Que músicas já foram comentadas. . .

"Long Live", Taylor Swift ; "Mean", Taylor Swift ; "Better than Revenge", Taylor Swift ; "Closer to the Edge", 30 Seconds To Mars ; "Nashville", David Mead ; "Count On Me", Bruno Mars ; "Won't Go Home Without You", Maroon 5 ; "I don't wanna miss a thing", Aerosmith ; "Both of Us", B.o.B ft Taylor Swift ; "Somebody", Lemonade Mouth ; "Stay, Stay, Stay", Taylor Swift ; "Two is Better than One", Boys Like Girls ft Taylor Swift (desculpem, não consegui resistir!) ; "Sorte Grande", João Só e Abandonados ft Lúcia Moniz ; "Unbelievable", EMF ; "Hey Stephen", Taylor Swift ; "Fairy Tail", Yasuharu Takanashi (instrumental) ; "Predestination", Fairy Tail (instrumental) ; "Kanashiki Kako", Fairy Tail (Instrumental) ; "Puedes ver pero no tocar", RBD ; "I Knew You Were Trouble", Taylor Swift ; "Coming Home", Diddy ; "Never Grow Up", Taylor Swift ; "Wherever You Will Go", The Calling ; "Chasing Cars", Snow Patrol ; "Demons", Imagine Dragons ; "Beneath Your Beautiful", Labrinth ft Emile Sandé ; "Fantastic Dream", Kaleido Star (Instrumental) ; "A Pele que há em Mim", Márcia com J.P. Simões ; "The Diary of Me", Taylor Swift ; "Impossible", James Arthur ; "I'm Only Me When I'm With You", Taylor Swift ; "A Different Beat", Little Mix ; "All of Me", John Legend ; "Staring at It", SafetySuit ; "A Thousand Years", Chritina Perri ft Steve Kazee ; "Ordinary Love", U2 ; "Stop This Train", John Mayer ; "Radioactive", Imagine Dragons ; "Thinking of You", Katy Perry ; "One Last Time", Ariana Grande ; "Edge of Desire", John Mayer ; "Almost Home", Alex and Sierra ; "What I Did For Love", David Guetta ft. Emeli Sandé ; "My Songs Know What You Did in the Dark", Fall Out Boy ; "Dança", Pólo Norte ; "O Tempo Não Pára", Mariza ; "Long Live", Taylor Swift (2ª versão) ; "Roman Holiday", Halsey ; "Breathe Me", Sia ; "Até ao Verão", Ana Moura ; "Hands to Myself", Selena Gomez ; "Jet Black Heart", 5 Seconds of Summer ; "Let Me Go", Avril Lavigne ft Chad Kroeger ; "Kings and Queens", 30 Seconds to Mars" ; "Todos os Dias", Paulo Sousa ; "Paris", The Chainsmokers ; "In The Blood", John Mayer ; "Stangeness and Charm", Florence and The Machine ; "Another Day In Paradise", Phil Collins ; "Bedshaped", Keane ; "In The Air Tonight", Phil Collins ; "Ordinary World", Duran Duran ; "Trevo (Tu)", Anavitória ft. Diogo Piçarra ; "If I Ain't Got You", Alicia Keys ; "Blinding", Florence and The Machine ; "Someone That Cannot Love", David Fonseca ; "Yellow", Coldplay ; "Promise", Ben Howard ; "The Whole of the Moon", The Waterboys ; "Let it Go", James Bay ; "Believe", Mumford & Sons ; "Say Something", A Great Big World ft. Christina Aguilera ; "Gold Rush", Taylor Swift ; "Blinding Lights", The Weeknd ; "É Isso Aí", Ana Carolina ft. Seu Jorge ; "Renegade", Big Red Machine ft. Taylor Swift ; "lovely", Billie Eilish ft. Khalid ; "The Only Exception", Paramore ; "You're Losing Me", Taylor Swift ; "The Story", Brandi Carlile ; "Guilty as Sin?", Taylor Swift ;

sábado, 25 de janeiro de 2025

"Guilty as Sin?", Taylor Swift

    «Por momentos, pensei que as borboletas tinham voltado ao meu estômago. Mas não é só de amor que são feitos os bichos que em mim habitam. Aliás, neste momento, as abelhas, rainhas do meu corpo, são feitas de luxúria e desejo, emoções pouco inocentes e ingénuas que há bastante tempo não me visitavam. E o meu estômago não tem nada a ver com isto.

    Nunca esperei que chegasse a este ponto. Sem me aperceber, fiz crescer uma colmeia que agora não consigo controlar. As minhas trabalhadoras parecem começar a revoltar-se, pedindo-me que as satisfaça. Elas sabem o que querem e de quem o querem. A realidade surge como o único limite que consigo impôr-lhes; por isso, perco as noites a pintar sonhos que lhes matem esta nova sede.

    Estes pensamentos já se arrastam há algum tempo, mas eu sempre os descartei. Claramente, era tudo imaginação minha, fruto da minha carência do calor de um outro corpo que não o meu. Ponderei, até, partilhar tudo isto mais cedo. Lá estava eu outra vez a fantasiar com alguém impossível; um clássico na minha vida. Quando ia finalmente fechar o livro, eis que o último capítulo me esmaga com uma reviravolta inusitada: as tuas atitudes tornaram-se sinais de que, se calhar, eu não estava a iludir-me. Sinais não no sentido de que eu estaria a ler umas supostas entrelinhas de acções corriqueiras, mas provas de que algo estava realmente diferente. E isso assustou-me. Teria levado a minha imaginação demasiado longe ou, de facto, tu emanavas outro espírito na minha direcção?

    Aprendi que não podia tirar conclusões precipitadas. Precisava de ter a certeza que não eram os teus olhos nem o meu coração a enganar-me. Fui lendo os rostos das outras pessoas quando estavamos juntos. Tentei escrutinar as sensações que lhes saíam dos corpos quando tu fazias algo que eu sentia como novo, fosse um olhar, um toque, uma proximidade, uma gargalhada. Para meu espanto, notei que, por vezes, os outros olhares percebiam as novidades, os algos-fora-do-comum que trazias para a mesa, tal como eu; mas nunca consegui ter a certeza da interpretação que eles lhes davam. Algumas vezes, tinha suspeitas e tudo se relacionava indirectamente com o diagnóstico que eu desenhara. Mas teria razão? Seria seguro dar um passo em frente e arriscar ultrapassar uma linha sem caminho de regresso? A verdade é que continuo sem confirmação verbal desta possível nova dinâmica; e eu sempre tive problemas em decifrar comunicação não verbal no que toca a estas questões. Até que outros alarmes começaram a soar. E eu fui com a maré.

    Os teus olhares prolongados no meu rosto; o teu sorriso a demorar-se nos meus olhos curiosos; os toques das tuas mãos nos meus braços ou na pele nua dos meus pulsos; o teu corpo a encostar-se ao meu, corando os meus ombros, como se o magnetismo fosse inevitável; a distância que nos aparte mingando vagarosamente sempre que estamos no mesmo ambiente. As estrelas que vagueiam o meu céu gentil e pacífico transformaram-se em supernovas, explodindo entusiasticamente a cada cor inédita que me oferecias. A minha tela começou a mudar e as certezas foram-se tornando cada vez mais fortes. As coincidências eram demasiadas; não podia ser tudo ilusão.

    As minhas noites intensificaram-se. A tua imagem no meu pensamento já não era suficiente para apagar aquele fogo. Agora, tinha de escrever o teu nome no escuro, pensar no teu cheiro e no teu caminhar, sentir o teu modo de estar. Aqueles olhares prolongados e aqueles sorrisos que me lançavas ganharam vida e livre-arbítrio e eu permiti-me vivê-los, deixei-me possuir por eles. Repleta de emoções, comecei a responder a todas estas novas conversas que parecíamos ter. Dei por mim a prolongar o meu olhar no teu rosto, a esboçar-te um sorriso tímido, corado, convidativo; deixei as minhas mãos dedilharem levemente os teus ombros e braços, gestos disfarçados de um fortuito acaso; manti-me imóvel e recostei-me quando encontravas o meu encosto. Se havia algo que me denunciava era a vermelhidão que me percorria o rosto nestes momentos, mas tu nunca rejeitaste nenhum destes avanços. E eu continuei naquela deliciosa maré.

