E quando tudo acaba, como poderemos voltar a viver como sempre vivêramos? Habituá-mo-nos a viver acompanhados a toda a hora por aquela pessoa que mais queríamos e agora isso acabou. Primeiro, relembramos tudo o que passámos com ela: os momentos felizes e os momentos menos felizes. Depois, percebemos que acabou e essa pessoa ficou com grande parte de nós. A certa altura, compreendemos que queremos isso de volta. Mas, às vezes, não queremos o que tínhamos com essa pessoa, mas sim o que ela nos tirou. Aliás, não queremos, precisamos de ter isso de volta. Precisamos da nossa peça de personalidade perdida que ela levou para seguirmos em frente. Precisamos de ter de volta a nossa noção de realidade para continuarmos a viver. Não podemos simplesmente ficar presos no passado, no incrível que foram aqueles tempos, no quanto queríamos que não acabassem. Não podemos manter-nos agarrados à memória, revivendo antigas recordações, fotografias do passado, e evitar o futuro. Temos de seguir em frente, pensar que poderemos encontrar algo assim, ou melhor, num momento próximo, com outra pessoa, ou, pura e simplesmente, ficarmos connosco próprios, reflectindo nas nossas vontades e sonhos. Temos que gritar "que se dane!" ao nosso subconsciente que, constantemente, nos leva ao passado. Esquecer a felicidade antiga é o que devíamos fazer para procurar uma nova felicidade. Sim, às vezes, é difícil, mas tem que ser. Não podemos ignorar a vida só porque a feliz conjectura que vivemos acabou. Temos que enfrentar essa memória e seguir em frente. Esquecer e avançar.
"Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu
E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo no meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo no meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu
Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.
Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.
Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já nem sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já nem sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.
Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O meu barco vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala."
O meu barco vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala."