Hoje, pela primeira
vez em tanto tempo, senti-me só. Completamente só. Abandonada. Insignificante.
Pela primeira vez em tanto tempo, senti o vazio que me absorve como um fogo
incontrolável. Senti o absolutamente nada. E a prova disso está naquele forte
desejo que me invade logo a seguir: o desejo de não querer sentir coisa
nenhuma, nunca mais. O processo é repentino. O meu corpo, outrora cheio de
vida, despeja-se de toda e qualquer emoção; os meus olhos perdem a luz, a única
coisa que os distingue do espelho baço em que se tornam, assim do nada; os meus
lábios, as minhas mãos, as minhas pernas, o meu cérebro, nada obedece, nada
reage aos estímulos que se lhes apresentam à frente. Tudo é insignificância,
nada interessa.
As horas passam, mas o
tempo não corre. O silêncio impera, governando todos os estados de espírito. Os
olhos abrem, fecham, vêem e ‘desvêem’ a realidade. A paisagem, porém, é sempre
a mesma. Os olhos contemplam um nada pouco curioso; os mesmos olhos apagam-se
para verem exactamente a mesma coisa. Não há diferenças entre adormecer e
acordar, entre ser feliz e sofrer. Não há diferenças. Tudo é igual. Nada tem
valor. Nada se distingue. Nada é igual. As mãos tocam mas não sentem. Não há
texturas. O sedoso não existe; o áspero tão pouco. O veludo é fumaça e a lã,
transparência. Não há calor nem frio. Há toda uma sensação inócua de que, de
facto, temos frio. Não é algo que se sinta; apenas se sabe que assim é. Sabemos
que devíamos aconchegar o nosso corpo numa manta quente, escondendo a t-shirt
que temos a protegê-lo; mas optamos por não fazê-lo. O frio não é real; o frio
não parece real.
O cansaço é a única
constância, a única certeza. A pequenez das coisas mais belas é despedida por
uma fadiga que já não precisa de apreciar tais feitos, que já não quer saber de
tais coisas. Enquanto tudo é nada, o mesmo cansaço faz-me perceber que, afinal,
ainda preciso de tudo. Claro que é apenas uma noção, um ‘apercebimento’. Passar
à acção, voltar a sentir-me gente, é difícil. Sair de um processo de solidão é
moroso, desgastante, quase fatal. Da mesma maneira que escolher ficar também o
é. Mas esta solidão, tão rara, tem um poder imenso sobre mim que me faz
questionar toda uma vida de pugilista. Esta solidão é uma solidão muito específica.
É aquela que me faz
sentar numa cadeira, ficar a olhar para o ar e deixar-me a pensar. Não penso em
nada de útil. Não penso em trabalho. Não penso nos amigos, nem na família. Penso
em mim e na minha incompetência em combater tal avalanche sentimental. Penso no
motivo que me leva a pensar em coisa nenhuma. Penso no porquê de me sentir
assim, tão desesperada, tão fria, tão só. Penso na razão que me leva a perder
tempo para pensar neste meu grande ego. Nunca chego a uma conclusão plausível.
A única hipótese que me ocorre para explicar tanto sofrimento é a que, de
facto, eu mereço isto. E talvez seja por causa do meu egoísmo desmesurado, do
meu esgotamento sentimental, da minha impotência em controlar as minhas
emoções. Talvez seja por isso que este vazio me faz tanta mossa. Talvez seja
por ser tão sensível que me sinto tão débil, tão fraca, tão vazia.
***
Hoje, já não me sinto
tão só. Conversei comigo mesma e compreendi algumas coisas. Sim, sou sensível.
