Que músicas já foram comentadas. . .

"Long Live", Taylor Swift ; "Mean", Taylor Swift ; "Better than Revenge", Taylor Swift ; "Closer to the Edge", 30 Seconds To Mars ; "Nashville", David Mead ; "Count On Me", Bruno Mars ; "Won't Go Home Without You", Maroon 5 ; "I don't wanna miss a thing", Aerosmith ; "Both of Us", B.o.B ft Taylor Swift ; "Somebody", Lemonade Mouth ; "Stay, Stay, Stay", Taylor Swift ; "Two is Better than One", Boys Like Girls ft Taylor Swift (desculpem, não consegui resistir!) ; "Sorte Grande", João Só e Abandonados ft Lúcia Moniz ; "Unbelievable", EMF ; "Hey Stephen", Taylor Swift ; "Fairy Tail", Yasuharu Takanashi (instrumental) ; "Predestination", Fairy Tail (instrumental) ; "Kanashiki Kako", Fairy Tail (Instrumental) ; "Puedes ver pero no tocar", RBD ; "I Knew You Were Trouble", Taylor Swift ; "Coming Home", Diddy ; "Never Grow Up", Taylor Swift ; "Wherever You Will Go", The Calling ; "Chasing Cars", Snow Patrol ; "Demons", Imagine Dragons ; "Beneath Your Beautiful", Labrinth ft Emile Sandé ; "Fantastic Dream", Kaleido Star (Instrumental) ; "A Pele que há em Mim", Márcia com J.P. Simões ; "The Diary of Me", Taylor Swift ; "Impossible", James Arthur ; "I'm Only Me When I'm With You", Taylor Swift ; "A Different Beat", Little Mix ; "All of Me", John Legend ; "Staring at It", SafetySuit ; "A Thousand Years", Chritina Perri ft Steve Kazee ; "Ordinary Love", U2 ; "Stop This Train", John Mayer ; "Radioactive", Imagine Dragons ; "Thinking of You", Katy Perry ; "One Last Time", Ariana Grande ; "Edge of Desire", John Mayer ; "Almost Home", Alex and Sierra ; "What I Did For Love", David Guetta ft. Emeli Sandé ; "My Songs Know What You Did in the Dark", Fall Out Boy ; "Dança", Pólo Norte ; "O Tempo Não Pára", Mariza ; "Long Live", Taylor Swift (2ª versão) ; "Roman Holiday", Halsey ; "Breathe Me", Sia ; "Até ao Verão", Ana Moura ; "Hands to Myself", Selena Gomez ; "Jet Black Heart", 5 Seconds of Summer ; "Let Me Go", Avril Lavigne ft Chad Kroeger ; "Kings and Queens", 30 Seconds to Mars" ; "Todos os Dias", Paulo Sousa ; "Paris", The Chainsmokers ; "In The Blood", John Mayer ; "Stangeness and Charm", Florence and The Machine ; "Another Day In Paradise", Phil Collins ; "Bedshaped", Keane ; "In The Air Tonight", Phil Collins ; "Ordinary World", Duran Duran ; "Trevo (Tu)", Anavitória ft. Diogo Piçarra ; "If I Ain't Got You", Alicia Keys ; "Blinding", Florence and The Machine ; "Someone That Cannot Love", David Fonseca ; "Yellow", Coldplay ; "Promise", Ben Howard ; "The Whole of the Moon", The Waterboys ; "Let it Go", James Bay ; "Believe", Mumford & Sons ; "Say Something", A Great Big World ft. Christina Aguilera ; "Gold Rush", Taylor Swift ; "Blinding Lights", The Weeknd ; "É Isso Aí", Ana Carolina ft. Seu Jorge ; "Renegade", Big Red Machine ft. Taylor Swift ; "lovely", Billie Eilish ft. Khalid ; "The Only Exception", Paramore ; "You're Losing Me", Taylor Swift ; "The Story", Brandi Carlile ; "Guilty as Sin?", Taylor Swift ;

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

"Blinding", Florence and The Machine

    A bagagem pesa. Pesa mais do que alguma vez pesou. Até há bem pouco tempo, eu arrastava-a sem problemas; as rodinhas minúsculas que lhe forravam a carapaça ajudavam mais do que nunca. A bagagem pesa mas eu não. Sou ar, sou vento, sou névoa. Sou nada. E o tempo voa e eu menos me torno gente. Já fui gente; agora, sou rasgo de um fôlego que teima em existir. A bagagem pesa, mas não se nota. As máscaras eram muitas. Umas foram renovadas, encarregando-se agora de novas funções. Outras foram destruídas; já não me eram úteis; já não convenciam ninguém; já não me serviam em nenhuma das opções. É difícil distinguir o que quero ser daquilo que sou e daquilo que pareço ser. É muito difícil ser, simplesmente.