    As noites já não chegavam e os dias tinham um tempo escasso para eu me perder em ti; por isso, um dia, decidi desafiar o universo e testar a minha teoria: era isto exactamente o que eu estava a pensar ou imaginação minha? Esse dia pareceu-me igual aos outros, excepto o facto de que a minha colmeia estava completamente amotinada. As minhas hóspedes sabiam que aquele seria um dia decisivo. Quando chegou o momento, hesitei, ponderei sobre a imutabilidade da sentença que estava prestes a declarar. Respirei fundo e tentei a minha sorte. Fiz bem em não fazê-lo pessoalmente, porque o silêncio foi a resposta que recebi. “O universo estava a brincar comigo”, pensei; “bom, ao menos, já estou habituada, sei bem como ultrapassar isto”. E o tempo passou. O desejo ainda existia, mas deixou de ser ardente. As minhas abelhas hibernaram e deixaram sossegar as minhas noites. Aos poucos, fui-me libertanto daquela febre, ainda que as raízes de tudo aquilo não tivessem secado. Um pé à frente do outro e a vida segue.

    Semanas depois, voltámos a encontrar-nos. Grande parte de mim reagiu à tua aparição com normalidade. Já me esquecera da profundidade dos teus olhos, da sedução dos teus sorrisos, da dança que as tuas mãos, as tuas pernas, o teu corpo coreografavam na minha presença. O silêncio que o universo me tinha dado naquele dia transformou tudo isso em ilusões. Até que, de repente, vi essa intimidade a ressurgir, qual féniz, e voltei a questionar o meu discernimento. Seria possível? Não sabia. Não sei. Teria de deixar essa resposta para o tempo. E é nessa maré que agora estou: à espera de perceber se queres o mesmo que eu ou se todos esses momentos não passam de sinais que eu erradamente interpreto. Vou dar tempo ao tempo, sem nada a perder».

(textos perdidos no baú).

quarta-feira, 26 de junho de 2024

"The Story", Brandi Carlile

 

---  TRIGGER WARNING ---

O seguinte texto contém referências a acções com potencial de causar angústia, sofrimento e/ou activar gatilhos emocionais.

 

 

    Tenho dialogado muito com a morte, nos últimos meses. É uma das condições da minha doença. É uma garantia que nunca quis mas que me foi impressa no corpo, no cérebro. O facto de, neste momento, estar a estampá-la nestas páginas é já uma pequena vitória de uma das muitas batalhas que compõem esta eterna guerra. Os jardins da minha mente estiveram totalmente infectados com o pior vírus que a depressão propaga na alma: o suicídio. Estive a passos de atentar contra a minha vida pela terceira vez. “E esta, seria a última”, gritei com todas as certezas do mundo. A terra sabe o que tenho passado nestes quatro anos, mas esses não se comparam com este derradeiro semestre. É certo que o último Verão também não foi fácil. Pensei que morrer não seria uma má ideia, uma vez por outra; mas o tempo correu e eu não me apercebi do estado em que estava (ou talvez não quisesse reconhecer), por isso, fui andando. Desta vez, a queda foi demasiado grande.

    De repente, e pela primeira vez desde há mais de dez anos, todos os problemas – e absolutamente todos – tinham a mesma solução: a morte. Esqueceste-te de pagar as contas? Nem para isso serves, vale mais matares-te. Não és capaz de limpar a casa? Que nojo de ser humano; mata-te. Entornaste a areia do gato? Nem cuidar de ti consegues, quanto mais de outro ser vivo; é melhor para ele se tu te matares. Os teus pais estão fartos de levar com os teus atrasos para o almoço de Domingo? Melhor morrer; assim não os decepcionas. A tua irmã não tem tempo para ouvir as tuas merdas? Ela já tem problemas que cheguem; mata-te. As tuas amigas têm outras amigas e outros amores? É porque não precisam de ti, por isso, não faz sentido viveres. Continuas sem entregar os textos aos teus orientadores? Deixa de iludi-los; mata-te, que eles assim podem dar o teu tema de tese a alguém que o mereça. Não comes mais do que um iogurte e um pão com manteiga por dia e, mesmo assim, ainda és gorda? És um desperdício de oxigénio; mata-te. Magoas as pessoas e nem te lembras? Mata-te, sua egocêntrica. Queixas-te da tua vida quando há tanta gente em situações bem piores? És uma vergonha para a sociedade; cala-te e mata-te. Não interessam os motivos, as razões, os contextos: não tens direito a estar viva. Aliás, a tua presença conspurca a vida dos outros. A tua existência incomoda o mundo. Mata-te; para o bem de todos, mata-te.

    A outra mulher que em mim habita governa-me sem piedade. Só a palavra dela conta e palavras é algo que não lhe falta. As matemáticas do pequeno eu que recebe sempre a mesma ordem nunca atingem outro resultado senão aquele que lhe é forçado a engolir. Simplesmente, sou alimentada pela morte; e sou bem alimentada, para chegar depressa a sua casa. Ela espera-me pacientemente há demasiado tempo. O meu quarto de dormir está intocado, arrumado da mesma maneira desde a última vez que o vi, pela porta entreaberta. Espaçoso, mas não muito grande, tem o essencial para viver: uma cama, uma secretária, lápis e folhas brancas. Não tem janela, para o mundo não me magoar. Não tem livros, para eu não sonhar. Não tem música, porque ela desperta-me emoções e eu não quero mais sentir. A dona da casa reforça que tudo aquilo é o essencial. Ela diz saber do que eu preciso. Decerto, falará verdade, porque tem o meu reflexo. Ela, que sou eu e a morte, sabe que só quero o fim deste tormento, por isso, não preciso de muito para ali, para onde vou, para onde quero ir. Basta o meu corpo e a minha alma para chegar ao fim.

    E se tudo isto não for suficiente para me convencer a morrer, há muitas outras falhas em mim que o justificam. Porque, quando atravesso uma recaída tão forte como esta, não é apenas uma bola de neve. É toda a montanha que colapsa, sem qualquer hipótese de fuga. Todo o bom que há em mim é albaroado por todo o mal que em mim também existe, mesmo que parte dele seja fruto da minha imaginação. Todo a beleza do mundo é camuflada, imperando os terrores que me assolam e os horrores que eu provoco. Se existe um mal, ele é coroado. Se não existe, eu invento-o, multiplico-o, dou-lhe terras, nobilito-o e declaro-o rei da minha mente. É um estado de guerra permanente e eu saio sempre a perder. Com cada derrota, aquele quarto vai ficando cada vez mais e mais apetecível. Uma eternidade sem dor nem mágoa chama-me, uma e outra vez; e eu quero muito ir.

    Quando atravesso uma recaída, as conversas sobre a morte e o morrer são os tons quentes que pintam a tela branca e transparente em que me transformo. A apatia serve-se do meu corpo e da minha alma, quais recipientes livres de livre-arbítrio. Os sons da vida não agitam nem uma nota do silêncio que me assola. Não é que seja tudo negro ou escuridão; quando o é, é porque ainda sei que há uma luz por aí que cria as sombras por onde caminho. Se estiver na fase da escuridão, ainda tenho salvação. É quando a indiferença e a apatia se tornam as minhas cores primárias que o perigo é maior. Porque é aí que eu deixo de encontrar soluções nesta vida e começo a procurar numa próxima. É aqui que começo a estudar a melhor forma de abandonar tudo e desprender-me do peso, do martírio, que é viver.

    Na realidade, é bastante fácil. Se estiver a conduzir, é fácil carregar no acelerador e esbarrar numa parede, no separador central, em qualquer sítio. Na cozinha, é fácil pegar na faca de 16 cm e cortar os pulsos ou abrir a veia do interior do cotovelo; sangro mais depressa. Também é fácil tomar uma caixa inteira de comprimidos; e também dói menos. É fácil atravessar a estrada com o sinal vermelho. Posso sempre tentar outra vez a linha do metro ou a ponte para a autoestrada. Não comer tem sido fácil, mas claramente não tem o efeito desejado. Também seria fácil tomar os comprimidos com álcool, para apimentar a coisa; ou atirar-me da varanda. As possibilidades são infinitas. Nunca substimem uma pessoa com tendências suicidas: se nós quisermos assassinar o nosso corpo, nós arranjamos forma de o fazer.

