A mensagem de hoje vem um pouco tarde, em relação ao tema. Esta é uma mensagem "Especial Dia de São Valentim". Há tanta coisa a dizer sobre o chamado "Dia dos Namorados", que nem sabia por onde havia de começar. Então, tive uma ideia. E, dessa ideia, resultou esta mensagem. Espero que gostem.
«Saí da cama devagar, para não acordar o Salvador. Vesti o robe de seda transparente e caminhei, descalça, até às malas. Procurei o meu antigo diário: com uma capa preta, manchada de chá de hortelã que entornei logo no primeiro dia, era cosido à mão e as suas folhas eram finas, com o perfume da hortelã. Peguei nele e sentei-me na poltrona, em frente à cama de casal, onde dormia o meu amante oficial. Procurei a minha caneta azul, com penas, a única com a qual eu escrevia no diário. Abri-o quase na última página. Olhei para o Salvador, sorri e comecei a escrever:
"15 de Fevereiro de 2020
Querido diário,
Hoje será o último dia em que te escrevo. Eu e o Salvador, o meu marido (ai, ainda não me habituei a esta palavra!), decidimos escrever um diário da nossa vida juntos, tal como eu fiz contigo todos estes anos. Só de pensar que o casamento foi ontem... E que estive a escrever aqui enquanto me arranjavam o cabelo... Ai, estou tão feliz! Sinto-me uma adolescente, outra vez! Mas também estou um pouco triste, porque não te vou escrever mais... Bem, nada de tristezas! Só quero que saibas que adorei que estivesses sempre aqui para mim. Obrigada por me teres ajudado com o meu primeiro desgosto de amor e com a perda do meu avô. Obrigada pelo apoio enquanto esperei que o Salvador aparecesse e obrigada por acompanhares todas as minha explosões de alegria com a minha querida caneta azul. Simplesmente, obrigada por tudo."
Parei de escrever. Vi o Salvador mexer-se debaixo dos lençóis. Sorri, com alegria. Ele levantou a cabeça, com o seu cabelo escuro, e sorriu-me de volta.
— Bom-dia, mulher. – A sua voz um pouco rouca fez-me derreter.
Parei de escrever. Vi o Salvador mexer-se debaixo dos lençóis. Sorri, com alegria. Ele levantou a cabeça, com o seu cabelo escuro, e sorriu-me de volta.
— Bom-dia, mulher. – A sua voz um pouco rouca fez-me derreter.
— Bom-dia, marido.
– Sorri, um pouco tímida.
— Ficas ainda mais
linda quando dizes essa palavra. – Seduziu-me com o olhar castanho, sentando-se
na cama, o seu corpo nu tapado pelo lençol.
— Obrigada. –
Respondi, com um sorriso meigo. Ele olhou para o meu colo, onde repousava o meu
diário.
— Estás a
escrever? – Levantou-se, sorridente, vestindo o outro robe de seda, caminhando
até mim. Cumprimentou-me com um beijo longo nos lábios, sorrindo, de seguida. –
O que é que te apetece?
— O que te
apetecer a ti. – Retribuí com um sorriso, referindo-me ao pequeno-almoço.
— Então, toda a
fruta que houver? – Sugeriu, sedutor.
— Que seja! – Ri-me,
com entusiasmo. Ele também se riu.
— Então, até já. –
Despediu-se com outro beijo longo. Afinal, ele ia para a outra divisão, telefonar
ao serviço de quartos. Eu ia ter saudades…
— Até já, marido. –
Retorqui, sorridente e sedutora.
— Ui, acho que já
sei o que quero depois da fruta! – Anunciou ele, também com um ar sedutor.
Deitei-lhe a língua de fora, como resposta.
Voltei a olhar para o meu diário. Abri-o, de novo, e recomecei a escrever:
"É incrível como tanta coisa mudou, ao longo destes anos. Primeiro, tive aquele desgosto de amor horrível. Depois, o avô morreu. Depois, aquela altura em que a mãe esteve no hospital, por causa do mano que acabou por não nascer.. E aquela cena em que a Jéssica chamou à minha mãe "plástica" e à Sara "pedófila"... Nunca tinha batido ninguém na vida... Foi uma sensação estranha... Não podia deixá-la insultar assim a minha mãe e a sua companheira Sara. A Jéssica teve o que mereceu. E tu concordaste, não foi?"
Ri-me sozinha, imaginando o diário a responder: "devias ter-lhe arrancado aquela peruca loura"! Ri-me outra vez. O Salvador foi ver o que se passava. Disse-lhe que estava tudo bem e ele voltou-se a deitar na cama, à espera do serviço de quartos. Voltei a escrever:
"Lembro-me perfeitamente do dia em que conheci o Salvador. Ia com a mãe e com a Sara comprar uma prenda de aniversário para a nossa vizinha, que ia fazer 60 anos e nos tinha convidado para uma festa. Quando estávamos na loja de decoração de interiores, havia um rapaz vulgar a procurar qualquer coisa em específico. Estava tão concentrado que nem reparou em mim, chocando comigo, pedindo desculpa logo a seguir. Sorrimos um para o outro. Era o Salvador. Tínhamos quase vinte anos. Ele pediu-me o meu número de telefone e foi-se embora. Lembro-me da Sara dizer: "vais ver que ainda vai ser a tua alma gémea"! Rimo-nos as três. Uns dias depois, ele telefonou-me, marcando, assim, o nosso primeiro encontro. Foi tão estranho! Nenhum de nós sabia o que dizer! Estávamos tão tensos e nervosos que nem éramos capazes olhar nos olhos um do outro. Estivemos praticamente a tarde inteira a beber café. Uns dias depois, ele voltou a convidar-me para sair. Ainda me lembro da sua reacção ao telefone quando lhe respondi que, se era para acontecer o mesmo que da primeira vez, então, que esquecesse. Ele só disse: "dá-me outra oportunidade". E eu dei-lhe. A partir daí, nunca mais nos largámos. Começámos a namorar ao fim de algum tempo. No dia em que fizemos dois meses, fomos almoçar e tivemos a conversa sobre o "conhecer a família". Eu ainda não lhe tinha contado que tinha duas mães. E tal foi a minha surpresa quando ele me disse que tinha... dois pais! Quase caí para o lado, de tanta surpresa! Decidimos, logo, que teríamos de organizar uma tarde de convívio com as duas famílias juntas. E assim aconteceu. E não se podiam ter dado melhor! Pareciam todos dez ou vinte anos mais novos, a rir à gargalhada, a ter conversas menos próprias..."
