Infelizmente, durante
aquela noite, a amnésia foi-se. Todos os cadeados rebentaram, numa detonação
premeditada pelo meu subconsciente. Naquela noite, voltei a lembrar-me Dele.
Voltei a recordar o meu coração que continuava a gostar Dele; que ainda gostava
Dele. Aliás, tudo voltou: o seu olhar, o seu sorriso, o seu cheiro. Conquistando
os meus pensamentos, a imagem turva da sua tez morena, da sua misteriosa
personalidade, abriu todas as gavetas mentais que eu selara para o desmemoriar.
Raios!
Foi assim que a
esperança me invadiu pela manhã, impetuosa como a maré cheia que fustiga a
rocha deserta, cobrindo-a de fulgor. Uma esperança que nada traz de bom. Uma
esperança que traz escondida na espuma densa daquela maré, a ilusão de um amor
correspondido que nunca o poderá ser. Como eu odiava aquela esperança
traiçoeira, que tanto abalava o meu mundo, que tanto me fazia sorrir, que tanto
me fazia sofrer. Como eu sentia que podia controlá-la, sem sequer chegar perto
dela! Era escusado. Ela dominava-me como um deus que domina as suas criações,
possuidoras da consciência de existirem, mas inconscientes da sua subsistência
submissa, irrevogável e imperecível. Tão consciente, tão inconsciente, tão
coisa nenhuma...
Levantei-me da cama com
uma rapidez descomunal. Era imperativo expulsar aquele sentimento de dentro de
mim, deixá-lo acomodar-se na cama, sozinho, até que se extinguisse. Sacudi o
cabelo comprido mais vezes que o costume. Estalei todas as articulações que pude
e expirei fundo demasiadas vezes. Sentia-me coberta de areia fina, tão fina que
se prendia até nas pestanas dos meus olhos brilhantes. Queria desprender-me
daquilo, soltar-me, alforriar-me daquela esperança que me iria arruinar, outra
vez. Olhei-me no espelho da casa-de-banho minúscula. Aquele brilho no olhar
assustava-me e fascinava-me, ao mesmo tempo. Levei as mãos à cara, como duas
conchas carregadas de água, para tirar aquele ar apaixonado do meu rosto
luminoso. Fi-lo num número de vezes que achei absurdo para aquele tipo de
tarefa, a fim de apagar aquele fogo das minhas bochechas. De nada serviu. A
esperança continuava lá. Raios partam!
Era inútil. Tudo era inútil contra aquela força que me envenenava o coração.
O pequeno-almoço não
existiu. Não poderia alimentar tal estado de espírito. Emborquei uma chávena de
chá preto e bebi um café curto. Uma combinação explosiva que tentei combater
com outra igual. Fogo apaga fogo. Funcionou. Pelo menos, funcionou enquanto
aquela peçonha me enchia o estômago, numa velocidade alucinante. Funcionou,
portanto, durante quatro minutos e meio. Foi o suficiente para me fazer voltar à
minha vida presente. Hoje, não era dia para recordar o passado. Não podia ser.
O caminho até ao
trabalho foi excitante. Toda a cafeína se traduziu numa condução digna de filme,
com buzinadelas variadas, infracções infinitas e um pé no acelerador quase
impossível de acompanhar. Foi simultaneamente perigoso e tranquilo. Percebi que
não era só a cafeína a fazer efeito. A teimosia da esperança foi aquela que vi
quando olhei os ponteiros do relógio do trabalho: dez minutos mais cedo que o
normal. Perigoso, sim. Por outro lado, tinha tempo para fazer uma chamada que
talvez me fosse salvar o dia (ou a vida). Revistei a minha mala, à procura do
maldito telefone, e, assim que o encontrei, marquei o número que sempre me
fazia voltar à realidade: a minha melhor amiga. Experiente nestas questões
amorosas (e com orgulho), só ela me poderia resgatar do naufrágio emocional que
estava prestes a acontecer. Não atendeu. Tinha o telemóvel desligado. O meu
coração tornou-se pedra. Teria que resolver esta tempestade sozinha. Inspirei
fundo e entrei no escritório.