    Quanto mais fundo é o poço, menos efeito têm todas as cordas que me sustentam. A medicação e a psicoterapia constantes são os pilares mais fortes que me edificam; e talvez tenham sido ambos os que permitiram a continuação da minha existência neste planeta. Até eu os procurar, os apoios costumeiros das minhas pessoas não provocam qualquer diferença. A minha resposta é sempre o isolamento, porque foi o que aprendi a fazer enquanto crescia: para me curar sem ofender ninguém, tenho de me fechar na minha concha e ignorar o mundo. Ninguém pode saber o que se passa, ninguém pode saber que estou na merda, que já não aguento mais, que quero morrer. Se eu os abandonar primeiro, eles não podem magoar-me quando me abandonarem. Se eu desaparecer da vida deles primeiro, não terei de sofrer quando eles decidirem fugir do meu mundo. Se eu o fizer primeiro, não mo fazem a mim. Já tenho demasiada dor em mim; quero evitar mais essa. Eu sei lidar sozinha com este sofrimento que conheço desde criança, que considero meu irmão gémeo. Por isso, entro em quarentena nestas quatro paredes e tento sobreviver à tempestade. Sozinha. Porque não mereço ajuda, não mereço apoio, não posso fazer batota. Terei de atravessar a intempérie pelo deserto que ocupa o meu coração absolutamente sozinha, porque aprendi que só eu fico comigo nos piores momentos; todos os outros abandonam-me. E não são os quatro anos de drogas ou os cinco anos de terapia que vão contrariar os 25 anos de danos que estas armadilhas causaram em mim.

    É mentira. Racionalmente, sei que é mentira. Mas, nesta altura, a única racionalidade que tinha estava reservada apenas para a escolha da ópera que retrataria a minha morte. É difícil descrever por palavras o pesadelo que é ouvir tudo isto e crer que é a realidade, e, ao mesmo tempo, pensar que nem isso vale a pena. O buraco negro que toma todo o nosso ser é assustador: as nossas estrelas favoritas apagam-se e a única luz que nos atinge os olhos é a do ódio. Uma luz que nos fere, mas que bebemos incessantemente, porque é o único calor, o único conforto, que sentimos durante todo este tempo. Podemos tentar tantas outras coisas, mas nada alivia a nossa aflição. Não há palavras que encham o vazio que nos consome. Além da vida, esta doença mancha-nos qualquer oportunidade de cura, por isso, de que serve todos os esforços de reconciliação com o nosso íntimo? Imaginem um quarto a arder. O vosso corpo e alma estão fechados nesse quarto. Nele, só há uma janela e uma porta. Do outro lado da porta, um incêndio ainda mais poderoso. Desde a janela, o desconhecido. De repente, têm de tomar uma decisão para sobreviver. A maior parte das pessoas diz que salta pela janela. No desespero de sobreviver, é melhor saltar de uma janela do que morrer queimado, certo? Mas alguém se lembrou de perguntar se, nesse quarto, por acaso não há um extintor ou uma mangueira ou um alçapão para a cave ou um armário anti-fogos? Não. Porquê? Porque não tiveram o discernimento de olhar o quarto à procura de outra solução, porque não eram capazes de ver além do medo que sentiam e que lhes dizia para fugir do fogo. O pensamento foi-lhes toldado: só havia a janela para uma morte mais controlada. É neste cenário que estão os doentes como eu: não conseguimos processar nada mais além da tortuosa realidade em que caímos e, por isso, só vemos uma solução: saltar pela janela. Não conseguimos ver mais nenhuma vida além daquela em que estamos e da qual queremos fugir. A única opção é acabarmos com o nosso sofrimento. A única opção é tomar a última decisão que podemos controlar: a nossa própria morte.

    Estive quatro semanas sem sair de casa. Só via o sol nos dias em que tinha de ir com o gato ao veterinário e nos Domingos, quando ia almoçar aos meus pais. Essas quatro semanas foram o período mais perigoso desta recaída, que começou perto da Primavera. Simplesmente, desisti de viver. Dormia durante o dia, porque mal tinha forças para me levantar. Tentava dormir durante a noite, mas o medo de saber que teria de acordar no dia seguinte mantinha-me acordada. Podia dormir treze horas, como chegou a acontecer, mas apenas acordava mais cansada. Esta doença é traiçoeira. Em determinadas alturas, quanto mais dormia, mais exausta ficava. Alguns dias, era capaz de brincar com o felino, que não tinha culpa do que estava a acontecer, mas que me sugava toda a quase nula energia que eu tinha. Dele nunca deixei de tratar: medicação, banhos, limpezas do WC, comida, tudo o que fosse preciso. Depois, ia enfiar-me na cama, esgotada como se tivesse trabalhado 40 horas num só dia.

    A certa altura, deixei de jantar. Depois, também não almoçava. Em pouco tempo, dei por mim a forrar o estômago com um iogurte e, quando calhava, uma fatia de pão com manteiga. Era a única refeição, se lhe podemos chamar isso, que fazia durante o dia, ou noite, ou a cada dois dias; dependia se podia estar mais do que dez minutos em pé, fora da cama. Uma vez por outra, num ataque de choro, devorava as piores comidas que tivesse em casa, para logo me arrepender. Por esta altura, era-me impossível lavar a loiça ou despejar o lixo que acumulara antes desta morte metafórica, quase física. A cozinha transformou-se num antro de sujidade e conspurcação que nunca tinha visto, inundada de cheiros duvidosos e repugnantes. A vergonha juntava-se, então, a todas as outras espadas que me atravessavam o peito, colocadas lá por mim, contra a minha vontade. O único lugar da casa limpo diariamente era o espaço do gato; porque, como dizem as minhas pessoas, eu cuido dos outros, mas não de mim. A situação ficou tão grave, que me vi obrigada a contratar um serviço de limpeza; e, nesse dia, eu já tinha começado a acordar deste pesadelo.

    Só tomava banho quando tinha de sair. Só lavava os dentes quando tinha de sair. Só trocava de roupa quando tomava banho. Havia dias que nem a cara lavava. Houve alturas em que a oleosidade do meu cabelo, pelos ombros, chegava às pontas ressequidas. O meu pijama foi o mesmo durante aqueles dias e noites. A minha roupa de cama foi a mesma durante aquelas quatro semanas. A janela do meu quarto esteve quase sempre fechada. O silência era ensurdecedor naquela casa. Se acordada, mas na cama, as horas eram passadas a chorar ou a navegar nas redes sociais, a assistir a videos sem ver absolutamente nada. Ignorava mensagens e chamadas sempre que podia. Se tinha de responder, era seca, parca e monossilábica. Não estava para mim, nem para os outros. Quando o sono vinha, deixava-o conquistar-me. Não que descansasse; dormia mas tinha pesadelos. O meu universo era outro. A doença apoderava-se de mim e eu desaparecia por entre todo aquele pó que me tomava. Nos dias em que cumpria tarefas, eu era poeira: no meio daquela insignificância, ainda era possível sentir as pedrinhas que a compunham. Nos outros, nem a cor da areia conseguia discernir.

    A certa altura, após uma sessão com a psicóloga, dei-me conta da realidade paralela em que sobrevivia. Quase de repente, apercebi-me da seriedade da situação, como se tivesse avistado um cargueiro ao longe, quase no fim das águas frias em que me afogavava (in)voluntariamente. Nesse objecto de salvação, pintavam-se letras que eu conhecia mas que nunca acreditava: “não estás sozinha”. A sua bandeira? “Pedir ajuda não faz de ti uma pessoa mais fraca”. As figuras que me chamavam para o resgate eram-me todas familiares: os meus médicos, os meus pais, a minha irmã, as minhas amigas mais queridas e essas minhas outras pessoas. A comandar o gigante, estava a minha avó. De sorriso tímido e olhar lacrimejante, ela murmurava: “nós ajudamos-te, não precisas de estar sozinha”. Então, o meu peito ganhou um outro sopro. Pesado mas aliviado, o meu peito fez a água dos meus olhos misturar-se com as correntes daqueles oceanos que não findavam. Senti aquelas vozes contaminarem-me. Primeiro, as minhas lágrimas; depois, a minha respiração; por fim, a minha mente. Desviei a outra mulher do caminho e comecei a nadar em direcção à salvação, em direcção à vida. Eu não queria morrer. Eu queria amar e ser amada, eu queria viver. Mas, para isso, não podia estar sozinha. Eu queria viver no mesmo mundo que aquelas pessoas. Aí, também sentiria dor, é verdade. A dor existe em todo o lado; mas, ao lado deles, é mais fácil de suportar. “Não tens de passar por isto sozinha, Catarina. E aceitar ajuda não faz de ti menos daquilo que tu és. Tu és a Catarina, não a tua doença”.