Bateram à porta.
Bateram à porta.
— Sim? –
Perguntei.
— Serviço de
quartos. – Anunciaram como resposta.
— Ah, entrem! –
Consentiu o Salvador, levantando-se da cama, à pressa.
A porta abriu-se e
entraram um homem e uma mulher, com um carrinho de duas prateleiras, cheio de
todo o tipo de fruta que se possa imaginar.
— Obrigado. –
Agradeceu o Salvador, apoderando-se do carrinho.
— Com licença. –
Os dois empregados saíram com um sorriso.
— Ah, que bom
aspecto! – Deliciou-se, enquanto apreciava a comida. – O que é que queres
primeiro? – Olhou para mim, com um grande sorriso.
— Há os meus
preferidos? – Indaguei, também com um grande sorriso.
— Há, sim senhora!
– Exclamou, entusiasmado. – Tens framboesas, amoras pretas, mirtilos, cerejas…
— Quero isso tudo!
– Respondi, com alegria.
— Sai um de frutos
silvestres! – Brincou o Salvador, preparando-me o pequeno-almoço.
Sorri, com
felicidade. Voltei, depois, ao diário:
"Quando fizemos dois anos de namoro, o Salvador pediu-me em casamento. No nosso restaurante favorito, ajoelhou-se e mostrou-me o anel; o velho John Legend como música ambiente. E aqui estamos nós, um ano depois, neste hotel de três estrelas, no meio do campo. Eu, como esposa, ele, como marido. Não podia estar mais feliz."
Olhei para o Salvador e sorri, com uma pequena lágrima no canto do olho, incrivelmente feliz por ele estar ali. A certa altura, ele parou a olhar para mim, curioso.
— Está tudo bem? –
Começou, preocupado. Limpei a pequena lágrima e sorri-lhe.
— Sim, está. –
Suspirei. – Simplesmente, estou feliz por te ter conhecido…
— Eu também estou
feliz por te ter conhecido, mas mais feliz estou por me amares como eu te amo. –
Mostrou-me o seu característico sorriso romântico e sincero. De repente, tudo
pareceu muito melhor.
— Amo-te tanto! –
Gritei, lançando o diário e a caneta para cima da cama e atirando-me para os
braços do Salvador. Comecei a chorar de alegria, abraçando-o com força.
— Também te amo
muito. – Respondeu-me, apertando-me também. – Sabes, nunca imaginei a nossa
primeira manhã de casados desta maneira. – Riu-se. Ri-me também.
— Desculpa. –
Pedi, ainda a rir, limpando as lágrimas.
— Não peças
desculpa. Sabes que adoro estes momentos. – Sorriu, beijando-me de seguida. –
Está tudo bem, amor.
— Eu sei… – Sorri,
descendo do colo dele. – Vou só acabar de escrever e já como…
— Sim, eu espero. –
Sorriu-me, sedutor.
"E é com estas memórias que me despeço de ti, querido diário. Obrigada, mais uma vez, pelo apoio durante estes anos todos. Espero que tenhas uma reforma descansada. Beijinhos e até uma próxima. :)"
Fechei a caneta de penas, pela última vez. Nunca mais a iria usar. Nem a caneta, nem o diário. Senti-me um pouco nostálgica, mas, ao mesmo tempo, feliz. Começava, assim, um novo capítulo na minha vida que merecia um livro novo e não só uma página. No final de contas, começava uma vida nova. Guardei o velho diário e a caneta na mala e levantei-me com um sorriso.
— Já acabaste? –
Perguntou-me o Salvador, sentado na cama, com as nossas taças cheias de fruta,
à sua frente.
— Já. – Só consegui
dizer aquilo.
— Foi difícil? –
Questionou, sereno.
— Foi, mas isso
significa que foi importante. – Respondi, sentando-me à sua frente, na cama. –
Vamos comer? – Convidei, com um sorriso e inclinando a cabeça.
— Para ser
sincero, acho que já não quero a fruta. – Disse ele, com um olhar cativante.
— Então, porquê? –
Inquiri, já com a resposta em mente.
— Porque agora…
tenho a minha mulher. Já não preciso de mais nada. – Sorriu, ainda mais sedutor
do que o costume. Comecei-me a rir.
— Ah, sim? –
Provoquei.
— Sim. –
Continuou, aproximando-se de mim, devagar. – Agora, tenho uma mulher linda e a
única coisa que preciso na vida é ela. Sem ela, não sou nada. – Beijou-me, com
paixão. – Amo-te para toda a eternidade.
— Também te amo
para toda a minha vida.
Silenciámos a
conversa com um longo beijo, perpetuando o nosso amor.»