O dia correu
pessimamente mal. Os processos que deveria ter revisto continuaram empilhados
no centro da enorme secretária, mesmo atrás do meu computador portátil. Aqueles
que deveria ter arrumado, por estarem concluídos, mantinham-se acondicionados,
junto à janela alta, entre a estante clássica e a poltrona velha, desejosos de
inundar o chão cerejeira flutuante. Os que deveria ter iniciado o quanto antes
chamavam desesperadamente por mim, organizados no lado direito desta minha mesa
de trabalho. A única coisa que fui capaz de fazer o dia todo foi ordenar as
pastas digitais, tradutoras dos meus anos de trabalho, e ver, uma, duas, três,
quatro, cinco, 67 mil vezes, a única fotografia que tinha Dele no meu
computador. Isso e tentar falar mais nove vezes com a minha melhor amiga, que
teimava em não ligar o já natural aparelho limitador da liberdade individual.
Foi terrível. Há vários
anos que não tinha um dia tão ameaçador como este. E tudo começou porque,
naquela noite, soube-te livre. Soube-te livre e logo me voltei a conhecer
encarcerada, presa a esse sentimento que me atrai para ti. Maldita seja a
esperança! Maldito seja o amor! Maldito sejam todos os sentimentos que me fazes
sentir! Fazes-me afundar num navio repleto de emoções e nem te apercebes disso.
Sufoco com a vontade que tenho em te dizer o quanto gosto de ti, o quanto te
quero. Mas, antes disso, ainda me afogo num ódio que pré-anuncia esse amor. O
esforço, oh, o esforço! O esforço que eu faço para que nada disto transpareça
para o meu olhar, para o meu sorriso, para o meu comportamento. O desespero que
sinto em querer fazê-lo transparecer e não poder. A raiva que se apodera de
mim, por gostar de ti. O medo em perder-te, em ver-te fugir da minha vida se
soubesses disto. Como esta esperança é um vírus que me tortura...
O jantar sabia-me a
amargura. ‘Pelo menos, sabe a alguma coisa’ era a resposta do meu consciente a
cada colherada de sopa. Eram dez e meia da noite e só agora é que eu tinha sido
capaz de comer. Mas foi a única empresa que consegui completar. Eram onze da
noite e já o meu corpo descansava na cama esperançosa. Os meus pensamentos
corriam-me a mente, hiperactivos, sem chegar a lado nenhum. Estava quase a
adormecer quando o meu telemóvel estremeceu. Uma mensagem. Finalmente, ela ligou a merda do telemóvel! Estendi o braço até à
mesa-de-cabeceira. De certeza que ela iria ligar; e provavelmente, estaria
entusiasticamente sobressaltada. Apenas com metade do cérebro a funcionar, abri
a mensagem: ‘Olá! Tudo bem?’. Não percebi. Ela não escreveria tal coisa. Fiz um
esforço para ler o nome do remetente. ‘Ele’.
E tudo começou de
novo...”
"Hydrogen in our veins, it cannot hold itself, our blood is boiling
And the pressure in our bodies that echoes up above it is exploding
And our particles that burn it all because they aim for each other
And although we stick together it seems that we are stranging one another
Feel it on me love
Feel it on me love
Feel it on me love
(Strangeness and Charm)
See it on me love
See it on me love
See it on me love
(Strangeness and Charm)
An atom to atom oh can you feel it on me love
A pattern to pattern oh can you see it on me love
Atom to atom oh what's the matter with me love
Strangeness and Charm
The static of your arms, it is the catalyst
You're a chemical that burns there is nothing like this
It's the purest element but it's so volatile
An equation heaven sent, a drug for angels
Strangeness and Charm
Feel it on me love
Feel it on me love
Feel it on me love
(Strangeness and Charm)
See it on me love
See it on me love
See it on me love
(Strangeness and Charm)
An atom to atom oh can you feel it on me love and
A pattern to pattern oh can you see it on me love
Atom to atom oh what's the matter with me love
Strangeness and Charm
The static of your arms, it is the catalyst
You're a chemical that burns there is nothing like this
It's the purest element but it's so volatile
An equation heaven sent, a drug for angels
Strangeness and Charm [x6]
The static of your arms, it is the catalyst
You're a chemical that burns there's nothing like this
It's the purest element and it's so volatile
An equation heaven sent, a drug for angels
Feel it on me love
Feel it on me love
Feel it on me love
(Strangeness and Charm)
See it on me love
See it on me love
See it on me love
(Strangeness and Charm)
Feel it on me love
Feel it on me love
Feel it on me love
(Strangeness and Charm)
See it on me love
See it on me love
See it on me love
(Strangeness and Charm)
Oh, Oh, Down, Down down down [x4]"