não conversas, as tuas distâncias desesperantes, provocatórias e desalentadoras partiam-me em pedaços minúsculos, proibindo-me de juntar as peças com o máximo detalhe possível. Foste-me desfazendo de propósito, dilacerando o meu rosto como se de uma cara comum se tratasse; como se eu fosse ninguém. Trataste-me como se tivéssemos sido nada.

    E eu não respondi, não reagi. Não me atirei àquela ideia como o último reduto, não a defendi com unhas e dentes, não a protegi como devia. Deixei-te desfazeres-me como um trapo. Não percebi, na altura, por que razão te deixei matares-me assim, tão devagar, fingindo que me eras tudo, quando, na verdade, nunca quiseste sê-lo nem pela metade. Apesar de tudo, apesar de já saber que tudo isto iria acontecer, o choque foi inevitável. Mas não demorei a seguir em frente. É certo que caí, quase sem ditame, mas o amparo esteve lá. Talvez no momento eu não me tenha apercebido, mas esse amparo esteve sempre lá. Foi esse aconchego que não me fez cair redonda no chão, foi esse pára-quedas que me permitiu cair de pé e ainda olhar para cima, para te ver rejubilar sem entusiasmo. Esse amparo era-me intrínseco. Esse amparo era eu mesma, depois de ser tu. E, por isso, sobrevivi.

"I pictured a rainbow
You held it in your hands
I had flashes
But you saw the plan
I wandered out in the world for years
While you just stayed in your room
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
The whole of the moon

You were there at the turnstiles
With the wind at your heels
You stretched for the stars
And you know how it feels
To reach too high
Too far
Too soon
You saw the whole of the moon

I was grounded
While you filled the skies
I was dumbfounded by truths
You cut through lies
I saw the rain-dirty valley
You saw Brigadoon
I saw the crescent
You saw the whole of the moon

I spoke about wings
You just flew
I wondered, I guessed and I tried
You just knew
I sighed
But you swooned
I saw the crescent
You saw the whole of the moon
The whole of the moon

With a torch in your pocket
And the wind at your heels
You climbed on the ladder
And you know how it feels
To get too high
Too far
Too soon
You saw the whole of the moon
The whole of the moon

Unicorns and cannonballs
Palaces and piers
Trumpets, towers, and tenements
Wide oceans full of tears
Flags, rags, ferry boats
Scimitars and scarves
Every precious dream and vision
Underneath the stars

Yes, you climbed on the ladder
With the wind in your sails
You came like a comet
Blazing your trail
Too high
Too far
Too soon
You saw the whole of the moon"

