Não costumo pensar
muito na maternidade. Aliás, são raras as vezes em que penso em deixar outro
tipo de semente nesta terra além dos amores-perfeitos e dos cravos-dos-poetas
que habitam os meus canteiros. Quem me conhece, sabe que não gosto de crianças.
Seja pelo barulho que fazem, seja pela imaturidade que lhes é intrínseca, não
gosto de crianças. Pelo menos, é o que eu digo a toda a gente. Porque, na
realidade, eu até gosto (um bocadinho) de crianças. Então, porque é que digo a
toda a gente que não gosto?
Vou-vos explicar todo o
processo mental que se desencadeia no meu cérebro quando interajo com crianças.
Primeiro, e dependendo da situação, sorrio ou torço o nariz (para, depois,
acabar por sorrir; carapaça dura, coração mole, minha gente). Depois, esse
sorriso mantém-se por dois segundos, porque esse é o tempo que eu levo a
apreciar esses seres antes de pensar ‘e se fossem os meus?’. Após esses dois
segundos, o sorriso desvanecesse e o desdém impõem-se, ao mesmo tempo que a
mente resmunga: ‘não serás uma boa mãe, portanto, não vais ter filhos e vais
odiar pensar sequer nessa hipótese’. E então, a forma mais fácil de evitar
mentir, dar explicações ou alimentar ilusões, é responder somente ‘não gosto de
crianças’. Porque é mais fácil dizer que não do que partilhar os meus medos, os
meus receios.
Até porque este medo de
ser mãe não é igual àquele que todas as mães sentem. Eu não falo em ser ‘má mãe’
da boca para fora. Falo em situações sérias que não são para aqui chamadas,
coisas que sei de outras pessoas, coisas que sei por experiência própria,
coisas que imagino... Há toda uma panóplia de situações que quero evitar que
aconteçam aos meus filhos e o caminho mais fácil para isso é não ser mãe (a não
ser que eles nasçam já com 20 anos). São poucos os que conhecem o meu
verdadeiro medo (ou devo dizer, pânico) em cometer erros. Sim, errar. Tenho um
medo indescritível de errar, de tomar a decisão errada, de não saber lidar com
qualquer situação, de provocar situações que não consiga controlar. Se isto se
passa na minha vida, como terei capacidade de o fazer na vida dos meus filhos?
Como poderei criá-los sem que herdem os meus defeitos, os meus problemas, os
meus medos? Quero que cresçam livre, despreocupados, felizes, como eu, por
vezes, não fui... Como o poderei fazer se nem me consigo (des)controlar?
Foi então que, numa
destas noites, a minha casa foi invadida por uma família de quatro pessoas:
dois adultos e duas crianças. Idades: três anos e meio e dois anos e meio. Idioma:
franco-português (isto existe, sequer?). Expectativas: inferno nocturno. Quantas
vezes respirei fundo, preparando-me mentalmente para a noite que iria
acontecer? Não sei, mas foram imensas... O início até que foi “tranquilo”: o
casal de meio palmo não queria nada comigo; apenas me olhava com um ar
incrivelmente curioso. “Safei-me!”, pensei, satisfeita. Ainda não tínhamos
chegado à sobremesa, já os dois andavam a correr pela casa, a perguntar o que
era isto e aquilo, quem é que nós (eu e a minha irmã) eramos, se os ajudávamos
nisto e naquilo; enfim, cenas de crianças. Escusado será dizer que nunca
cheguei a ver a sobremesa (pelo menos, não decentemente; lá arranjei cinco
minutos para comer três colheradas da mousse que fizera naquela manhã para
aquele jantar, mas de resto, nada).
