Uma das coisas da vida que aprecio
profundamente é o tempo. O tempo do relógio, o tempo das coisas... O dia, a
noite, as estações do ano... Há coisa mais encantadora, mais confusa, mais
dolorosa, mais subtil, que o tempo de tudo? Hoje começa um ciclo de mensagens
que ainda não sei bem quando vai acabar. Este ciclo de mensagens que se segue é
sobre isso mesmo: o tempo de tudo...
A NOITE
A noite é sagrada; é ambígua. É fruto do
sossego, semente da guerra, campo de tranquilidade, flor do sorriso. É delícia
amarga, é doce ardente. Rosa negra sem espinhos, rosa branca cheia de beijos,
terra fresca e suave, relva acabada de cortar, chuva macia e ternurenta. É
Primavera silenciosa, estrada de pétalas, vento tímido... É nela que vivem os
desejos, os pesadelos, as vontades... É nela que sussurramos sentimentos, que
tocamos lábios divertidos, que perpetuamos olhares intensos. Aprendemos a
dançar de outra maneira, ganhamos asas para percorrer submundos, perdemos o
chão para subir às nuvens. Pensamos, reflectimos, queimamos pestanas,
preenchemos vazios. É à noite que somos outros, que somos o que sempre fomos,
que somos o que sempre quisemos ser.
Noite é perder-se e encontrar-se, vezes sem
contas. É sentir-se apaixonado e de coração partido. É serenidade pura,
tranquilidade pacífica, estados de espírito flutuantes que nunca sabem onde assentar.
É pensar no que poderia ter acontecido, é arrepender-se do que aconteceu; é
fracassar e ter sucesso. Sorrir sem sentido nem significado; é chorar da mesma
maneira. É gritar no pensamento e falar coisa nenhuma. É morder os lábios,
fechar os olhos, abraçar corpos, passar as mãos pelos cabelos e suspirar de
prazer. É sentir o outro lado da cama desabitado, frio, insensível. É
contorcer-se no calor e enlaçar-se no depois. É o antes silencioso do depois carinhoso.
É a meiguice quando a vontade é a tortura. É o desalento quando o futuro é a bem-aventurança.
É céu-aberto, estrelas sem fim, azuis infinitos, praias desertas, marés cheias,
neblina selvagem. Noite é sentir-se sem saber que se sente o que se sente.
Noite é enveredar pelos caminhos dos
trabalhos de investigação, dos cafés, chás e bolachas. É caminhar pela
imaginação das letras, pelo pensamento criativo, pelo mundo da escrita. É fazer
e refazer parágrafos inteiros ou frases soltas. É soltar ideias e recuperar
outras. É ver o trabalho feito quando ainda nem se tem a primeira página. É ver
o sono andar de um lado para o outro, na sala de estar, esperando, impaciente,
por aqueles que teimam em não dormir. É sorrir-lhe quando ele se cansa de
esperar e sai, indignado. É olhar para a frente, fixando imagem nenhuma,
tentando encontrar a melhor maneira de escrever o que se tem na cabeça. É
explodir numa corrida contra o tempo quando essa palavra que há tanto esperávamos
nos passa à frente dos olhos e combatemos o teclado para a deixar marcada na
linha inacabada. É suspirar de alívio quando demos mais um pequeno passo num
texto que continua sem forma. É beber outro café e comer outra bolacha. É
levantar o corpo ressentido e esticar as pernas, certificarmo-nos que ainda
funcionam. É espreguiçar-se, sentindo os ossos e as articulações darem sinal. É
sacudir a cabeça como se isso fosse ajudar nalguma coisa. Melhor ainda, noite é
pensar que somos invencíveis e que não precisamos de dormir porque tudo o que
fizermos nesse trabalho será como rebelarmo-nos contra a ordem vigente, num
acto de selvajaria pura como se fosse algo de outro mundo, trabalhar de noite. Mas
trabalhar de noite é mesmo algo do outro mundo...
Porque a noite é imortal, transcendente,
intemporal... A noite é quando os cheiros se vêem, os sons se sentem e as cores
se tocam. É quando não há cheiros nem sons nem cores que não existam. À noite,
tudo é, mas nada foi... A noite é incerteza, porque a única coisa certa é que,
amanhã, voltará a ser de noite...
"Deixei
na Primavera o cheiro a cravo
rosa e quimera que me encravam na memória que inventei.
E andei,
como quem espera pelo fracasso,
contra mazela em corpo de aço
nas ruelas do desdém.
E a mim
que importa
se é bem ou mal,
se me falha a cor da chama a vida toda
é-me igual.
Vim
sem volta
queira eu ou não
que me calhe a vida insana e vá sem boda
até ao Verão.
Deixei
na Primavera o som do encanto
risa, promessa e sono santo
Já não sei o que é dormir bem.
E andei pelas favelas do que eu faço
Ora tropeço em erros crassos
ora esqueço onde errei.
E a mim
que importa
se é bem ou mal,
se me falha a cor da chama a vida toda
é-me igual.
Vim
sem volta
queira eu ou não
que me calhe a vida insana e vá sem boda
até ao Verão.
Deixei
na Primavera o som do encanto"