terça-feira, 16 de julho de 2019

"Promise", Ben Howard

    A conversa tinha chegado ao clímax: estávamos em silêncio, mas nada ficava por dizer. Foi nessa altura que tive a certeza sobre o que sentias sobre nós: querias um «nós», tanto como eu queria um «tu». Depois de desabafares, aquele silêncio parecia estar a fazer-te bem. Sorrias-me um sorriso eterno, olhavas-me com olhos doces, recostavas-te na cadeira com cuidado e devagar, exibindo o coração que não se vê. A leve brisa despenteava-te tenuemente, apenas para confirmar a realidade daquele momento.
    Eu sorria-te de volta, tentando dissipar apressadamente o rubor que surgia na minha face. Era a única coisa que conseguia fazer: sentia tudo por ti, mas não podia verbalizá-lo. Perder-me-ia num mundo sonoro que só arruinaria aquela mudez que se impunha. Mas eu queria dizê-lo, queria gritar o quanto te queria, o quanto te desejava. Era impossível. Não era capaz de formular uma única palavra. E tu não serias capaz de ouvir o que fosse.
    O silêncio continuava. Quando é que decidíamos que teríamos que dizer alguma coisa? Qual de nós daria o primeiro passo? Ninguém se chegava à frente; ninguém queria terminar aquele momento. A sensação de cumplicidade e alegria que sentíamos naquele clímax chegava-nos para querer congelar o relógio. Por que não ficar assim para sempre, simplesmente olhando-nos em silêncio? A eternidade daquele momento apelava às minhas lágrimas, os fios de felicidade que ansiavam por me pintar o rosto. Tudo o que estava a acontecer, fazia-me ansiar por algo mais. Todo o teu corpo parecia falar-me, pedir-me para te abraçar. Os teus braços adornavam os da cadeira, misturando-se sem grande camuflagem, delineando os teus finos limites. O teu peito erguia-se como uma bela muralha, intransponível e protectora. O teu olhar dizia-me «quero-te» como nunca dissera. E nada deveria impedir esta união, excepto a realidade.
    Por que, na realidade, tu só precisavas do meu conforto. A tua alma apenas precisava de um apoio para seguir em frente. E eu não queria ser o teu apoio, não queria ser a tua ponte para um novo capítulo: eu queria ser o teu futuro. E sê-lo por prazer, por amor, por inteiro. Mas este «nós» é, na realidade, o passado. Um passado distante, em parte real, em parte imaginário. O mito que criámos à nossa volta, de tudo o que eramos e de tudo o que queríamos ser, foi-se esfumando com o tempo, acordando-me desse sonho que eras tu, que eramos nós.
    Quando te vejo, recordo-nos. Recordo o que eramos, o que fomos e o que sempre quisemos ser. Recordo também o desejo que tínhamos em comum: ser um do outro. Mas tu não podias. Eu muito menos. Nós não podíamos ser um do outro porque pertencíamos a nós mesmos; ainda não nos podíamos dar a ninguém, nem mesmo um ao outro. Era demasiado cedo. Mas o silêncio era teimoso, persistente, majestático. Era água, fogo e ar. Eramos silêncio, mas fomos tumultos e batuques. Até deixarmos os sons para os outros casais, para as outras pessoas. Esquecemos o silêncio como quem se esquece de um qualquer objecto insignificante. Mas eu lembro-me bem do que era estar nesse silêncio.
    O ambiente ficava esquisito sempre que o coroávamos, sempre que o silêncio se tornava soberano. Um silêncio que era ensurdecedor, estranho até. Dizíamos tudo um ao outro, naqueles momentos. Ambos sabíamos o que queríamos: queríamos aquele que olhávamos. O nosso reflexo, o outro «eu» que se espelhava à nossa frente, era o que desejávamos mais do que tudo. Sentia-se no ar, esse desejo infinito de estar um com o outro. Mas essas palavras nunca existiam; apenas os olhares. Ah, como falavam os teus olhos! Ah, aquelas milésimas de segundo em que fixavas as tuas órbitas nas minhas e o teu corpo me chamava para ti; que saudades tenho eu dessa subtil dança com que tantas vezes me presenteavas.
    O meu silêncio invejava os teus movimentos. As minhas respostas eram parcas e cada vez mais raras. Não por que não sabia o que sentia, não que gostasse menos de tudo isto, não que gostasse menos de ti. Era exactamente pelo contrário disso tudo: eu sabia exactamente o que sentia, por tudo isto, por ti. E isso era o pior. Daí, o silêncio. Era ele que demonstrava a nossa sinfonia. Era apenas o silêncio que fazia transparecer a harmonia que os nossos corações sentiam. Apenas o silêncio conhecia a vontade dos nossos corpos. Apenas o silêncio.
    Penso muito nestes momentos únicos. Talvez pense demasiado sobre eles, sobre esta relação estranha que tivemos. Compreendíamo-nos um ao outro, sabíamos o que queríamos, decidíamos da mesma forma: tudo em silêncio. Silêncio, sorrisos, olhares, gestos discretos: era esta a nossa relação. E eu adorava-nos como a um qualquer casal perfeito. Eramos um para o outro, como são outros tantos. Estávamos juntos, passeávamos juntos, saíamos juntos; eramos um. Mas, na realidade, eramos nada. Não nos sentíamos como indivíduos, não provávamos os nossos lábios, não nos priorizávamos com a devida importância, não chegámos a essa meta que se quer sempre chegar. Eramos tudo e, no final, fomos nada.
    Hoje, quando nos vemos, percebemos que não deixámos tudo para trás. Ainda temos um porto de abrigo no olhar um do outro; ainda temos o silêncio do nosso lado. E, se ouvirmos com atenção, ainda tudo está lá: a vontade, o desejo, o amor. Tudo mudou, mas tudo permanece igual. Até parece mentira. Cruzamos olhares e sentimos o que sentimos; mas, agora, ignoramos. Não é nada connosco; é só o silêncio a enganar-nos, a tentar fazer-nos crer que ainda estamos um para o outro como estávamos antes. É triste, não é? Como estivemos tão próximos e, agora, parecemos estranhos aos olhos dos outros.
    Mas, no fundo, enterrados nos nossos corações, o «eu» e o «tu» de outrora continuam lá, à espera da sua oportunidade para finalmente triunfarem e se consumarem. Imagino um cenário bem provável: daqui a uns tempos, encontrar-nos-emos em algum lado, totalmente alheios a este passado que morámos juntos, e, então, aí, as memórias apoderar-se-ão de nós e tudo será perdido, tudo se esfumará, tudo será em vão. Aí, não haverá silêncio que nos salve...