    A bagagem pesa. Arrasto-a mais uns quilómetros; o tapete rolante não acaba, mas eu sei que ele é finito. Haverá um terminal, onde posso pesar a bagagem e admitir tudo o que comigo carrego e tudo aquilo que nunca carreguei. Um terminal onde deixarei por escrito tudo aquilo que nunca irei carregar. A bagagem pesa, mas a balança não acusa. É pó, é ilusão; essa bagagem não existe para mais ninguém; apenas eu consigo confirmar o embarque da tão pesada mala. A bagagem pesa. Arrasto o trolley sempre na mesma direcção: em frente. Porque para a frente é que é o caminho, diz o povo. A minha frente é lenta, o meu avanço é tímido. Não vejo nada; só sinto o peso da bagagem, puxando-me no sentido contrário, puxando-me para tudo o que já fui, puxando-me para um eu de outrora.

    A bagagem pesa, mas o mundo não pára. Não pára, por enquanto; sei-o, e sei-o melhor que ninguém. Eu vou entrar nesse barco, e vou entrar com a minha bagagem, a minha bagagem que pesa. E a porta vai-se fechar e eu sei que o mundo vai parar a qualquer momento. Atravesso a porta; levo a bagagem. O mundo segue caminho; eu espero pelo fecho da porta. O mundo continua a passear. A porta fecha-se. Paro; fico em silêncio; sou só eu e a minha bagagem, a minha pesada bagagem. E espero; espero com a mala pela mão, pousada nas suas quatro ridículas rodinhas minúsculas. Espero. E continuo a esperar. E a espera torna-se interminável. Afinal, talvez o mundo não pare. Encolho os ombros; tento seguir viagem.

    A bagagem pesa; é cada vez mais pesada. Mas eu vou no barco; porque pesa então a bagagem? O mundo não parou; porque pesa então a bagagem? As dúvidas instalam-se, mas eu sigo caminho. O primeiro sinal acontece: uma das quatro rodinhas rebenta; como se isso fosse minimamente possível. Mas acontece. Paro. Pouso a minha mala. Olho, incrédula, para a peça que falta. O mundo pára. Será agora? Não. Ainda consigo arrastar o trolley. O mundo retoma o caminho, impávido para com o meu choque. Não sinto diferença alguma, excepto o facto de ser mais difícil equilibrar e arrastar a mala. Mas o caminho faz-se bem; e ela não me perturba o caminhar. Sigo, rapidamente recomposta do minúsculo percalço. A bagagem pesa. As três rodinhas ajudam-me a carregá-la. É pouco, mas basta. Não gosto de perder nada da minha vida, então, guardo, na minha mala, a rodinha que se partiu.

    A bagagem pesa, mas a rodinha não estorva. Inconscientemente, tudo está diferente. Mudo? Não, não preciso de mudar. Tudo segue nos conformes. Mais uns metros. Outra explosão. Menos outra roda. Paro, perplexa; tudo aparenta estar igual, mas, de repente, o peso da minha bagagem aumenta; e eu ainda não tinha arrumado a segunda rodinha que se soltara. Agora, não parece ser só a bagagem que pesa; agora, também os meus pés pesam. Abano a cabeça, negando as evidências. Tudo está igual, repito. Um pé atrás do outro e sigo caminho; mais uns metros por aquele corredor de um barco em movimento. E o espaço vai ficando apertado, mas não me importo; não me incomoda, esse aperto que pouco me sufoca.

    A bagagem pesa e parece ser cada vez mais difícil arrastá-la com segurança. A sua caminhada parece confusa, mas segue sempre na mesma direcção. A bagagem pesa, os pés pesam, as pernas pesam. Sem me dar conta, carrego mais do que pensava; mas carrego. Vou andando, com calma, serena como a água que abraça este chão que piso com pouca confiança. Nunca vejo ninguém pelo caminho; estou sempre sozinha. Sozinha; nunca só. Arrasto o meu corpo e a pesada bagagem mais do que ponderara conseguir, até a terceira rodinha se escapulir do grande objecto que carrego. Parei, sem reacção; restava-me apenas uma roda, uma única roda que, supostamente, deveria ajudar-me a transportar aquele peso. Agora, os meus ombros recusavam-me o indispensável auxílio para percorrer o resto daquele corredor. Eu sentia o meu destino próximo; não seria agora que iria desistir.