    Ainda aqui estou, é um facto. Pelo menos, ainda aqui estou fisicamente. Não me matei, portanto. Estou a começar a sair do buraco onde caí, da cova onde me ia enterrar, do poço onde me ia afogar. Estou a começar a voltar à vida. Vou demorar a voltar a mim. Vou demorar a recuperar as rédeas do meu corpo; vou demorar a tomar conta do meu coração. Vou demorar a ser eu outra vez. Na cara, ainda tenho pintadas as manchas desta última batalha. Da minha boca, ainda voam poucas palavras, porque falar exige-me muito esforço e eu ainda tenho pouca energia. O meu caminhar ainda é lento, porque os meus demónios ainda pesam nos meus ombros. Aquela outra mulher, aquele outro eu que me colonizou, ainda me grita, ainda me dá ordens. Há dias em que não consigo combatê-la. Há dias em que ela vence, mas são cada vez mais os dias em que eu a derroto. Porquê? Porque tenho ajuda. Além dos médicos, tenho as minhas pessoas. Depois de ter visto aquele cargueiro, decidi mostrar os bastidores do meu palco à minha família. Quase a seguir, abri-me para a minha «irmã mais velha». Aos poucos, os meus amigos foram sabendo do que se passava. Por fim, os meus orientadores.

    É certo que ainda não estou totalmente livre. Ainda não cheguei a terra. Mas nunca estive tão bem no meio do mar. Este cargueiro é agradável e guardá-lo-ei no bolso, para a próxima vez que for preciso fugir da morte, para a próxima vez que for preciso fugir de mim.

     Estou a melhorar. E estou mais forte do que queria crer.

    Estou a salvar-me, avó.

    Até já.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

"You're Losing Me", Taylor Swift

    Hoje, ouvi falar nele outra vez. Um velho amigo, um amante de outra época, um parceiro de um outro eu. Inesperadamente, voltei a mirá-lo, segura de conhecê-lo desde sempre, segura de saber que a distância entre nós é cada vez maior, mas que hoje encurtou num piscar de olhos. Apanhou-me de surpresa, mas não me surpreendeu. A palma da minha mão é mais difícil de ler do que o coração dele. Noutros tempos, o seu âmago era o meu, e o meu era o dele. Não havia distinção entre os nossos pensamentos, porque ele era a solução infalível para os meus problemas inevitáveis. Caminhavamos de mãos dadas, mesmo quando todos os olhos recaíam no meu rosto.

    Tem sido um início de ano bastante intenso. Ainda que, para mim, sejam dias iguais aos outros, os azares, a má sina, a desventura de quem me é próximo magoam-me mais do que se me atingissem directamente. Está-me no sangue sofrer mais pelos meus do que por mim e esta semana tenho combatido duas guerras. A minha experiência não me preparou para ouvir o nome dele no meio destas batalhas repentinas. Aquelas letras fizeram soar todos os meus alarmes, ricocheteando as minhas memórias enquanto vasculhavam os baús que tenho vindo a arrumar desde há anos. As borboletas levantaram voo e a minha alma deu uma volta de 180º para encarar de frente a nova paisagem: chegou a hora de resgatar a velha armadura dos confins do armário, onde a enfiei há meses por que não queria lidar com o mundo, e vesti-la pelas minhas pessoas. Chegou a hora de lutar pelos meus, que tanto lutaram por mim.

    Eventualmente, eu voltaria a esta personagem. Normalmente, preciso apenas de um tempo para me adaptar à nova realidade e, tendo estado fora tantos meses, regressar ao meu mundo iria implicar um período óbvio de carência. Só que, entretanto, a vida aconteceu e fui requisitada mais cedo do que previra. Pensei que, talvez, fosse apenas por uns momentos, mas hoje, quando ouvi falar nele, percebi que não. Fui convocada a 100% e não há volta a dar; ou sou o que sou ou sou nada. E eu sou o que sou.

    Ele apareceu-me num momento inusitado. Voou de uns lábios que mal conheço, meio atirado para o ar, como se fosse algo natural, quotidiano, corriqueiro. Impôs o silêncio quando tomou a mesa e os seus ouvintes; tínhamos um novo rei e nem nos aperceberamos. Como é costume, apresentou-se ao contrário: primeiro as consequências, depois as causas e, por fim, tudo o que viera pelo meio, como se os sinais só fizessem sentido com o puzzle definitivamente montado. Rídículo como bandeiras significam nada para tantas almas. Se os olhos traduzissem as palavras, a vida seria celebrada de outra forma. Ele passa o tempo a dizer isto; repete-se quase até à exautão. O seu grito é constante, mas os corações não ouvem, por ignorância ou por desleixo. Depois, admiram-se.

    Enquanto estivemos no mesmo espaço, fui-me alimentando do seu sorriso, desenhando os mesmos traços no meu rosto, numa resposta afectuosa. Concordei com as suas premissas, as suas histórias, os seus pareceres; a minha cabeça anuía, a minha voz completava as suas frases, os meus olhos seguiam as mesmas linhas de pensamento. Caíra na sua teia novamente, mas, desta vez, fi-lo de forma consciente. Quis apenas voltar a provar o agridoce do seu beijo derradeiro, que não espero voltar a ter. No mesmo momento, disse-lhe olá, namorei-o e despedi-me dele; tudo na pequena eternidade que abraçou aqueles instantes. Sei que uns não o notaram, outros desconfiaram e outros tiveram até certezas do que acabara de acontecer. Há pessoas que me conhecem demasiado bem para ler os meus olhos e perceber a minha mente.

    Quando hoje voltei a ouvir falar nele, nunca imaginei que abalasse os meus novos pilares desta maneira. Isso é bom e mau, ainda que não seja inteiramente culpa sua. Não escrevo há meses e, de repente, preciso de berrar aos sete ventos o que me vai no peito. Sou uma mulher estranha. Basta-me um segundo inesperado com ele e todo o meu mundo congela. Aquela boca suspira o seu nome e eu sou transportada para outra paisagem, como se ele me levasse pelo braço, como se voltassemos a caminhar de mãos dadas pela rua outra vez. Isso é bom, porque me faz acelerar, me põe a correr ao mesmo ritmo que a realidade. A sua naturalidade e a sua familiaridade voltaram a conquistar-me, mas, agora, deixaram-me em estado de sítio. Se as guerras em que estou a participar já eram graves, ele só me veio pedir mais munições. Agora, além de soldado, sou espião: tenho de ler nas entrelinhas, descobrir todos os segredos, adivinhar as terceiras intenções. Ele obrigou-me a sair do esconderijo e a transformar a minha raiva e indignação em combustível para proteger e cuidar de quem eu mais quero. E isso é mau: por que, se eu preciso de cuidar, é por que alguém está mal. E isso nunca é bom.

    Hoje, ouvi falar nele outra vez. Hoje, voltei a ouvir falar de suicídio. E o meu mundo acordou.

sábado, 16 de setembro de 2023

"The Only Exception", Paramore

    Há quase dez anos, depois de uma segunda tentativa de suicídio, foi-me diagnosticada uma depressão major. Fiz terapia numa unidade de saúde pública, mas não correu bem e, por isso, abandonei o tratamento. Anos depois, com o incentivo de várias pessoas, principalmente da minha irmã, voltei a fazer terapia, desta vez fora do SNS. Ainda não abandonei o tratamento e não conto fazê-lo. Em 2020, tive uma re-avaliação da minha condição médica e, afinal, não tenho uma depressão major. Não quero indicar o seu termo aqui, mas chamemos-lhe «depressão de dois pólos» (e não, não é bipolaridade). Interessa somente dizer que comecei a tomar medicação e que continuarei durante anos. Portanto, faço psicoterapia e tomo drogas. Esta combinação já me salvou várias vezes de profundas crises depressivas e novas tentativas de suicídio, pelo que não me arrependo de ter procurado ajuda. É fácil? Não, mas tem-me mantido aqui. Por que são estas informações importantes? É que este é um tratamento de ANOS e o caminho para a recuperação não é linear. A minha depressão domina-me há mais de duas décadas, e não é em seis meses que ela vai resolver-se. O progresso também não vai ser sempre a subir. Há altos e baixos, momentos em que recuo e outros em que avanço e ter noção disto é importante quando lidamos com alguém que esteja numa condição semelhante à minha. Pode parecer confuso e este texto mostra-o, de certeza.