"And meet me there, bundles of flowers
We'll wade through the hours of cold
Winter she'll howl at the walls
Tearing down doors of time

Shelter as we go...

And promise me this
You'll wait for me only
Scared of the lonely arms
Surface, far below these birds

And maybe, just maybe I'll come home

Who am I, darling to you?
Who am I?
To tell you stories of mine
Who am I?

Who am I, darling for you?
Who am I?
To be your burden in time, lonely
Who am I, to you?

Who am I, darling for you?
Who am I?
To be your burden

Who am I, darling to you?
Who am I?

I come alone here
I come alone here"

quinta-feira, 23 de maio de 2019

"Yellow", Coldplay

A felicidade é contagiante. Emane de quem emanar, atinja quem atingir; ninguém lhe fica indiferente. Torna-nos mais poderosos, faz-nos querer ser melhores. Atira-nos para um mundo de inibições emocionais, obrigando-nos a largar as algemas e a partilhar insistentemente aquele sorriso luminoso, de orelha a orelha. Os olhos brilham e o mundo parece girar com outras cores; tudo é luz. O coração brota como um fogo amigo, o sangue viaja com mais calor, a vida no peito fica mais quente. Os ossos amaciam, como se a pele delicada os beijasse. De repente, parecemos amor personificado; como se a felicidade fosse amor. Sabemos que não é aquele género de amor romântico – é apenas um dos amores mais puros – mas a emoção é muito parecida. As pétalas de rosa ganham outro cheiro e a calma de um verde-relva invade-nos a mente. A música atinge outro tom e deixamos de querer saber de tudo o resto.

Esta felicidade contagiante não finita, nunca. Qualquer coisa parece relembrá-la, mesmo quando já não a sentimos ao primeiro toque. Ela partilha-se e, por isso, anda sempre por aí. Desta felicidade, faz parte o estar feliz pelo outro. É essa a felicidade contagiante: ser feliz porque a outra pessoa está feliz. E nunca interessa quem: se um estranho, se um amigo, se a nossa cara-metade. Está-se feliz porque o outro está feliz, e isso basta para se manter assim.

Este género de felicidade faz com que achemos que iremos superar todos os nossos obstáculos, que as impossibilidades são apenas palavras, e que nada no mundo pode parar aquilo que estamos a sentir. Temos coragem. Pela primeira vez, temos coragem para seguir em frente, para avançar por certo caminho, para chegar a um destino há muito desejado. Pela primeira vez, somos invencíveis e queremos que os outros o sejam connosco. Temos vontades expressas de querer ser diferente, de querer ser melhor, de querer ser o que se se sente ser. Queremos expulsar a verdade sobre aquilo que somos e gritar ao mundo que seremos isso mesmo.

É isto que sinto quando olho para ti: uma felicidade contagiante, um momento eterno que parece sedimentar uma revolução emocional. Para mim, és luz negra misturada com todas as cores que existem neste mundo cinzento. Um espírito selvagem num corpo muito mal domesticado; a tua essência entusiasma-me de uma forma surpreendente e a surpresa é aquele género que pontilha todo o positivismo que em ti carregas. És diferente do normal de uma forma difícil de definir. E a felicidade nos teus olhos, mesmo quando tristes, é algo que me faz sentir feliz.

Infelizmente, e como parece ser costume, esta minha felicidade está a evoluir para algo mais, corporizando-se naquilo que eu há muito sinto por ti, mas que nunca tive oportunidade para o expressar, muito menos agora que estás só. E isto é perigoso. É-lo por várias razões, demasiado óbvias: primeiro, por que tu tens que fazer o luto, sozinho; depois, por que só me verás como uma amiga, e eu estou cansada de ser incorrespondida como algo mais. Tudo fica à beira da catástrofe quando percebo que, mais do que perigoso, este sentimento é traiçoeiro e vai-me enganar novamente.

Como sempre, um momento de felicidade contigo começa por ser melancólico ou apenas sincero; começamos pela negativa e crescemos, um ao lado do outro, um com o outro, um para o outro, para sentimentos mais divertidos, atingindo a felicidade em simultâneo, como uma gargalhada suave quase inaudível. Há um fio de cabelo nessa felicidade que, para mim, é muito mais do que um momento feliz. É um abraçar-te junto ao peito, oferecendo-te consolo e, ao mesmo tempo, procurando consolo nos teus grandes olhos; um primeiro passo na construção de uma relação futura. É esse fio que sempre me arruína a vida.

