--- TRIGGER WARNING ---
O seguinte texto contém referências
a acções com potencial de causar angústia, sofrimento e/ou activar
gatilhos emocionais.
Tenho dialogado muito com a morte, nos últimos meses. É uma das
condições da minha doença. É uma garantia que nunca quis mas que me foi
impressa no corpo, no cérebro. O facto de, neste momento, estar a estampá-la
nestas páginas é já uma pequena vitória de uma das muitas batalhas que compõem
esta eterna guerra. Os jardins da minha mente estiveram totalmente infectados
com o pior vírus que a depressão propaga na alma: o suicídio. Estive a passos
de atentar contra a minha vida pela terceira vez. “E esta, seria a última”, gritei
com todas as certezas do mundo. A terra sabe o que tenho passado nestes quatro
anos, mas esses não se comparam com este derradeiro semestre. É certo que o último
Verão também não foi fácil. Pensei que morrer não seria uma má ideia, uma vez
por outra; mas o tempo correu e eu não me apercebi do estado em que estava (ou
talvez não quisesse reconhecer), por isso, fui andando. Desta vez, a queda foi
demasiado grande.
De repente, e pela primeira vez desde há mais de dez anos,
todos os problemas – e absolutamente todos – tinham a mesma solução: a morte. Esqueceste-te
de pagar as contas? Nem para isso serves, vale mais matares-te. Não és capaz de
limpar a casa? Que nojo de ser humano; mata-te. Entornaste a areia do gato? Nem
cuidar de ti consegues, quanto mais de outro ser vivo; é melhor para ele se tu
te matares. Os teus pais estão fartos de levar com os teus atrasos para o
almoço de Domingo? Melhor morrer; assim não os decepcionas. A tua irmã não tem
tempo para ouvir as tuas merdas? Ela já tem problemas que cheguem; mata-te. As
tuas amigas têm outras amigas e outros amores? É porque não precisam de ti, por
isso, não faz sentido viveres. Continuas sem entregar os textos aos teus
orientadores? Deixa de iludi-los; mata-te, que eles assim podem dar o teu tema
de tese a alguém que o mereça. Não comes mais do que um iogurte e um pão com
manteiga por dia e, mesmo assim, ainda és gorda? És um desperdício de oxigénio;
mata-te. Magoas as pessoas e nem te lembras? Mata-te, sua egocêntrica. Queixas-te
da tua vida quando há tanta gente em situações bem piores? És uma vergonha para
a sociedade; cala-te e mata-te. Não interessam os motivos, as razões, os
contextos: não tens direito a estar viva. Aliás, a tua presença conspurca a
vida dos outros. A tua existência incomoda o mundo. Mata-te; para o bem de
todos, mata-te.
A outra mulher que em mim habita governa-me sem piedade. Só a
palavra dela conta e palavras é algo que não lhe falta. As matemáticas do
pequeno eu que recebe sempre a mesma ordem nunca atingem outro resultado senão
aquele que lhe é forçado a engolir. Simplesmente, sou alimentada pela morte; e
sou bem alimentada, para chegar depressa a sua casa. Ela espera-me
pacientemente há demasiado tempo. O meu quarto de dormir está intocado, arrumado
da mesma maneira desde a última vez que o vi, pela porta entreaberta. Espaçoso,
mas não muito grande, tem o essencial para viver: uma cama, uma secretária,
lápis e folhas brancas. Não tem janela, para o mundo não me magoar. Não tem
livros, para eu não sonhar. Não tem música, porque ela desperta-me emoções e eu
não quero mais sentir. A dona da casa reforça que tudo aquilo é o essencial.
Ela diz saber do que eu preciso. Decerto, falará verdade, porque tem o meu
reflexo. Ela, que sou eu e a morte, sabe que só quero o fim deste tormento, por
isso, não preciso de muito para ali, para onde vou, para onde quero ir. Basta o
meu corpo e a minha alma para chegar ao fim.