    Não sei como aconteceu isto, não sei como cheguei àquilo que vos quero contar. Não me apercebi que aquela fase dos sonhos que tive em Fevereiro era o prenúncio da fase mais grave da minha doença desde os anos da pandemia. Creio que o facto de não ter o meu tempo nem o meu espaço tenha contribuído, em parte, para esse desapercebimento. Também o afastamento físico das melhores pessoas da minha vida não terá ajudado, além da já habitual desilusão em termos de crescimento académico.

    Este texto tem muitas camadas, mas para contextualizar basta dizer que eu achava que as minhas melhores amizades foram um conjunto de mentiras. Mais precisamente, eu acreditava que tinha sido enganada outra vez e que nunca deveria ter acreditado na falsa amizade que supostamente alguém desenvolvera comigo. Tudo porque essa pessoa não esteve inteiramente focada em mim e nos meus problemas durante mais de três dias seguidos. Tudo porque eu achava que essa pessoa não dava tanto àquela amizade como eu e que eu cometera o erro de ser sua amiga. E foi assim que começou.

    Falhei, como sempre falho. Entrego-me inteiramente e espero sempre que o retorno seja inteiro; mas não é. Será este o meu fatal destino em todas as minhas ligações humanas: entregar-me sem existir um alguém para me receber ou para devolver o eterno que lhes dou? Servirei apenas para afogar as mágoas das almas que sofrem? Serei apenas um farol temporário, onde um corpo aporta por momentos, enquanto aguarda a chegada do seu navio que o leva a um porto seguro? Serei eu um cofre que permite guardar as preciosas energias que apenas são resgatadas num instante de desespero e que é deixado vazio quando o Sol brilha?

    Falhei. Falhei outra vez. E falhei pelo simples facto de ser eu. Falhei porque quero cuidar, porque quero proteger, porque quero amar e porque quero que me amem na mesma medida. Será assim tão errado, será assim tão difícil de atingir, será assim tão complicado de perceber? Não guardo o que sinto e esse impulso emocional leva-me ao limite. Por isso, falho. Não por que dê menos, mas por que dou demais. Não por que me escondo, mas por que me mostro demasiado. Não por que rejeito, mas por que aceito o pouco que me dão de volta. Não por que não quero; é exactamente por que ambiciono que sempre cometo o mesmo erro. É um ciclo que sempre se repetiu e que aparenta ser inquebrável. E o erro é sempre meu.

    E será talvez o único erro que nunca consigo emendar e com o qual nunca aprendo. Será talvez o erro que mais me pontua o peito com remendos invisíveis, que mais feridas deixa abertas, que mais cicatrizes desenha no meu corpo. Mas tenho consciência de que é um erro só meu, só meu porque só eu me dou conta dele. Sei que caminho ele segue; sei sempre onde começa, tenho certezas de onde acaba. Vejo-o percorrer essa ténue linha, essa corda-bamba, como se nem a maior tempestade o desequilibrasse. Vejo-o nesse trilho a partir da janela do meu coração, contornando a mesa em passos lentos, vagarosos, subtis, e nada faço para o impedir. Vejo-o seguir com impetuosidade para o seu destino final; quero pará-lo mas nunca consigo abandonar aquela mesa, aquela janela, o meu coração. Petrifico-me na esperança que desta vez seja diferente. Petrifico-me com o poder que ele emana sobre mim, com o poder que ele liberta nos palcos por onde passa. Petrifico-me na vontade de destruí-lo. Mas a impotência apodera-se de mim e a esperança deseja sempre o mesmo: que esse todo que eu entrego seja sempre recíproco. E não é. Nunca é. Nunca será. 

    Durante anos, perguntei-me pelos motivos desta inércia, desta incapacidade de mudar esta pequena e desastrosa característica que me atormenta a alma. A resposta à minha pergunta é longa e complexa; não é fácil de ouvir, não é fácil de processar, não é fácil de absorver.

    Recentemente, este erro voltou para me assombrar e, desta vez, atingiu-me como uma adaga no coração, torcida uma e outra vez, desferindo golpe atrás de golpe, matando-me vagarosamente. Desta vez, não estava à espera, não o vi sair do seu esconderijo e tomar conta do meu cenário. Desta vez, não tive um único momento de lucidez para perceber que as minhas amizades iam ser absorvidas pelo pior de mim e que isso ia acontecer, precisamente, na altura em que deveríamos estar todas em sintonia, num descanso colectivo. Não me apercebi e o erro cometeu-se.

    Neste momento, estou sozinha, em lágrimas, a escrever estas palavras. Há dias, semanas, meses que não falo com as pessoas importantes da minha vida, a quem dou tanto. Porquê? Por que os expulsei temporariamente do meu mundo. A anestesia produzida pelo meu cérebro prolonga-se no meu próprio corpo e impregna todas as minhas vontades, as minhas acções, atitudes e palavras. Deixo de ser o eu do costume e a outra mulher que vive em mim decide governar todos as partes do meu mundo. Essa mulher é aquela que eu tenho educado e combatido nas minhas sessões de psicoterapia. É ela a outra interlocutora nos meus diálogos interiores e é ela que me faz crer nas traições que os meus amigos supostamente cometem. Essa ‘outra Catarina’, como lhe chamo, é a que convence a ‘verdadeira Catarina’ a magoar as pessoas que a querem bem, mandá-las embora e cortar laços sempre que algo menos positivo acontece. É ela que demoniza todos os sorrisos que alguma vez recebi, todas as boas atitudes que alguém teve para comigo, todos os abraços, os desabafos e carinhos, todo o bom que há nos outros. É ela a mãe do erro que tenho repetido e de quem ainda não conhecia a origem.

    Aprendi com a minha psicóloga que não posso tomar acções precipitadas quando algo deste género acontece. Tenho uma amiga que está à espera há semanas que eu lhe explique por que é que fiquei chateada com ela. A ‘outra Catarina’ – chamemos-lhe Vitória, para simplificar – não se cansa de recomendar-me: “esquece-a. Como deves imaginar, essa pessoa está cansada de esperar e não está para aturar estas merdas, por isso nem vale a pena dizeres nada”. Discuto com esta mulher, resultado de anos de terapia: “mas ela diz que espera, que me quer bem, que tem saudades minhas e que me quer ver feliz. Ela diz que vai estar lá para me ajudar. E a verdade é que ela já me deu provas disso”. De nada serve. A Vitória insiste: “Mentira! É tudo mentira! E tu és uma estúpida por acreditares nessas merdas. É que nem faz sentido alguém dizer-te isso. Não faz sentido alguém suportar este tratamento de merda que dás às pessoas. Ninguém está para aturar estas porcarias que tens na cabeça. Ninguém quer lidar com os teus problemas mentais. As pessoas cansam-se de ti, idiota. Pensava que já tinhas aprendido isso. Querias o quê? Que fosse tudo para sempre? Estúpida!”.

    Esperei para falar com a minha psicóloga. E foi nesta última sessão que a Vitória nomeou o erro que eu repito inconscientemente: «sempre». Seis letras que eu não fazia ideia terem tanto poder sobre mim. Uma palavra nada saudável nas minhas relações. Um advérbio que arruinou tanto na minha vida. Finalmente, percebi. «Sempre» é aquilo que dou e aquilo que espero receber de volta. E isto nada tem de bom. Na realidade, é terrível. De repente, vi o nível de exigência com que pinto as minhas amizades mais próximas, aquelas que mais estimo, e vi os motivos que me levam a cometer o mesmo erro: exigo o «sempre» que lhes dou. E o problema não está no exigir; o verdadeiro problema é eu achar que uma relação saudável se deve basear no «sempre», uma eternidade quase a roçar a dependência. “Eu acredito que uma relação saudável é estar sempre lá, sempre disponível, sempre focado no outro, sempre ao seu lado, ser sempre seu, a todo o segundo”: é esta a premissa que a Vitória me fez crer ser a correcta durante anos, sem que eu me apercebesse. Ela domina-me o coração com aquele «sempre», um «sempre» que ela sabe que é impossível, totalmente irrealista, que ninguém algum dia irá cumprir, e usa-o para vencer as inúmeras batalhas que eu tenho travado, a fim de ficar melhor, a fim de me tratar, a fim de me curar. E a Vitória exige-o de toda a gente, porque nunca o teve quando deveria.