Sigo-te com o olhar, tento sentir o calor da tua pele, observo os teus gestos, detenho-me no teu peito, nas tuas costas, no teu rosto; procuro o teu nome, a tua presença; anseio pela tua companhia, mesmo que silenciosa; a tua silhueta é a forma do meu irremediável desejo; espero por ti como quem espera pelo Sol. Tudo isto de forma involuntária. De repente, dou por mim a pensar, a sentir tudo isto, de uma maneira natural, sempre tão fora de tempo. Sei sempre como começa e tenho sempre certezas sobre como acaba; mas nunca consigo evitar. Uma e outra vez, digo “nunca mais”; mas acabo sempre por cair nesta teia de emoções. E é sempre quando menos deveria ser...

Começo a perceber-me da gravidade da situação quando sei que já não controlo as minhas acções, os meus anseios, os meus pensamentos. Estou a cair; mas ainda demoro a chegar ao fundo. Estou a aproveitar-me da tua situação, da tua procura pela minha confiança cega, pela minha maneira de te ouvir e de te perceber; o meu peito começa a substituir a amizade por outra emoção mais forte. Como um idiota que não aprende com os erros, o meu coração não é capaz de se conter na explosão de emoções que começa a sentir. (Os problemas que ficaram por resolver na infância e adolescência, de facto, destroem-me a vida adulta).

Já sei onde este caminho, que ainda agora principiei, me vai levar. Os reinos mudam, mas os trilhos são sempre os mesmos. Primeiro, vamos tornar-nos próximos, como já está a acontecer. Vais começar a confiar mais em mim, vais incluir-me no teu círculo de confiança, buscando o meu ombro, os meus ouvidos, as minhas opiniões. Vais permitir-me uma aproximação diferente do que é normal. Eu estarei sempre lá para ti; primeiro erro dos inúmeros que irei cometer neste caminho. Vou aproximar-me de ti e dar cada vez mais de mim, criando aquele tipo de ligação que, mais tarde, me irá fragmentar; mas estarei lá, com um sorriso.

Depois, essa ligação vai crescendo; vamos passar a falar mais vezes, a estar mais tempo juntos, a consolidar uma amizade especial. Eu vou-me enterrar nesse sentimento, levar tudo isso, e mais, a peito, prender-me ao teu espírito como se eu fosse o teu pilar-base. Entrelaçar-me-ei numa espiral emocional que nunca irás preencher. Por que tu vais ficar por ali, naquela amizade especial; mas a minha escalada nunca vai parar de subir. Essa amizade, para mim, continuará a evoluir para algo mais e, aí, já não irás corresponder.

É então que surge a dor, o peito magoado, o coração partido. E isto vai arrastar-se, pelo facto de eu não te querer abandonar por causa do que sinto; quero continuar a corresponder às tuas expectativas, quero manter-me no teu círculo íntimo. O penoso caminhar continuará existindo até eu perceber que o meu mundo começa a ficar confuso para ti. E, aí, afastar-me-ei. Não por que não tenho vontade de estar junto a ti, não por que não te quero sentir junto a mim, mas sim por que tu te vais aperceber do meu sofrimento. Mas eu não quero que recues, por isso, recuo eu. Prefiro ser aquela que se afasta quando tu estiveres melhor do que aquela que te fará sentir culpado por estares bem com a vida. Não quero que te envolvas nos meus sentimentos tristes, para resumir de forma simples toda a rejeição, dor no peito e infelicidade geral.

Quero que sejas feliz; e, se para isso, eu tiver que sair do cenário, fá-lo-ei com certezas e sem medos. Por que o que eu mais quero é que sejas feliz, estando ou não estando a meu lado. Portanto, se, para tu continuares feliz, eu tiver que procurar a felicidade noutro lado, irei fazê-lo com toda a naturalidade. Por que não é com o sofrimento que eu não sei lidar; é com a felicidade...

"Look at the stars
Look how they shine for you
And everything you do
Yeah, they were all yellow

I came along
I wrote a song for you
And all the things you do
And it was called "Yellow. "

So then I took my turn
Oh what a thing to've done
And it was all yellow

Your skin
Oh yeah, your skin and bones
Turn into something beautiful
Do you know?
You know I love you so
You know I love you so

I swam across
I jumped across for you
Oh what a thing to do
'Cause you were all yellow

I drew a line
I drew a line for you
Oh what a thing to do
And it was all yellow

Your skin
Oh yeah your skin and bones
Turn into something beautiful
You know
For you I'd bleed myself dry
For you I'd bleed myself dry

It's true, look how they shine for you
Look how they shine for you
Look how they shine for
Look how they shine for you
Look how they shine for you
Look how they shine

Look at the stars
Look how they shine for you
And all the things that you do"