    Com uma roda apenas, a mala revelava-se difícil de conduzir; sempre que eu a endireitava, ela tombava ou avançada numa rota desgovernada, com impetuosidade. E o meu corpo, acusando o cansaço, começava a deixar de colaborar. Revoltei-me contra o pesado objecto; lá arranjei uma fórmula misteriosa para continuar a caminhar sem parar constantemente para compor tudo o que se descompunha; mas era difícil, muito difícil, muito mais difícil do que aquilo que imaginei que fosse. Agora, além da bagagem, dos pés, das pernas, dos ombros, também o meu coração pesava. E pesava ainda mais do que tudo o resto junto. Caminhar tornou-se rastejar; respirar transformou-se numa tortura incessante; chegar ao meu destino, atingir o final daquele corredor, fazer a tão bela viagem, pareceu-me objecto de uma ponderação poderosa. Valeria mesmo a pena carregar-me até essa meta?

    Num piscar de olhos, a rodinha que sobrevivera a todas as peripécias, finalmente, soltou-se. Parei, apática. Tinham-se acabado as rodas. Tinham-se acabado os apoios. Tinham-se acabado as vontades de puxar tão pesada bagagem. Tinha-se tudo acabado. Sem aviso prévio, encontro uma porta lateral; seria um atalho? Talvez valesse a pena, então, continuar aquele percurso. Abri a porta, símbolo da alternativa a um destino longínquo.

Pela primeira vez, vi cor, depois de tanta monocromia que emanava daquele corredor. Mas aquela cor não me parecia autêntica. Havia qualquer coisa que me impelia para ela, mas algo mais que fazia fugir. Não sentia nada: nem peso no peito, nos ombros, nas pernas, nos pés; nem um peso de uma bagagem carregada, partida, desfeita. Olhei o corredor; o seu silêncio assustava-me. Olhei a porta aberta; a cor seduzia-me. A escolha deveria ser óbvia: iria entrar naquela porta. Mas a bagagem não andava; tinham-se acabado as rodas. Aquela alternativa seria a única saída; não me interessava onde ia dar o corredor, aquela porta era a saída. Mas a bagagem não andava. Então, tomei a mais importante decisão até àquele momento: pousar a bagagem do lado de lá da porta. Enchi-me de coragem, inspirei todo o ar que me envolvia. Sentia todas as gramas do meu corpo a flutuarem. E, então, a bagagem foi-se.

Virei a cabeça em direcção ao corredor; de volta ao barco. Dei o primeiro passo. A bagagem já não pesa. A liberdade começa.

"Seems that I have been held, in some dreaming state
A tourist in the waking world, never quite awake
No kiss, no gentle word could wake me from this slumber
Until I realize that it was you who held me under

Felt it in my fists, in my feet, in the hollows of my eyelids
Shaking through my skull, through my spine and down through my ribs

No more dreaming of the dead as if death itself was undone
No more calling like a crow for a boy, for a body in the garden
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love with the wrong world

And I could hear the thunder and see the lightning crack
All around the world was waking, I never could go back
Cause all the walls of dreaming, they were torn wide open
And finally it seemed that the spell was broken

And all my bones began to shake, my eyes flew open
And all my bones began to shake, my eyes flew open

No more dreaming of the dead as if death itself was undone
No more calling like a crow for a boy, for a body in the garden
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love with the wrong world

Snow White's stitching up your circuit-boards
Synapse slipping through the hidden door
Snow White's stitching up your circuit-board

No more dreaming of the dead as if death itself was undone
No more calling like a crow for a boy, for a body in the garden
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love with the wrong world

Snow White's stitching up your circuit-boards
Synapse slipping through the hidden door
Snow White's stitching up your circuit-board
Synapse slipping through the hidden door"

terça-feira, 19 de junho de 2018

"If I Ain't Got You", Alicia Keys


    Não vou desistir de ti. Pela primeira vez, não irei desistir de alguém. Pela primeira vez, não vou desistir; seja do que for. Já houve alguns ‘alguém’, mas nenhum como tu. Sempre que nos cruzamos com alguém que nos pode fazer a pessoa mais feliz do mundo, dizemos sempre que esse ‘alguém’ é diferente de todos os outros que já tivemos antes; que esse novo e mais recente ‘alguém’ é tudo aquilo que os outros não foram. Corremos a lista na ânsia de os suplantar, como se gostar menos não fosse aceitável. E não é. Queremos sempre gostar mais, nunca menos. Como se não fosse justo para ninguém ser substituído por um ‘alguém’ que fosse menos do que o melhor.