Não aquele género de sensível que chore nos filmes românticos ou aquele que
veja as suas susceptibilidades facilmente feridas ou até mesmo aquele que se
sente atacado por palavras assoladoras. Sou sensível porque sinto as coisas com
demasiada sensibilidade. Sinto muito, a muitos níveis. Sinto muito, com
intensidade. Não há meios ‘sentires’. Não há meios ‘amares’, meios ‘não
gostares’, meios ‘perceberes’ nem meios ‘discordares’. Eu amo por inteiro, não
gosto por inteiro, percebo por inteiro e discordo por inteiro. Nada fica pela
metade. Nada fica por um quarto ou por dezasseis avos. Tudo é feito a cem por
cento. Se gosto, se não gosto; se devo, se posso, se nem quero... Não interessa
o que seja. Seja o que for, fá-lo-ei por inteiro, nunca pela metade.
Talvez seja por isso
que, quando me sinto só, seja tão complicado de deixar de o sentir. Eu sinto
muito. Eu tenho que sentir muito. E
tenho que senti-lo até ao fim. É um
processo completo, que envolve muitos momentos de introspecção e reflexão.
Descubro muitas novidades sobre o meu ser, a minha força interior, a minha
essência; mas também desencadeio demasiadas perguntas que raramente são
respondidas. E existe uma que me assombra todas as vezes: “Porque é que me
sinto assim?”. Sempre que tento responder, o tiro nunca acerta no alvo. Nunca
soube o porquê até hoje: não existe um alvo. Não há uma resposta certa. Há todo
um manancial de circunstâncias que ajudam a compreender tal solidão; e desse
conjunto faz parte um termo bem lixado: a saudade.
Sempre que me sinto só,
sinto saudade. Saudade de alguém ou de alguma coisa. Às vezes, até sinto
saudades de um determinado aroma ou de uma cor específica. É algo estranho,
confesso, mas eu sou estranha. Quando tenho aqueles momentos em que estou
sentada na cadeira, a sentir coisa nenhuma, dou por mim a imaginar certa
pessoa, ou certo momento; penso numa memória que gostava de repetir e percebo
que nunca poderei revivê-la. Penso nos meus arrependimentos, mesmo até naqueles
que tenho a certeza que não me deveria arrepender. Grande parte das vezes,
penso em alguém especial. Claro que há sempre um ‘alguém’ metido nestas
questões. Mas, lá está, estes momentos acontecem muito poucas vezes e,
normalmente, só quando existe um ‘alguém’ envolvido no assunto. Acho que é
normal. Mesmo que não seja, tanto me faz. Se estou a sentir, porque raio
haveria de o negar?
Não faz sentido para
mim reprimir emoções. Não está na minha essência fazê-lo. Por isso, vou
deixar-me sentir só. Vou permitir que este vazio se apodere de mim como algo
natural. Porque, para mim, isto é natural. Não é um processo que me agrada,
como está claro. Se não, com que moral viria eu para aqui escrever sobre isto?
Não teria qualquer cabimento. A única, ou melhor, uma das razões para me expor
desta maneira é muito simples: mostrar ao mundo que, por detrás de um sorriso
atraente, por baixo de um olhar meigo, pode estar todo um universo vazio,
repleto de negativismo e solidão, mas que isso não significa que estejamos
vazios, negativos ou sós. Quer dizer que todos, todos sem excepção, temos um
dia mau. Apenas uns mostram-se mais que outros...
"Many's the time I ran with you down
The rainy roads of our old town
Many the lives we lived in each day
And buried altogether
Don't laugh at me
Don't look away
You'll follow me back
With the sun in your eyes
And on your own
Bedshaped
And legs of stone
You'll knock on my door
And up we'll go
In white light
I don't think so
But what do I know?
What do I know?
I know!
I know you think I'm holding you down
And I've fallen by the wayside now
And I don't understand the same things as you
But I do
Don't laugh at me
Don't look away
You'll follow me back
With the sun in your eyes
And on your own
Bedshaped
And legs of stone
You'll knock on my door
And up we'll go
In white light
I don't think so
But what do I know?
What do I know?
I know!
And up we'll go
In white light
I don't think so
But what do I know?
What do I know?
I know!"