E se tudo isto não for suficiente para me convencer a morrer,
há muitas outras falhas em mim que o justificam. Porque, quando atravesso uma
recaída tão forte como esta, não é apenas uma bola de neve. É toda a montanha
que colapsa, sem qualquer hipótese de fuga. Todo o bom que há em mim é
albaroado por todo o mal que em mim também existe, mesmo que parte dele seja
fruto da minha imaginação. Todo a beleza do mundo é camuflada, imperando os
terrores que me assolam e os horrores que eu provoco. Se existe um mal, ele é
coroado. Se não existe, eu invento-o, multiplico-o, dou-lhe terras, nobilito-o
e declaro-o rei da minha mente. É um estado de guerra permanente e eu saio
sempre a perder. Com cada derrota, aquele quarto vai ficando cada vez mais e
mais apetecível. Uma eternidade sem dor nem mágoa chama-me, uma e outra vez; e
eu quero muito ir.
Quando atravesso uma recaída, as conversas sobre a morte e o
morrer são os tons quentes que pintam a tela branca e transparente em que me
transformo. A apatia serve-se do meu corpo e da minha alma, quais recipientes
livres de livre-arbítrio. Os sons da vida não agitam nem uma nota do silêncio
que me assola. Não é que seja tudo negro ou escuridão; quando o é, é porque
ainda sei que há uma luz por aí que cria as sombras por onde caminho. Se
estiver na fase da escuridão, ainda tenho salvação. É quando a indiferença e a
apatia se tornam as minhas cores primárias que o perigo é maior. Porque é aí
que eu deixo de encontrar soluções nesta vida e começo a procurar numa próxima.
É aqui que começo a estudar a melhor forma de abandonar tudo e desprender-me do
peso, do martírio, que é viver.
Na realidade, é bastante fácil. Se estiver a conduzir, é fácil
carregar no acelerador e esbarrar numa parede, no separador central, em
qualquer sítio. Na cozinha, é fácil pegar na faca de 16 cm e cortar os pulsos
ou abrir a veia do interior do cotovelo; sangro mais depressa. Também é fácil
tomar uma caixa inteira de comprimidos; e também dói menos. É fácil atravessar
a estrada com o sinal vermelho. Posso sempre tentar outra vez a linha do metro
ou a ponte para a autoestrada. Não comer tem sido fácil, mas claramente não tem
o efeito desejado. Também seria fácil tomar os comprimidos com álcool, para
apimentar a coisa; ou atirar-me da varanda. As possibilidades são infinitas.
Nunca substimem uma pessoa com tendências suicidas: se nós quisermos assassinar
o nosso corpo, nós arranjamos forma de o fazer.
Quanto mais fundo é o poço, menos efeito têm todas as cordas
que me sustentam. A medicação e a psicoterapia constantes são os pilares mais
fortes que me edificam; e talvez tenham sido ambos os que permitiram a
continuação da minha existência neste planeta. Até eu os procurar, os apoios
costumeiros das minhas pessoas não provocam qualquer diferença. A minha
resposta é sempre o isolamento, porque foi o que aprendi a fazer enquanto
crescia: para me curar sem ofender ninguém, tenho de me fechar na minha concha e
ignorar o mundo. Ninguém pode saber o que se passa, ninguém pode saber que
estou na merda, que já não aguento mais, que quero morrer. Se eu os abandonar
primeiro, eles não podem magoar-me quando me abandonarem. Se eu desaparecer da
vida deles primeiro, não terei de sofrer quando eles decidirem fugir do meu
mundo. Se eu o fizer primeiro, não mo fazem a mim. Já tenho demasiada dor em
mim; quero evitar mais essa. Eu sei lidar sozinha com este sofrimento que
conheço desde criança, que considero meu irmão gémeo. Por isso, entro em
quarentena nestas quatro paredes e tento sobreviver à tempestade. Sozinha.
Porque não mereço ajuda, não mereço apoio, não posso fazer batota. Terei de
atravessar a intempérie pelo deserto que ocupa o meu coração absolutamente
sozinha, porque aprendi que só eu fico comigo nos piores momentos; todos os
outros abandonam-me. E não são os quatro anos de drogas ou os cinco anos de
terapia que vão contrariar os 25 anos de danos que estas armadilhas causaram em
mim.