    Por isso, desistir passa a ser aquele tipo de atitude que perdemos para o vento. Surge um novo ‘alguém’ e, de repente, temos coragem para fazer tudo; coragem para dizer que sim e coragem para dizer que não. De repente, somos os melhores na arte de trocar olhares, sem nunca realmente olharmos aquilo que queremos insistentemente ver. Como se vê-lo fosse perder o ar que respiramos! Como se olhá-lo fosse uma chuva de rosas num peito desprotegido que luta pela liberdade! A coragem de olhá-lo vai-se num ápice, como se nunca tivesse existido. Mas nós sabemos que ela estará lá para nos assombrar novamente daí a uns meros instantes.

    Queremos olhá-lo e não queremos. Queremos tocá-lo e não queremos. Queremos falar-lhe e não queremos. Queremos olhá-lo, mas não queremos que ele nos veja a admirá-lo, a beijá-lo, a tê-lo nos nossos braços, com os olhos. Queremos tocá-lo, mas temos medo que toda a sua sedução nos trespasse sem piedade, que toda a sua beleza nos engula num só trago, que todo o seu magnetismo seja demasiado forte para resistirmos. Queremos falar-lhe, mas corremos o risco de perder a voz, ao escutar a dele; ficamos com medo de quebrar todo um silêncio belo e avassalador que nos faz inspirar. Personificamos o paradoxo como se fosse a coisa mais normal do mundo, sê-lo. Porque, de repente, querer e não querer passa a fazer o maior sentido na nossa existência.

    Demasiado misterioso. É este o problema ‘dele’. Todo aquele mistério que o ilumina deixa-me completamente à nora. Sorrio como não sorria desde a primeira vez que alguma vez me senti assim; expludo aqueles sorrisos idiotas, de orelha a orelha, que traduzem absolutamente todos os meus pensamentos; por isso, forço-me para os esconder. Os meus olhos brilham com uma intensidade tal que me fazem transparecer tudo o que me vai na alma; a solução é desviar o olhar para uma parede e isso nem sempre resulta. Denuncio-me a mim mesma até na forma de andar. Quase corro pela minha vida, numa fuga que significa exactamente o contrário daquilo que eu quero fazer. Corro pela minha vida, como se o aparecimento da vergonha e da timidez dependessem da velocidade a que me distancio daquele que mais quero.

    Ai, mas aquele mistério! É ele que me faz quebrar todas estas regras! É ele que me faz olhar para trás no último segundo da minha escapadela. É ele que me faz sorrir assim que os seus olhos passam pelos meus. É ele que, num piscar de olhos, me aquece o coração e me derrete a alma, levando-me a um êxtase espiritual que nunca na minha vida experienciei. Nunca este sentimento foi tão forte! Nunca a timidez foi tão guerreira! Nunca o meu coração discutiu tanto com a minha cabeça! Nunca me deixaram assim! Nunca tive tanta coragem para escrever o que sinto por ti! E, tudo isto, sem nunca ter trocado dois dedos de conversa contigo! Quero-te tanto que até a mim mesma me surpreendo!

    Por esta altura, já tudo o resto deixou de ter importância, mas as pequenas coisas ganham um relevo assustador, capaz de mover-me o espírito. Estou calma, sempre calma, mas assim que te avisto no horizonte, uma revolução nervosa percorre-me o corpo como se tivesse sido electrocutada; uma revolução que se repete e repete e repete e repete e não tem fim. A bonança só volta a invadir-me assim que sei que não mais te verei, nesse dia. Sim, nesse dia. Porque, no dia seguinte, se voltares a aparecer, sou tomada de novo pelos tremeres incessantes, os corares impossíveis de reter, os desviares de olhar para não desfalecer com a vista e os suspirar fundo (bem fundo) dolorosamente repetitivos.

    A parte mais engraçada disto tudo é que tu não és assim tão bonito, tão escultural, tão arquétipo de homem belo e irresistível. Não és nada daqueles homens feitos por encomenda ou acabados de sair de uma fábrica instagramiana. És exactamente o contrário de um modelo de perfeição (exceptuando a tua altura, talvez). Não és louro de olhos azuis, nem tens um corpo com músculos imprescindivelmente definidos. Não tens olhos verdes e cabelos escuros como o breu, nem és um homem fotogénico. Aliás, mal mostras ao mundo os teus profundos e delicados olhos castanhos, que apenas vislumbrei uma vez. O teu cabelo encaracolado, tão ímpar, é talvez a única prova física que se destaca numa sala repleta de cabeleiras tão comuns e aborrecidas. Fisicamente, admito que podias ser tão melhor. Mas é isso que me apaixona em ti. Até o teu físico é tão discreto e, ao mesmo tempo, tão gritante, que me perco nele como em nenhum outro lugar!