Resumindo muito
rudemente aquele pós-jantar: pegar no pequeno rapazinho ao colo, fazê-lo voar
como o Super-Homem, mas de barriga para cima, despenteá-lo todo, fazer-lhe
festas na barriga, correr atrás dele a gritar ‘argh!!!’, pedir-lhe para não
atirar com as coisas e pô-lo a brincar com todos os peluches que encontrava
pelos quartos; quanto à pequena cousine,
ajudá-la a organizar os lápis de cor na mesa de estar, tirar fotografias (ou
pelo menos tentar), arrumar os lápis outra vez, tentar traduzir metade do que
lhe saía pelos lábios, pedir-lhe desculpa por não perceber, meter-me com ela quando
ela não percebia e ver a cara de assustada-divertida que ela fez quando eu tive
um ataque de riso por causa de um gesto que ela fez. Foi intenso, muito
intenso. Não estava preparada para toda aquela energia, devo admitir. Achei que
ia ser como das outras vezes: caem que nem apaixonados pela minha irmã e
deixam-me em paz. Tão costumeiro como respirar. Tão natural como o sangue que
me fluí pelas veias.
A questão é que aquelas
três horas e meia foram totalmente fora do costume, totalmente ‘não naturais’.
Dei por mim a não querer deixar aqueles dois diabretes, a não deixá-los irem
embora, a gritar mentalmente ‘já?!’ quando os respectivos pais se começaram a
despedir de nós. Queria mais tempo com eles, queria conhecê-los melhor, saber,
afinal, qual cor é que ela preferia, se o rosa, se o roxo, ou quantos cães é
que ele queria conseguir abraçar ao mesmo tempo. Queria descobri-los como dois
livros, saber-lhes as preocupações imaturas, sentir-lhes os medos irracionais,
conhecê-los como indivíduos. Queria-os.
Quando me deitei nessa
noite, exausta, com dores nas costas e sem sentir o braço esquerdo (razões médicas
que não interessam para aqui), dei por mim a sorrir e a pensar neles.
Lembrar-se-ão de mim quando voltarem para a sua terra? Lembrar-se-ão sequer de me
terem conhecido? Terão gostado mesmo de mim ou serão assim com toda a gente? Estranhamente,
dei por mim a pensar neles. E só esse pequeno facto significava uma mudança
gigante na minha forma de ver o mundo. Não sei se é por ter o coração cheio,
mas, de repente, vi-me a ser mãe. Num segundo, foi horrível, mas, depois,
descansei a minha mente. Aqueles dois miúdos tinham-me mudado. Como era
possível? Dois miúdos que nem português conseguem articular (o mais novo nem
mesmo o francês), que mal me conhecem, que, muito provavelmente, só me voltaram
a ver daqui a um ano, tinham-me mudado numa noite. Fiquei a pensar nisto
durante aqueles longos minutos que demorei a adormecer e só não pensei mais por
culpa do cansaço. Cansaço físico, diga-se de passagem, porque, mentalmente, eu
estava pronta para outra noite daquelas...
Naquela noite, todo o
mal que vejo, todo o mal que sinto, toda a angústia que me aprisiona, todos os
meus medos, evaporaram-se como se nunca tivessem existido. Naquela noite, não
havia medos em errar, não havia receios de que eles não seriam felizes. Naquela
noite, eu imaginei-os como meus. Naquela noite, eu teria dado tudo para ser
mãe. Naquela noite, eu fui mãe. Quem sabe um dia...?
"How much of my mother has my mother left in me?
How much of my love will be insane to some degree?
And what about this feeling that I'm never good enough?
Will it wash out in the water, or is it always in the blood?
How much of my father am I destined to become?
Will I dim the lights inside me just to satisfy someone?
Will I let this woman kill me, or do away with jealous love?
Will it wash out in the water, or is it always in the blood?
I can feel the love I want, I can feel the love I need
But it's never gonna come the way I am
Could I change it if I wanted, can I rise above the flood?
Will it wash out in the water, or is it always in the blood?
How much like my brothers, do my brothers wanna be?
Does a broken home become another broken family?
Or will we be there for each other, like nobody ever could?
Will it wash out in the water, or is it always in the blood?
I can feel the love I want, I can feel the love I need
But it's never gonna come the way I am
Could I change it if I wanted, can I rise above the flood?
Will it wash out in the water, or is it always in the blood?
I can feel the love I want, I can feel the love I need
But it's never gonna come the way I am
Could I change it if I wanted, can I rise above the flood?
Will it wash out in the water, or is it always in the blood?"