TEMPO DE PERCEBER
«Acordei devagar e
sorridente, apesar das sete horas da manhã que marcava o relógio da
mesa-de-cabeceira. Espreguicei-me com um suspiro profundo e vi-te a meu lado. O
meu sorriso encheu-se de alegria. Ainda dormias. O corpo meio destapado virado
para o tecto, o teu rosto peludo, que repousava sereno, os olhos fechados com
uma delicadeza única. Quis acordar-te com um beijo doce. Debrucei-me sobre ti e
encostei os meus lábios no teu ombro nu. Mantive-os lá por uns instantes.
Quando me sentiste, sorriste e contorceste-te ligeiramente. Afastei-me um pouco
e deixei-te acordar. Levaste as mãos à cara e esfregaste-a várias vezes, ao
mesmo tempo que respiravas pesadamente, libertando bocejares pelo meio. Eu
apenas assistia a toda a cena, com um sorriso no rosto, impossível de tirar.
Quando finalmente terminaste, viraste-te para mim; primeiro, a cabeça e, depois
de trocarmos olhares, todo o teu corpo se virou para mim, aproximando-se.
“Bom-dia”, sussurraste.
Senti-me a corar. “Bom-dia”, respondi, tocando o teu nariz com o meu. Tu riste
com aquele gesto, o que me fez encolher um pouco, atitude que te deixou um
sorriso nos lábios. “Sabes uma coisa?”. Acenei que não. “Se eu pudesse acordar
todos os dias contigo a sorrires para mim, era um homem realizado”. Corei ainda
mais. E sorri ainda mais. Deste-me um beijo e lançaste-me outro sorriso.
“Pequeno-almoço?”, perguntei, encostada a ti. “Já te vou ajudar”,
ofereceste-te, beijando-me o nariz. Levantei-me, com a lentidão de quem não
quer afastar-se daquele que mais ama, compus o pijama e calcei as meias
polares. Enfiei os pés nos chinelos e olhei uma última vez para ti, antes de
sair do quarto. O teu corpo estava virado para baixo, espalhado pelo meu lado
da cama; a tua mão direita repousava na minha almofada, enquanto a tua perna
esquerda parecia abraçar o ar que me substituíra na cama. A tua cabeça tocava a
ponta da minha almofada com carinho. Os teus olhos agora sorriam-me.
Repliquei-lhes um sorriso mais leve, mais apaixonado, e saí.
No percurso até à casa-de-banho,
revivi a noite que tivéramos: o jantar, feito por nós, o serão, passado a lavar
a louça e arrumar tudo o que havia por arrumar numa cozinha, enquanto
conversávamos sobre tudo, e a noite que vivêramos, deitados ao lado um do
outro, a conversar. Era esta uma das razões pelas quais eu adorava a nossa
relação: porque o que mais fazíamos era conversar. E podíamos passar horas
nisso. Não interessava o tema; sempre que parecia que já estava esgotado, um de
nós lembrava-se de outra coisa qualquer e a conversa continuava. Nem víamos as
horas passar. Era simplesmente incrível.
Chegada à cozinha,
cumprimentei o ambiente matinal com um espreguiçar prolongado, em passadas
pequenas e lentas. Ainda com a ressaca daquele momento, preparei o meu chá
verde e o teu café. Pouco tempo depois, tu aparecias para fazer as nossas
sandes, vestindo apenas as calças largas do pijama azul-escuro. Sabias que não
podias andar pela cozinha em roupa interior, logo pela madrugada. Era um dos
nossos pontos fracos e, portanto, uma situação a evitar. Enquanto observava as
tuas costas (como eu me deleitava com as suas costas!), pus os individuais na
pequena mesa semicircular e sorri a olhar para eles. Talvez fosse tolo, mas
todas as coisas básicas e pequenas que fazíamos em conjunto enchiam-me o
coração de felicidade. Porquê? Bem, talvez porque traduziam a existência da nossa
relação. Se eu fazia café para além do chá, se eu comprava um pão a mais, se eu
punha dois tabuleiros, era porque tinha companhia, era porque estava com
alguém, era porque alguém vivia comigo naquele exacto momento. E o melhor disso
tudo é que esta cena repetia-se todos os dias. E eu, que odiava rotinas, não me
importava nada com esta, porque esta era uma rotina que me completava, que se
colava à minha essência, que me encantava.
Estas ocasiões de reflexão
faziam-me parar no tempo, o que, por vezes, te preocupava. Não por serem
momentos em que eu paralisava, pensativa, mas por serem instantes que depois me
levariam às lágrimas, causadas por toda aquela felicidade que eu sentia. Era como
que uma sobrecarga de sentimentos positivos, despoletada por pequenas coisas
que me faziam sentir amada. E então, vendo-me assim, tu abraçavas-me, umas
vezes com força, outras com uma brandura impressionante, dependendo do que achasses
que eu precisava para parar de transbordar tanta felicidade. Quando, finalmente,
eu me acalmava, pedia-te desculpas e tu rias-te. Hoje não foi excepção. Mas,
desta vez, também tu deixaste cair uma única lágrima, semelhante às inúmeras
que eu partilhava contigo, o que me deixou ainda mais feliz. Tu não exteriorizavas
assim os teus sentimentos; eras um homem reservado no que tocava a emoções, o
que me obrigava a esforçar ainda mais para te entender; e esse esforço era algo
que me fazia gostar ainda mais de ti.
Lá acabámos por
conseguir tomar o pequeno-almoço. Conversámos imenso, claro está. Não dizíamos
nada de profundo, mas as nossas conversas nunca eram vazias. Fazíamos correr
tinta invisível pela atmosfera que nos rodeava como se não houvesse mais
nenhuma oportunidade para o fazer. Os sorrisos eram sempre imperadores; essa
era outra realidade. Desde que estava contigo, sorrir era daquelas actividades
que eu nunca conseguia parar de praticar. E tu, apesar de não sorrires tanto
quanto eu, permitias aquele brilho nesse olhar castanho penetrante. Tínhamos
maneiras muito diferentes de nos expressarmos, mas essas diferenças
completavam-nos. Há quem diga que as almas gémeas pertenciam a um mesmo
espírito e corpo, e que, por ordem dos deuses, foram separados em dois, podendo
apenas viver felizes se se voltassem a reunir. Não sei se é verdade, mas o que
é facto é que só a ideia de estar contigo já me completa.
Não sou uma namorada
chata. Não passo o dia a mandar mensagens, não te ligo à hora de almoço para
saber como estás, nem sequer te desejo as boas noites todas as vezes que dormes
fora. Tu também não me fazes o mesmo. Não preciso, não precisamos disso.
Sabemos que estamos no coração um do outro, que estamos sempre acompanhados,
que vamos estar sempre lá um para o outro. Apenas nos momentos mais desalentadores,
apenas naqueles instantes em que nada parece estar bem, só nessas alturas é que
precisamos de ouvir a voz um do outro, sentir o calor, o amor, um do outro. E,
por mais raros que sejam esses pedaços de tempo, quando acontecem, fazem tudo
valer a pena.
O meu relógio de pulso
marcava as nove menos um quarto. Esforcei-me para calçar a bota direita, que
teimava em não entrar. Tu corrias de um lado para o outro à procura do casaco
comprido. Quando finalmente a minha bota entrou e tu encontraste o teu casaco,
saímos de casa. Na rua, despedimo-nos com um único beijo e um “até logo”. E aí
percebi que, agora, realmente, tudo no mundo fazia sentido...»