    A beleza que há em ti está por dentro desse corpo que pouco se destaca. E é claramente ela que me atrai. É essa beleza que não se vê, mas que se sente, que me puxa com tal brutalidade, que me sinto a perder-me do resto mundo e a querer importar-me só contigo. Aquilo que tu tão insistentemente guardas e escondes é aquilo que eu tão intensamente vejo e desejo. Como se eu visse por dentro de ti tudo aquilo que tu és. E é por isso que eu não te olho sempre que quero: porque tenho medo que tu tenhas o mesmo superpoder, de ver dentro do meu peito tudo aquilo que eu quero para mim.

    Tenho medo da rejeição, sempre tive. Mas mais medo tenho da tua aceitação, porque não saberei lidar com ela. Sinto que devia dar um passo em frente. Sinto que devia olhar-te, tocar-te, falar-te; mas o medo de ser correspondida é tão grande, tão grande, que me fogem as palavras, me foge o chão, me foge o coração, me foge tudo aquilo que eu preciso para me manter calma. Se me responderes, se me falares, se te dirigires a mim sequer, derreto. Nunca aconteceu isto com ninguém. Nunca fiquei sem palavras com ninguém. É por isso que sei que desta vez é diferente. O pânico de estar na mesma sala que tu deixa-me com os nervos em franja porque inicia-se o conflito interno que me domina até ao final do dia. E o pior disto tudo é que eu sei que, quando me vês, sorris, o que me deixa ainda mais nervosa. Como é que é suposto lidar com a tua aceitação? Como é que é suposto lidar com o olhar? Como é que é suposto lidar com este sentimento que eu tenho quase a certeza que seja amor?

Gostava de ser misteriosa como tu. Gostava de poder ficar no meu canto e fingir que nada estava a acontecer. Gostava de conseguir parecer assim forte, como tu, como se nada me abalasse. Já fui, um dia. Numa época em que eu era uma mulher muito diferente daquilo que sou hoje, eu era misteriosa, com todas as minhas paixões. Conseguia não corar, não sorrir, olhar e não desviar logo a seguir; conseguia manter-me firme e amar sem sequer questionar o mundo. Agora já não. Tu quebraste todo o meu mistério. Não me contenho, não sou capaz de fazê-lo nem tenho a mínima vontade de o fazer. Parece que todas as minhas barreiras protectoras se foram quando contemplaram a tua existência.

    Acredito que isto possa dar nalguma coisa. Acredito piamente nisso e acredito que nunca estive tão certa nesta vida de algo tão abstracto como isto. Mas falta o primeiro passo de todos: conhecer-te. Sei o teu nome por intermediários. Sei o que fazes da vida por intermediários. Sei por que meios amigáveis te moves por intermediários. De ti, só sei uma voz única a dizer ‘olá’. Nada mais, apenas isso. Como é que me podes ter conquistado assim, num tão só e inocente ‘olá’? Não percebo, sinceramente, como me podes ter agarrado assim, num ápice, como se fosses a maior força do universo. E nunca mais me largaste. Nunca mais quebraste este ciclo. Nunca me lançaste um olhar reprovador ou um sorriso mal-encarado, para eu desaparecer da tua vista. Nunca me deste um sinal em como me desprezas ou que não queres ter nada a ver comigo. Nunca me mostraste um 'não'. E esse silêncio é o sim tão avassalador que me leva à verdadeira loucura...

"Some people live for the fortune

Some people live just for the fame
Some people live for the power, yeah
Some people live just to play the game

Some people think that the physical things
Define what's within
And I've been there before
But that life's a bore
So full of the superficial

Some people want it all
But I don't want nothing at all
If it ain't you, baby
If I ain't got you, baby
Some people want diamond rings
Some just want everything
But everything means nothing
If I ain't got you, yeah

Some people search for a fountain
That promises forever young
Some people need three dozen roses
And that's the only way to prove you love them

Hand me the world on a silver platter
And what good would it be
With no one to share
With no one who truly cares for me

Some people want it all
But I don't want nothing at all
If it ain't you, baby
If I ain't got you, baby
Some people want diamond rings
Some just want everything
But everything means nothing
If I ain't got you, you, you