É mentira. Racionalmente, sei que é mentira. Mas, nesta altura,
a única racionalidade que tinha estava reservada apenas para a escolha da ópera
que retrataria a minha morte. É difícil descrever por palavras o pesadelo que é
ouvir tudo isto e crer que é a realidade, e, ao mesmo tempo, pensar que nem
isso vale a pena. O buraco negro que toma todo o nosso ser é assustador: as
nossas estrelas favoritas apagam-se e a única luz que nos atinge os olhos é a
do ódio. Uma luz que nos fere, mas que bebemos incessantemente, porque é o
único calor, o único conforto, que sentimos durante todo este tempo. Podemos tentar
tantas outras coisas, mas nada alivia a nossa aflição. Não há palavras que
encham o vazio que nos consome. Além da vida, esta doença mancha-nos qualquer
oportunidade de cura, por isso, de que serve todos os esforços de reconciliação
com o nosso íntimo? Imaginem um quarto a arder. O vosso corpo e alma estão fechados
nesse quarto. Nele, só há uma janela e uma porta. Do outro lado da porta, um
incêndio ainda mais poderoso. Desde a janela, o desconhecido. De repente, têm
de tomar uma decisão para sobreviver. A maior parte das pessoas diz que salta
pela janela. No desespero de sobreviver, é melhor saltar de uma janela do que
morrer queimado, certo? Mas alguém se lembrou de perguntar se, nesse quarto,
por acaso não há um extintor ou uma mangueira ou um alçapão para a cave ou um
armário anti-fogos? Não. Porquê? Porque não tiveram o discernimento de olhar o
quarto à procura de outra solução, porque não eram capazes de ver além do medo
que sentiam e que lhes dizia para fugir do fogo. O pensamento foi-lhes toldado:
só havia a janela para uma morte mais controlada. É neste cenário que estão os
doentes como eu: não conseguimos processar nada mais além da tortuosa realidade
em que caímos e, por isso, só vemos uma solução: saltar pela janela. Não
conseguimos ver mais nenhuma vida além daquela em que estamos e da qual queremos
fugir. A única opção é acabarmos com o nosso sofrimento. A única opção é tomar
a última decisão que podemos controlar: a nossa própria morte.
Estive quatro semanas sem sair de casa. Só via o sol nos dias
em que tinha de ir com o gato ao veterinário e nos Domingos, quando ia almoçar
aos meus pais. Essas quatro semanas foram o período mais perigoso desta
recaída, que começou perto da Primavera. Simplesmente, desisti de viver. Dormia
durante o dia, porque mal tinha forças para me levantar. Tentava dormir durante
a noite, mas o medo de saber que teria de acordar no dia seguinte mantinha-me
acordada. Podia dormir treze horas, como chegou a acontecer, mas apenas
acordava mais cansada. Esta doença é traiçoeira. Em determinadas alturas,
quanto mais dormia, mais exausta ficava. Alguns dias, era capaz de brincar com
o felino, que não tinha culpa do que estava a acontecer, mas que me sugava toda
a quase nula energia que eu tinha. Dele nunca deixei de tratar: medicação,
banhos, limpezas do WC, comida, tudo o que fosse preciso. Depois, ia enfiar-me
na cama, esgotada como se tivesse trabalhado 40 horas num só dia.
A certa altura, deixei de jantar. Depois, também não almoçava.
Em pouco tempo, dei por mim a forrar o estômago com um iogurte e, quando
calhava, uma fatia de pão com manteiga. Era a única refeição, se lhe podemos
chamar isso, que fazia durante o dia, ou noite, ou a cada dois dias; dependia
se podia estar mais do que dez minutos em pé, fora da cama. Uma vez por outra,
num ataque de choro, devorava as piores comidas que tivesse em casa, para logo
me arrepender. Por esta altura, era-me impossível lavar a loiça ou despejar o
lixo que acumulara antes desta morte metafórica, quase física. A cozinha
transformou-se num antro de sujidade e conspurcação que nunca tinha visto,
inundada de cheiros duvidosos e repugnantes. A vergonha juntava-se, então, a
todas as outras espadas que me atravessavam o peito, colocadas lá por mim,
contra a minha vontade. O único lugar da casa limpo diariamente era o espaço do
gato; porque, como dizem as minhas pessoas, eu cuido dos outros, mas não de
mim. A situação ficou tão grave, que me vi obrigada a contratar um serviço de
limpeza; e, nesse dia, eu já tinha começado a acordar deste pesadelo.