    Esse «sempre» transforma as cores vivas das minhas amizades no pior retábulo que pode existir. Ele convence-me de que, quando alguém não corresponde às minhas expectativas, então, essa pessoa nunca me quis na sua vida ou, pior, esteve a desempenhar um papel quando foi gentil ou boa pessoa comigo. Sim, aquele «sempre» evoca a desilusão, falsidade e mentira a partir do momento em que essas pessoas cometem determinado erro; e eu acredito, sem pestanejar. Eu não concebia que alguém-que-me-pudesse-querer-muito pudesse errar, porque, na minha cabeça, isso apagava todas as coisas positivas e todas as provas de amizade que tinham existido antes. Eu não acreditava que essas pessoas-que-me-queriam-muito podem, sem qualquer intenção, fazer ou dizer algo que me pudesse magoar (ou que não estivesse em sintonia comigo) e isso não significar que não me queiram bem ou que não me queiram ajudar e que não estejam a dar o seu melhor. Basicamente, o «sempre» impede-me de ver os outros como seres humanos que cometem erros, tal como eu. Tal como eu, os outros também cometem erros. Tal como eu.

    Senti-me enojada quando percebi que, durante anos, andei a cobrar aos outros algo que eu não aceito em mim mesma, algo de que tenho um medo imenso, algo que não perdoo em mim: falhar. Percebi que uma das piores coisas que os meus anos de traumas me deram foi achar que era inaceitável e errado viver com o acto humano de falhar, que a demonstração de humanidade que é falhar para comigo ou para com os outros é algo imperdoável. Por outras palavras, a Vitória fez-me jurar, sem que eu notasse, que o verbo «falhar» deveria ser erradicado do meu vocabulário e que, se algum dia, ele desse o ar da sua graça, deveria ser profundamente punido. E isto servia para quando eu falhava comigo e com os outros, mas principalmente quando os outros falhavam para comigo, quase como se fosse uma ofensa.

    A melhor analogia para isto seria a da construção de um edifício: o edifício é a relação de amizade. Esta vai sendo construída bloco por bloco. Um dia, quase no topo, a pessoa comete um erro: a cor do tijolo é diferente das outras. De repente, a Vitória toma as rédeas e decide: “aquele tijolo amarelo é um erro, por isso não podemos acreditar nestes tijolos vermelhos que ela foi pondo; o veredicto é a demolição”. E assim se destrói uma relação. No fundo, descobri que a pior auto-sabotagem que alguma vez vi é aquela que tenho cometido sem me aperceber. E aquilo que vocês lêem agora é apenas uma pequena parte do que está a acontecer.

    As consequências físicas deste «sempre» são várias e dependem do momento que esteja a atravessar, nessa fase depressiva. Nesta altura, neste preciso momento em que escrevo isto (e sublinho que já estou melhor), já sou capaz de sair da cama às duas da tarde e cozinhar o pequeno-almoço tardio. Já tomei dois banhos em quatro dias e hoje consegui lavar os dentes a todas as refeições. Hoje também tive energia para pentear o cabelo e, pela primeira vez em dias, não me apeteceu dormir durante a tarde. É verdade que estive bastante tempo a fazer scroll no Instagram, sem ver efectivamente coisa nenhuma, mas sei que foi menos mal que dormir durante a tarde. Ah, hoje também pus creme hidrante nas minhas lindas tatuagens e cantarolei enquanto lavava a louça.

    Mas eu digo-vos como estava a semana passada e a anterior: dormia o dia quase todo, comia mal (ou mal comia, dependia da hora a que me levantasse), não lavava os dentes, não tomava banho, não saía de casa, não respondia a mensagens ou telefonemas, reservava a minha energia para as chamadas quase diárias com os meus pais (para não desconfiarem, claro), não sabia literalmente que dia ou hora eram. O meu corpo era um saco de cimento, a minha vontade de viver era continuamente nula. Arrastava-me pela casa quando me mexia. Não via, não cheirava, não sentia. Era absolutamente nada. Tudo por culpa daquele «sempre», que me deixou profundamente irritada e desiludida com uma amiga, mas que, afinal, essa atitude era uma projecção minha. Eu culpei-a do «sempre» que julgava que deveria ser. Eu culpei-a por um erro que me define. Eu culpei-a pelo horror que nasceu em mim, que vive em mim e que combato sem fim. Fui eu.

    Desculpa. Amigas?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

"lovely", Billie Eilish ft. Khalid

    O tempo dos sonhos voltou.

    Primeiro, acontecem uma ou duas vezes por semana; depois, passam a repetir-se; por fim, assaltam-me a mente todas as noites. Se sonho, durmo, mas não descanso. Se não descanso, bem, sabemos como isto acaba. Como sempre, quando se inaugura esta fase, a espiral começa a tornar-se visível aos olhos dos que me querem e que estão lá. É um processo que demora e que eu me esforço para evitar que passe para o mundo dos outros. Por enquanto, ainda não notaram, mas, quando estiver bem avançado, o sucesso será inexistente, claro está. A vida falha-me porque eu sou falível.

    Os meus sonhos são sempre vívidos. Isso é talvez o pior de tudo: não conseguir distinguir a realidade do imaginário. Acordar a perguntar-me se isto ou aquilo aconteceu realmente ou se sonhei. Parece engraçado, mas não é. É horrível. «Eu disse mesmo aquilo?». «Aquela pessoa fez tal coisa?». Já aconteceu – e mais do que uma vez – ter tomado decisões que, aparentemente, nunca estiveram em cima da mesa e que tiveram de ser outros a esclarecer-me. Seria bonito se os meus sonhos fossem bonitos.

    Tenho sonhos bons mas grande parte do que se passa no meu subconsciente durante a noite não é adorável. São muito mais frequentes os pesadelos. Acordo de peito pesado, lágrimas nos olhos, a cabeça a explodir. Outras vezes, são os gritos ou os soluços que me resgatam daqueles infernos. Outras, não acordo. Nessas vezes, as manhãs são quase impossíveis; a dúvida instala-se e não desaparece até ter tudo comprovado e isso provoca-me um sentimento de impotência que mata todas as esperanças de existir bonança nas minhas noites. Sei que a terapia está a resultar quando já não desperto numa madrugada com as minhas próprias mãos agarradas ao pescoço, sufocando-me até à espinha, deixando um rasto de sombras vermelhas na minha pele apática. Sim, isto acontecia.

    Já estou na etapa dos sonhos diários há seis dias. Já acordo durante a noite com o olhar húmido, o sal a banhar-me as bochechas, a dor a manchar a almofada. Já estou na fase do peito pesado antes, durante e após o sono. Já cheguei ao momento em que não quero ir dormir porque sei que será doloroso. O ar já me falta demasiadas vezes. Os cenários que vagueiam pelos meus olhos nestas alturas já começaram a entrar no campo da sensibilidade. Costumo ter sonhos sobre as coisas do dia-a-dia, do trabalho, do quotidiano, como muita gente. Contudo, quando a porta dos temas sensíveis é aberta, a situação agrava-se. E, nestes dias, tenho sonhado demasiado com uma amiga que me é muito querida e com a minha avó.

    A saudade pesa tanto no meu peito que mal me aguento em pé quando penso nisto. Na realidade, ainda não escrevi o que quero escrever e já estou a lacrimejar. Tenho muitas saudades da minha avó. Tenho tido cada vez mais, ultimamente. Talvez seja a fase da vida em que estou agora e que me está a testar. O que é certo é que a nuvem que me envolve está cada vez maior e sinto que estou a perder o rumo. A falta que ela me faz está a tornar-se insuportável e os meus sonhos só pioram este vazio.

    Sonho com o passado. Recordo os dias em que ia visitá-la ao hospital, da primeira vez que ela esteve internada, em que se descobriram os seus problemas respiratórios. Lá subia eu, sempre por volta da uma da tarde, ao quarto piso, para almoçar com a minha avó. A minha marmita nos joelhos, enquanto me sentava na ponta da sua cama e ela se endireitava com cuidado. Os olhares coincidiam naquela hora de partilha, naqueles momentos de encontros quase espirituais. A minha coxa encostada à sua canela, protegida pelas mantas; o meu torso virado na direcção do seu peito, unindo os nossos corações. Os sorrisos entre as conversas sobre o tempo, a comida e os «então, e hoje, o que vais fazer na biblioteca?». Foi nesta altura que me apercebi que, um dia, eu teria de a deixar. Por isso, e isto lembro-me perfeitamente, transformei aqueles momentos em tesouros. Gravei-os como um filme estático, silencioso. Os instantâneos tornaram-se feixes de luz que, de quando em vez, pintam o lado pálido da minha alma, permitindo-me sorrir com a verdade no rosto.