Some people want it all
But I don't want nothing at all
If it ain't you, baby
If I ain't got you, baby
Some people want diamond rings
Some just want everything
But everything means nothing
If I ain't got you, yeah

If I ain't got you with me, baby
So nothing in this whole wide world don't mean a thing
If I ain't got you with me, baby"

sexta-feira, 1 de junho de 2018

"Trevo (Tu)", Anavitória


    Quero-te. És um sonho que caminha por entre o nevoeiro dos meus medos. És invasor de lugares desconhecidos, repleto de exotismo e, ao mesmo tempo, de uma autenticidade tão natural que parece que não existes como homem. És pó colorido de deserto mate, opaco como água e transparente como luz. És fruto da natureza, tão selvagem quanto as flores que cuido com sorrisos. És tudo ao mesmo tempo, como se nada fosse diferente. És diferente sendo tão vulgar.

    Quero-te. E atrofia-me o coração não te ter. Parece que tudo se despedaça dentro de mim quando sei que não te tenho. Vazios inteiros acumulam-se no meu peito mal alinhavado. Estou curada deste mal, mas tu... Tu recordas-me os meus tempos de pano velho, aqueles tempos em que andava num farrapo, os tempos em que mal andava. Tu, um ‘meu’ distante, recordas-me um sofrimento de outrora, que pensava ter já esquecido. Mas, de repente, tudo volta. E tudo vai, subitamente, da mesma forma como veio. ‘Vai’ e ‘vens’ que me assustam e que me apaixonam ainda mais.

    Quero-te. Explode-me o peito só de te imaginar meu. Enche-me a cabeça só de te sentir meu. Quero ter os teus ‘bons-dias’ junto aos meus lábios. Quero o teu olhar a repreender as minhas atitudes. O teu beijo no meu pescoço. Os teus braços na minha cintura, nas minhas costas, nos meus ombros. Quero sentir o teu peito bater junto ao meu. Quero-te a meu lado. Quero ouvir a tua voz sem pensar nas horas. Quero descobrir cada cor dos teus olhos. Quero conhecer-te as expressões, as manhas e manias. Quero o teu riso mais estranho, as tuas marcas de nascença, as tuas irritabilidades. Quero descobrir-te a alma.

    Quero-te. O teu olhar arranca-me as flores do peito. As minhas mãos invejam as tuas de cada vez que as levas ao cabelo de outro mundo. As tuas costas provocam-me; trazem-me ao de cima uma louca espontaneidade que não tenho; criam um conflito entre o bom senso de estar em público e o prolongado abraço que te quero dar e que enceno mentalmente, vezes sem conta. O teu ar maduro e adulto, subtilmente brincalhão, faz-me sorrir como há muito não acontecia, torna-me mais tímida e agita-me como o vento que arranca docemente as folhas das árvores. Os teus passos prendem-me ao chão, como se a gravidade fosse mais forte do que aquilo que me chama para ti. Os traços do teu corpo exaltam-me o espírito, montando-o e desmontando-o num incompleto puzzle de mil peças; como se já não bastasse eu ser naturalmente desfeita. A tua voz grossa, num tom baixo, transpira mistério e cria suspense, sugando a minha atenção como se nada mais no mundo importasse. A tua existência faz-me viver e não apenas existir.

    Quero-te. E não quero partilhar-te com o mundo. Quero ser egoísta, amavelmente egoísta. Quero roubar-te aos teus amigos, ao teu trabalho, à tua vida. Quero tirar-te do teu mundo para que te juntes ao meu, para depois voltarmos juntos para o teu. Quero entrar na tua vida mas quero-te na minha primeiro. Quero ouvir-te dizer o meu nome; quero que o digas quando estás feliz, num tom mais alto do que é normal para ti; quero que o digas cansado, tão baixo que eu mal ouça; quero que o grites, irritado, num timbre que a tua voz não permite repetir; quero ouvir o meu nome passear a tua boca como água que mata a sede. Quero repetir o teu nome até aprender a gostar dele mais do que o meu; quero repeti-lo até o sentir meu, até senti-lo nosso; quero evocá-lo entre quatro paredes, na rua, num jardim, no meu coração. Quero habituar-me às tuas rotinas, dar-te os ‘bons-dias’, ficar-te com as ‘boas noites’; livrar-te de mim durante o dia, num acto tão natural como respirar. Quero aprender a estar contigo. Quero reaprender-me a estar no mundo, contigo.