Só tomava banho quando tinha de sair. Só lavava os dentes
quando tinha de sair. Só trocava de roupa quando tomava banho. Havia dias que
nem a cara lavava. Houve alturas em que a oleosidade do meu cabelo, pelos
ombros, chegava às pontas ressequidas. O meu pijama foi o mesmo durante aqueles
dias e noites. A minha roupa de cama foi a mesma durante aquelas quatro
semanas. A janela do meu quarto esteve quase sempre fechada. O silência era
ensurdecedor naquela casa. Se acordada, mas na cama, as horas eram passadas a
chorar ou a navegar nas redes sociais, a assistir a videos sem ver
absolutamente nada. Ignorava mensagens e chamadas sempre que podia. Se tinha de
responder, era seca, parca e monossilábica. Não estava para mim, nem para os
outros. Quando o sono vinha, deixava-o conquistar-me. Não que descansasse;
dormia mas tinha pesadelos. O meu universo era outro. A doença apoderava-se de
mim e eu desaparecia por entre todo aquele pó que me tomava. Nos dias em que
cumpria tarefas, eu era poeira: no meio daquela insignificância, ainda era
possível sentir as pedrinhas que a compunham. Nos outros, nem a cor da areia
conseguia discernir.
A certa altura, após uma sessão com a psicóloga, dei-me conta
da realidade paralela em que sobrevivia. Quase de repente, apercebi-me da
seriedade da situação, como se tivesse avistado um cargueiro ao longe, quase no
fim das águas frias em que me afogavava (in)voluntariamente. Nesse objecto de
salvação, pintavam-se letras que eu conhecia mas que nunca acreditava: “não
estás sozinha”. A sua bandeira? “Pedir ajuda não faz de ti uma pessoa mais
fraca”. As figuras que me chamavam para o resgate eram-me todas familiares: os
meus médicos, os meus pais, a minha irmã, as minhas amigas mais queridas e
essas minhas outras pessoas. A comandar o gigante, estava a minha avó. De
sorriso tímido e olhar lacrimejante, ela murmurava: “nós ajudamos-te, não
precisas de estar sozinha”. Então, o meu peito ganhou um outro sopro. Pesado
mas aliviado, o meu peito fez a água dos meus olhos misturar-se com as
correntes daqueles oceanos que não findavam. Senti aquelas vozes
contaminarem-me. Primeiro, as minhas lágrimas; depois, a minha respiração; por
fim, a minha mente. Desviei a outra mulher do caminho e comecei a nadar em
direcção à salvação, em direcção à vida. Eu não queria morrer. Eu queria amar e
ser amada, eu queria viver. Mas, para isso, não podia estar sozinha. Eu queria
viver no mesmo mundo que aquelas pessoas. Aí, também sentiria dor, é verdade. A
dor existe em todo o lado; mas, ao lado deles, é mais fácil de suportar. “Não
tens de passar por isto sozinha, Catarina. E aceitar ajuda não faz de ti menos
daquilo que tu és. Tu és a Catarina, não a tua doença”.
Ainda aqui estou, é um facto. Pelo menos, ainda aqui estou
fisicamente. Não me matei, portanto. Estou a começar a sair do buraco onde caí,
da cova onde me ia enterrar, do poço onde me ia afogar. Estou a começar a
voltar à vida. Vou demorar a voltar a mim. Vou demorar a recuperar as rédeas do
meu corpo; vou demorar a tomar conta do meu coração. Vou demorar a ser eu outra
vez. Na cara, ainda tenho pintadas as manchas desta última batalha. Da minha
boca, ainda voam poucas palavras, porque falar exige-me muito esforço e eu ainda
tenho pouca energia. O meu caminhar ainda é lento, porque os meus demónios
ainda pesam nos meus ombros. Aquela outra mulher, aquele outro eu que me
colonizou, ainda me grita, ainda me dá ordens. Há dias em que não consigo
combatê-la. Há dias em que ela vence, mas são cada vez mais os dias em que eu a
derroto. Porquê? Porque tenho ajuda. Além dos médicos, tenho as minhas pessoas.
Depois de ter visto aquele cargueiro, decidi mostrar os bastidores do meu palco
à minha família. Quase a seguir, abri-me para a minha «irmã mais velha». Aos
poucos, os meus amigos foram sabendo do que se passava. Por fim, os meus
orientadores.
É certo que ainda não estou totalmente livre. Ainda não cheguei
a terra. Mas nunca estive tão bem no meio do mar. Este cargueiro é agradável e
guardá-lo-ei no bolso, para a próxima vez que for preciso fugir da morte, para
a próxima vez que for preciso fugir de mim.
Estou a melhorar. E estou mais forte do que queria crer.
Estou a salvar-me, avó.
Até já.