    Estes meus sonhos, porém, instalam a melancolia nessas imagens. A felicidade vai-se deturpando à medida que a tristeza vai conquistando aquelas terras da memória. A mágoa, o pesar, a angústia, tudo isso começa a tomar conta das coisas bonitas que uma vez recordava e que, agora, os sonhos pretendem tornar dolorosas. E isto arrasta-se durante o dia. Este é o verdadeiro perigo da minha mente: quando o meu subconsciente começa a dominar o consciente e a realidade passa a ser outra. A minha salvação são as fotografias e o seu nome na minha mão. Aí, sei o que é falso e o que é real.

    O mesmo não acontece quando o centro do palco é a minha querida amiga. Aqui, coroa-se a dúvida como se não existisse outro herdeiro, como se a nossa amizade valesse absolutamente nada. Vivo com o medo constante que ela me largue, deixe de querer estar comigo, arranje alguém que me substitua, me abandone. É um medo constante, sim, e pontual, mas não assíduo. Não se traduz nos meus pensamentos a todo o momento. É constante por que sempre existe, porque parte de mim tem como certa a ideia de que, um dia, este irá concretizar-se, como se de uma profecia se tratasse. Este medo constante de abandono apropria-se do meu corpo especialmente quando entra alguém novo na vida dela ou ela começa a passar mais tempo com outra pessoa e eu não sou incluída nesses planos. Quando estou bem, fico feliz por ela, fico apaixonada pela inexistência de uma dependência em relação ao meu ser, fico contente com a boa maré da vida dela. Quando estou bem e ela está bem, fico bem.

    Porém, quando estou nesta fase dos sonhos, o medo apodera-se de tudo. As minhas engrenagens mentais começam a trabalhar contra mim, pondo em causa tudo o que eu achava ser para ela e ela ser para mim. Os demónios de que sou feita tomam conta do meu mundo e a realidade deforma-se:

«Afinal, não somos tão amigas assim. Afinal, não sou essencial na vida dela. Claramente, ela está bem sem mim. Na realidade, até acho que está melhor. Sim, ela nunca foi minha amiga. Não há razões para isso. Acho que ela só andou a aturar-me este tempo todo porque é demasiado boa pessoa e não me queria dizer não. É, é isso. Eu só estorvei a vida dela. Só lhe dei dores de cabeça. Nem sequer fui uma boa amiga. Daquela vez, disse-lhe aquilo e magoei-a. Sou a pior amiga de sempre. Ela tem razão em deixar-me. Eu não mereço uma pessoa como ela. Agora, ela tem aquela outra pessoa, também não precisa de mim para nada. Era óbvio que ia ser substituída. Nunca ninguém me quer, na realidade. Eu é que acho que as pessoas gostam de mim. É tudo mentira. Eu não mereço ter estas pessoas na minha vida. É tudo mentira».

    E repete.

    E repete.

    E repete.

    É um discurso contínuo, um monólogo imparável que me envenena o âmago, de noite e, ao fim de um tempo, de dia também. Sonho com isto uma e outra vez. Tenho pesadelos repletos de momentos em que ela e outras amigas me tiram das suas vidas, em que todos parecem aperceber-se que eu sou nada e mereço ainda menos. Pesadelos em que os protagonistas descobrem que é mais fácil contar os pontos luminosos na noite estrelada do que encontrar razões para me amarem. Desenterro os meus gritos quando os vejo afastarem-se de mim, nos meus sonhos. Esmago o meu peito quando noto a sua indiferença perante a minha existência. Sinto-me brutalmente sacudida para fora do cenário, como a areia da praia desesperadamente agarrada à toalha que sobre ela descansa, e que dela é obrigada a despegar-se, porque ninguém a quer levar para casa. Desviado para o lado, como um emplastro indesejado, o meu ser torna-se um empecilho, o meu corpo um vazio silencioso e a minha personalidade um borrão colectivo, desaparecendo na névoa da inexistência. Como um apagão ambulante, como um nada que carrega apenas palavras insignificantes e sentimentos impossíveis, sinto que mereço aquele abandono porque mereço não ser amada. Por outras palavras, volto a acreditar em tudo o que tenho combatido ao longo de quase quatro anos de psicoterapia.

    Resultado? Afasto-me, começo a desligar, faço autosabotagem; é só escolher. Acaba bem? Por acaso, tem acabado, porque tem-se solucionado. Não consigo é ver esse final feliz, neste momento. Ainda estou no meio da tempestade. A bonança ainda está longe e eu nem consigo imaginá-la, quanto mais descrevê-la. Vamos só esperar que isto passe depressa. É a única esperança que consigo arranjar. É a única energia que consigo ter.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

"Renegade", Big Red Machine ft. Taylor Swift

    Sempre que posso, faço por ser uma voz activa na implosão da ignorância que tanto por aí se vê sobre doenças mentais, principalmente as que me tocam no âmago, por razões óbvias. Quanto às outras, procuro saber mais e difundir esses conhecimentos sempre que sinto que o lado de lá está interessado em compreender maleitas que matam tanto ou mais que o cancro – algo para o qual toda a gente é muito sensível. Sei que é uma batalha difícil; as pessoas ainda têm dificuldade em ler a depressão e a ansiedade como doenças e não como estados de espírito ou fraqueza emocional. Devagar se vai ao longe, penso; mas quão devagar estamos a ir?

    Por forma a acordar os seres do seu sono ignorante, costumo comparar (para efeitos puros de analogia) estas doenças com outras mais «respeitadas», como o cancro – por vezes, e para simplificar, a gripe ou a fractura de um fémur. Outras, faço um desenho imaginário, de maneira que o meu interlocutor siga o meu pensamento; fazer um desenho, na realidade, ajuda. Na maior parte das vezes, não sou bem sucedida: as pessoas não compreendem, ou não querem compreender, que, tal como ninguém gosta nem escolhe estar vivo e com cancro, ninguém gosta de estar vivo e querer estar morto ou passar o dia em alerta, a pensar o pior de tudo. Não são escolhas, são doenças.

    Aqui há dias, numa conversa aberta com os meus pais (que pouco percebem de doenças mentais, mas que fazem um esforço imenso para estarem lá), descobri algumas razões que explicam a ineficácia da minha acesa militância. Claro que não foi óbvio; discutimos vários assuntos relacionados com a depressão e a ansiedade e eu fui-me ficando, pensando e reflectindo no nosso diálogo. Algumas palavras-chave saltaram-me à vista e algumas suposições que eu achava implícitas revelaram-se mais complexas do que eu pensava. Percebi que, focando-me tanto nas minhas guerras, ignorava as deles.

    Não tomem isto como egoísmo: combater uma doença mental é tão válido como fazer quimioterapia ou ficar de cama a curar uma gripe. Não estamos a medir a gravidade de uma e outra situação; estamos a pô-las todas numa mesma caixa, uma caixa de madeira gigante com a palavra «doenças» carimbada em letras garrafais em todos os seus lados. Não quero discutir nem quero levantar nenhum debate que diga que é pior morrer de depressão que de cancro; o que quero é que, da mesma maneira que seja mau ter cancro, também seja mau ter depressão ou gripe ou ansiedade ou tuberculose ou doença bipolar ou sarampo ou transtorno de personalidade borderline. Todas são doenças; ponto.

    Quando se tem depressão ou ansiedade extrema, não é só o doente que sofre; os seus entes queridos, as pessoas que estão à sua volta também passam dificuldades. É-lhes difícil compreender as nossas atitudes, não sabem como lidar com os nossos ataques, as nossas crises, os altos e baixos tão característicos de uma doença tão silenciosa mas tão ensurdecedora ao mesmo tempo. O problema complexifica-se com a existência de todas as variantes da depressão, visto que, dependendo daquilo que as causa, os sintomas e respectivo tratamento são diferentes.

    Explico que há vários tipos de depressão, que não é só e apenas a pessoa estar numa profunda e constante tristeza para a doença ser considerada. Por exemplo, a depressão funcional redirecciona as forças das nossas vontades para a construção de uma máscara que se mantém perfeitamente operacional durante o horário de trabalho ou em eventos sociais, mas que, chegando a casa, se desfaz em pedaços, não restando nada a não ser areia nos dedos. A depressão em dois pólos, que caminha entre os limites da mania e da depressão profunda, eleva-me a fases de imensa loucura, ansiedade, pensamentos acelerados, hiperactividade e, tempos depois, destrona-me, atirando-me para uma escuridão imensa onde apenas conheço a angústia, o sofrimento, a inutilidade e a urgência da fuga para outro lado que não este mundo. Ter depressão não é estar triste; é muito mais.