    Quero-te. E não, não quero apenas um pedaço do teu peito. Quero-o num todo, da mesma maneira que te entrego o meu. Quero-te por inteiro. Quero as tuas qualidades, os teus defeitos, quero tudo o que venha contigo e tudo aquilo que não vem. Quero o teu passado e o teu presente. O futuro, quero-o nosso. Quero decorar-te como decoro a letra de uma canção. Quero escrever-te como se fosses a minha única memória, a minha mais preciosa recordação de uma vida vazia. Quero prender-te como se me escapasses entre os dedos. Quero viver-te como se amanhã partisses e não mais voltasses. Quero-te por tudo e por nada. Quero-te por aquilo que foste e por aquilo que deixaste de ser. Quero-te assim, belo por dentro e por fora. Quero ser assim, tua, por dentro e por fora.

    Quero-te. Começo a ficar sem timidez, sem forças, sem armas para resistir a esta sensação. Quero perdê-las. Quero perder as armas, quero perder as forças, quero perder a timidez, e quero perdê-las para ti. Quero falar-te, ouvir-te, olhar-te. Quero sentir-te ao meu lado, de mão dada, de mão no bolso, ao meu lado. Quero sentir-te junto a mim, como um escudo que me protege do mundo, como um íman que me puxa para ti, como flor hipnotizante que nunca perde a essência. Quero sentir-te longe, tão distante que me faça correr para ti quando voltasses. Quero sorrir-te todos os dias, quero chorar contigo em ocasiões emocionalmente fortes, quero perder o controlo de tudo aquilo que sou, de tudo aquilo que sei que posso ser. Contigo, sempre contigo.

    Quero-te. E nem sequer te conheço...

"Tu, é trevo de quatro folhas
É manhã de domingo à toa
Conversa rara e boa
Pedaço de sonho que faz meu querer acordar
Pra vida

Ai, ai, ai

Tu, que tem esse abraço casa
Se decidir bater asa
Me leva contigo pra passear
Eu juro afeto e paz não vão te faltar

Ai, ai, ai

Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar
E o tempo para, ah
É a sorte de levar a hora pra passear
Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá
Quando aqui tu tá

Tu, é trevo de quatro folhas
É manhã de domingo à toa
Conversa rara e boa
Pedaço de sonho que faz meu querer acordar
Pra vida

Ai, ai, ai

Tu, que tem esse abraço casa
Se decidir bater asa
Me leva contigo pra passear
Eu juro afeto e paz não vão te faltar

Ai, ai, ai

Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar
E o tempo para, ah
É a sorte de levar a hora pra passear
Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá
Quando aqui tu tá

Tu...

Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar
E o tempo para, ah
É a sorte de levar a hora pra passear
Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá
Quando aqui tu tá

É trevo de quatro folhas
É trevo de quatro folhas é

É trevo de quatro folhas
É trevo de quatro folhas é"

domingo, 7 de janeiro de 2018

"Ordinary World", Duran Duran

    «Tranquei a porta da casa-de-banho e enfiei-me debaixo do lavatório, encolhida. Com as mãos a puxarem o cabelo. A chorar. Outra vez. Ouvi a porta de madeira da entrada a bater com força, prova da saída do meu namorado, para espairecer. Chorei. Chorei outra vez. Gritei, chorei, berrei, calei-me. A soluçar, escapei do meu esconderijo. Saí da casa-de-banho e arranquei o telemóvel da carga, no corredor. Voltei para o cubículo onde me autodestruía e liguei para a minha melhor amiga. Assim que ela atendeu, a avalanche aconteceu uma vez mais. Quando os soluços a pararam, ouvi-a do lado de lá da linha.
    “Voltaste a dizer que não?”
    “Sim...”
    “E voltaste a dizer que ele não iria gostar sempre de ti e um dia se ia fartar e que não aguentavas magoá-lo fosse de que maneira fosse?”
    “Sim...”
    “Ai, Tânia... Amiga, quantas vezes é que ele já te pediu em casamento e tu continuas a dizer que não, quando, claramente, queres dizer que sim? Tens de entender que ele te ama incondicionalmente e não te vai deixar mal. Se ele confia em ti, porque é que teimas em não confiar em ti mesma?”
    “Tu sabes bem porquê!”
    Voltei a gritar, a puxar o cabelo, a chorar com a voz, com os olhos, com o corpo. Voltei a desabar, sem que nada me parasse. A minha melhor amiga esperou-me, pacientemente.
    “Fala com ele, Tânia. Abre-te para ele. Ele vai estar sempre lá para ti. Entrega-te antes que seja tarde demais...”
    Parei de soluçar. A voz dela surgiu-me como uma luz ao fundo do túnel. As suas palavras encorajaram-me a dizer ‘sim’. Ela compreendeu o meu silêncio. “Boa sorte” foi a última coisa que murmurou antes de me desligar a chamada. Levantei-me com rapidez. Virei-me para o grande espelho do lavatório. O meu olhar decidido invadiu aquela superfície sem piedade e, como uma epidemia, alastrou-se a todo o meu corpo sem dó.
    Enfiei o telemóvel no bolso, caminhei até ao bengaleiro, vesti o casaco de Primavera, calcei os sapatos de corrida e inspirei bem fundo antes de abrir a porta de entrada. Bati com a porta quando me lancei para a rua, envolta numa escuridão agradável. Comecei a correr instantaneamente. Eu sabia para onde ele tinha ido. Aquele carvalho velho no parque de cães estaria neste momento habitado pelo meu David, que provavelmente estaria sentado com a cabeça encostada a ele, sussurrando-lhe as suas angústias, as nossas angústias.
    O meu destino parecia nunca mais chegar. Dos meus olhos, lágrimas incertas escorriam como se o amanhã nunca mais surgisse. Nos meus pensamentos, as memórias destes momentos repetiam-se e as memórias evocadas nesses momentos também. O medo de ser magoada, de perder a confiança, de nunca confiar, de não me saber entregar... O medo, simplesmente, o medo, fazia estremecer todo o meu mundo. E o meu medo em confiar no meu David estava a arruinar a nossa relação. Oito anos e aquelas três letras nunca me saíam dos lábios. Eu cantava-las, dançava-las, gritava-las no meu coração. Mas, daí, nunca escapavam, nunca fugiam, nunca se expunham ao mundo. O meu destino parecia nunca mais chegar.
    As brigas, as gargalhadas, os silêncios, tudo ecoava na minha mente a uma velocidade vertiginosa, ao passo que as minhas pernas pareciam atrasar-me. O teu cabelo comprido, o teu rosto largo, o teu peito coberto, aqueles calções de Inverno. E as lágrimas caíam...
    Aquela bebedeira de Sexta à noite, aquela festa durante a semana que nos arruinou o quarto, a ressaca de Domingo, a avaria no meio do nada, com trinta e nove graus à sombra. E as lágrimas caíam...
    A tua tia, a minha mãe, a tua ex, o meu. O primeiro quarto, o primeiro apartamento, a única vivenda, o segundo apartamento. A tua camisa nos meus ombros, os meus collants nas tuas pernas peludas, o teu peito como almofada, o meu colo como divã. E as lágrimas caíam...
    O meu destino presenteava-se mesmo diante dos meus olhos. Vi-te como te imaginei. Como se me sentisses, levantaste a cabeça e desviaste o teu olhar doce na minha direcção. Gritei o teu nome e corri para ti sem misericórdia. Tu elevaste-te e abriste os braços para me receber. Senti-me forte e atirei-me para o amor que ali me entregavas. ‘Sim! Sim!’, gritei até ficar sem voz. Chorei. Choraste. Chorámos. E, no meio de todas aquelas lágrimas, puseste o tão desejado anel no meu dedo.

DOIS ANOS DEPOIS

    “Querido, já é a terceira vez que este Anónimo te está a ligar!”, gritei da cozinha.
    “Atende, então!”, berrou-me ele da casa-de-banho.
    Peguei no telemóvel e atendi o insistente.
    “Estou sim?”, convidei, esperando alguma voz de um qualquer funcionário de um call-center, a querer receber comissão.
    “Estava a ver que nunca mais, amorzinho! Estou fartinha de te ligar! Onde é que andas?”

    Uma voz feminina. O meu coração congelou. E as lágrimas caíram...»

"Came in from a rainy Thursday
On the avenue
Thought I heard you talking softly

I turned on the lights, the TV
And the radio
Still I can't escape the ghost of you

What has happened to it all?
Crazy, some'd say
Where is the life that I recognize?
Gone away

But I won't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

Passion or coincidence
Once prompted you to say
"Pride will tear us both apart"
Well now pride's gone out the window
Cross the rooftops
Run away
Left me in the vacuum of my heart

What is happening to me?
Crazy, some'd say
Where is my friend when I need you most?
Gone away

But I won't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

Papers in the roadside
Tell of suffering and greed
Here today, forgot tomorrow
Ooh, here besides the news
Of holy war and holy need
Ours is just a little sorrowed talk

And I don't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

Every one
Is my world, I will learn to survive
Any one
Is my world, I will learn to survive
Any one
Is my world
Every one
Is my world"