    Tenho percebido que, da mesma forma que eu não entendo os motivos que, por vezes, me levam a ficar numa fase depressiva em determinada altura, os meus pais também não, nem alguns amigos. A ignorância deles, porém, não é propositada nem insultuosa, como compreendi recentemente. Ninguém lhes ensinou a lidar com uma pessoa assim e eles nunca tiveram a necessidade de aprender. Naquela conversa, tentei elucidá-los para as coisas que me atravessam os olhos quando passo por períodos mais negros da doença. As reacções que são em mim desencadeadas por uma determinada palavra que voou da boca deles ou a resposta agreste que atirei para fechar uma pergunta desconfortável ou até o olhar que me invadiu como resultado de uma atitude com a qual não concordei; tudo isso tem uma explicação. Eu sei que tem, mas, por vezes, é difícil verbalizá-la; às vezes, nem eu mesma sei, no momento em que o faço, os motivos para tal.

    Neste aspecto, a minha mãe não fala muito mas o meu pai quase fala pelos dois. Explicou-me o que se estava a passar nas cabeças de ambos, as dificuldades que eles sentiam em lidar comigo e com os meus demónios, as barreiras que eles viam a todo o momento e que tanto esforço faziam para ultrapassar, os obstáculos que eles desviavam do caminho mas que não sabiam se estariam a fazer o correcto. Por outras palavras, mostraram-me que, tal como eu, também eles se encontravam num mar revolto sem qualquer conhecimento de navegação nem um capitão, por vezes, apenas com uma jangada. Lembro-me do meu pai quase gritar «como é que é suposto eu lidar com isto tudo?! Nunca sei o que é suposto fazer!». E eu respondi: «não sei, pai. Eu própria ainda estou a aprender».

    Óbvio que ele não ficou totalmente satisfeito com a resposta, mas percebi que ambos tivemos um vislumbre das dificuldades que o outro enfrentava. Foi aqui que acordei do meu sonambulismo. Foi aqui que compreendi que, da mesma forma que eu tenho dificuldades em pedir ajuda, o lado de lá pode sentir-se incapaz em ajudar-me como deveria. Pela primeira vez em tantos anos, vi que, na realidade, havia outras formas de sofrer de uma doença que não é nossa. Amar alguém que está doente também é um processo que envolve sofrimento, impotência e, no limite, alguma solidão. De repente, compreendi que também eles tinham incertezas e inseguranças sobre a melhor maneira de cuidarem de mim e, pela primeira vez, admitiram-mo. E, pela primeira vez, eu acreditei que eles, de facto, queriam o melhor para mim – e o melhor de mim.

    No fim de contas, o mundo tem razão: nunca estamos sós.

    Obrigada.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

"É Isso Aí", Ana Carolina ft. Seu Jorge

     Tenho parte da alma completamente despedaçada. E ela nunca mais cantou da mesma maneira. Porque nada é agora como era antes. São demasiados os estilhaços espalhados, esperando a esperança de dias melhores. Mas onde estão eles? Existem sequer? Para mim, são um mito urbano. Não sei e não conheço verdadeiramente o que são «dias melhores»; não sei que espécie de tempo é essa, tão rara, tão extinta. Mas as pessoas forçam-me a procurá-los. Parece que entrei num campo de tiro, à caça de gambozinos, como se a minha vida dependesse disso. Todavia, é tudo mentira, tudo uma ilusão que me querem enfiar pela goela abaixo as vezes que forem necessárias até que eu a repita sob a forma de palavras que tanto abomino ou como os silêncios tão característicos da minha nova condição. Não me enganem: a banda sonora da minha vida nunca mais será a mesma.

    E eu nunca mais cantei da mesma maneira. Porque há canções que agora já não conheço, outras que não posso ouvir, umas que nem suporto dominar a sua existência, outras que me basta ler como um poema para o meu corpo personificar o meu coração e cair em minúsculos pedaços impossíveis de recolher; há sempre um bocado que fica pelo caminho, no chão, disperso, desprezado, desprendido e perdido da origem. Agora, tenho de ignorar determinadas faixas para continuar de pé, tenho de cancelar a repetição de outras para evitar atropelos no meu peito; outras têm de ser destruídas da minha memória, porque são demasiado dolorosas para ver uma e outra vez, indefinidamente, intensamente, eternamente. E gritam-me alguns para que não o faça. E respondo eu: a dor é minha, o arrependimento será meu; essas memórias, recuperá-las-ei quando o meu coração estiver de novo no sítio certo, com alguns dos seus fragmentos recuperados, colados com cuidado e de forma permanente. Porque não posso reviver todas as minhas nostalgias se não tiver um corrimão a que me possa agarrar enquanto desço por esse labirinto que me assusta; pelo menos, por agora. Porque o meu chão é feito de palavras e também elas me estão a falhar.

    Não me neguem: as palavras nunca mais serão as mesmas. E existem umas muito peculiares que eu sei que não posso ouvir de ânimo leve, porque o meu mundo se desfia com uma violência física inimaginável. Nem de ânimo leve, nem com toda a seriedade que passeia pela mente de todos os indivíduos: há palavras que agora doem e que antes me enchiam de amor. Mas não são só as palavras em si.

    As palavras são compostas por letras, mas também por tons de voz, cores, contextos, cheiros, mundos; as palavras são seres inanimados que se movem em cada gota do meu sangue e que me fazem provar vezes sem conta que a vida é tanta coisa junta que não bastam as palavras que inventámos até hoje para a descrever. E, agora, algumas delas atingem-me em cheio na frágil alma que agita o meu corpo; uma em particular. Uma palavra que me custa a ouvir quando vinda das falas de estranhos, da voz de uma criança no corredor das bolachas, da boca das vizinhas babadas, de seres humanos quase adultos que odeiam e amam ao mesmo tempo a dona daquela palavra. Uma palavra que, quando tem de sair dos meus lábios, me deixa com reacções contrárias, me desconcentra e confunde, me obriga a repensar todo um vocabulário, que faz querer recuar no tempo, me provoca uma enxurrada de emoções, tudo no único segundo que aquelas três letras demoram a existir no ar. Porque essa palavra, para mim, são demasiadas palavras juntas.

    a-v-ó: Tem os olhos cinzentos como nunca vi, da mesma cor do cabelo, uma cor de outro planeta. A tez é escura, exibindo com um modesto orgulho as manchas que pontuam as faces. Não é muito grande, mas tem encolhido ao longo dos anos; talvez esse crescimento invertido tenha sido provocado pela quantidade de amor que lhe tem chovido nos ombros. Cheira a sabedoria, isso é certo. A sabedoria e a carinho, muito carinho, mas também a princípios, valores, ideais. Cheira a bem, porque o mal a gente espanta a cantar. E esse perfume também tem outros odores, a flores, acho; não sei bem o que é, mas gosto. Há sempre um colo e um ombro no meio de todo o caos que é a vida; e disso nunca há ruptura de stock.

    a-v-ó: Há óculos que estão sempre desparecidos e colheres de pau que nunca foram usadas. «Para que é que eu preciso de mais uma? Já tenho tantas!». «Porque esta é simbólica. É de bambu. Não se estraga como essas. É como nós». Há abraços; raros, mas há. Há risos e muitos sorrisos. Há um sentido de humor imperial apesar de todas as merdas que aconteceram na vida. Há muito amor para dar e vender. Há roupas típicas, rotinas típicas, momentos típicos. Há também infâncias e adolescências fora do comum. Há cuidar de crianças numa zona provinciana, criá-las quase como suas, fazê-las crescer com a humildade tão característica daquele coração. Há uma contadora de histórias inveterada que nunca foi à escola. Tem a palete de cores completa e partilha-a comigo. Tem a mania de contrariar, teimar, não ceder, e a vontade de querer aprender, conhecer, estar presente. Tem os dois lados da mesma moeda, porque nada é só um. Tem as pernas curtas, mas um coração de longo alcance que surpreende. Tem arrependimentos mas também tem perdões.

    a-v-ó: Tem tudo. É perfeito. Pretérito Perfeito.