«Tranquei a porta da casa-de-banho e
enfiei-me debaixo do lavatório, encolhida. Com as mãos a puxarem o cabelo. A
chorar. Outra vez. Ouvi a porta de madeira da entrada a bater com força, prova
da saída do meu namorado, para espairecer. Chorei. Chorei outra vez. Gritei,
chorei, berrei, calei-me. A soluçar, escapei do meu esconderijo. Saí da
casa-de-banho e arranquei o telemóvel da carga, no corredor. Voltei para o
cubículo onde me autodestruía e liguei para a minha melhor amiga. Assim que ela
atendeu, a avalanche aconteceu uma vez mais. Quando os soluços a pararam,
ouvi-a do lado de lá da linha.
“Voltaste a dizer que não?”
“Sim...”
“E voltaste a dizer que ele não iria gostar
sempre de ti e um dia se ia fartar e que não aguentavas magoá-lo fosse de que
maneira fosse?”
“Sim...”
“Ai, Tânia... Amiga, quantas vezes é que
ele já te pediu em casamento e tu continuas a dizer que não, quando,
claramente, queres dizer que sim? Tens de entender que ele te ama incondicionalmente
e não te vai deixar mal. Se ele confia em ti, porque é que teimas em não
confiar em ti mesma?”
“Tu sabes bem porquê!”
Voltei a gritar, a puxar o cabelo, a chorar
com a voz, com os olhos, com o corpo. Voltei a desabar, sem que nada me
parasse. A minha melhor amiga esperou-me, pacientemente.
“Fala com ele, Tânia. Abre-te para ele. Ele
vai estar sempre lá para ti. Entrega-te antes que seja tarde demais...”
Parei de soluçar. A voz dela surgiu-me como
uma luz ao fundo do túnel. As suas palavras encorajaram-me a dizer ‘sim’. Ela
compreendeu o meu silêncio. “Boa sorte” foi a última coisa que murmurou antes
de me desligar a chamada. Levantei-me com rapidez. Virei-me para o grande espelho
do lavatório. O meu olhar decidido invadiu aquela superfície sem piedade e,
como uma epidemia, alastrou-se a todo o meu corpo sem dó.
Enfiei o telemóvel no bolso, caminhei até
ao bengaleiro, vesti o casaco de Primavera, calcei os sapatos de corrida e
inspirei bem fundo antes de abrir a porta de entrada. Bati com a porta quando
me lancei para a rua, envolta numa escuridão agradável. Comecei a correr
instantaneamente. Eu sabia para onde ele tinha ido. Aquele carvalho velho no
parque de cães estaria neste momento habitado pelo meu David, que provavelmente
estaria sentado com a cabeça encostada a ele, sussurrando-lhe as suas
angústias, as nossas angústias.
O meu destino parecia nunca mais chegar. Dos
meus olhos, lágrimas incertas escorriam como se o amanhã nunca mais surgisse.
Nos meus pensamentos, as memórias destes momentos repetiam-se e as memórias
evocadas nesses momentos também. O medo de ser magoada, de perder a confiança,
de nunca confiar, de não me saber entregar... O medo, simplesmente, o medo,
fazia estremecer todo o meu mundo. E o meu medo em confiar no meu David estava
a arruinar a nossa relação. Oito anos e aquelas três letras nunca me saíam dos
lábios. Eu cantava-las, dançava-las, gritava-las no meu coração. Mas, daí,
nunca escapavam, nunca fugiam, nunca se expunham ao mundo. O meu destino
parecia nunca mais chegar.
As
brigas, as gargalhadas, os silêncios, tudo ecoava na minha mente a uma
velocidade vertiginosa, ao passo que as minhas pernas pareciam atrasar-me. O
teu cabelo comprido, o teu rosto largo, o teu peito coberto, aqueles calções de
Inverno. E as lágrimas caíam...
Aquela bebedeira de Sexta à noite, aquela
festa durante a semana que nos arruinou o quarto, a ressaca de Domingo, a
avaria no meio do nada, com trinta e nove graus à sombra. E as lágrimas caíam...
A tua tia, a minha mãe, a tua ex, o meu. O
primeiro quarto, o primeiro apartamento, a única vivenda, o segundo apartamento.
A tua camisa nos meus ombros, os meus collants
nas tuas pernas peludas, o teu peito como almofada, o meu colo como divã. E as
lágrimas caíam...
O meu destino presenteava-se mesmo diante
dos meus olhos. Vi-te como te imaginei. Como se me sentisses, levantaste a
cabeça e desviaste o teu olhar doce na minha direcção. Gritei o teu nome e
corri para ti sem misericórdia. Tu elevaste-te e abriste os braços para me
receber. Senti-me forte e atirei-me para o amor que ali me entregavas. ‘Sim!
Sim!’, gritei até ficar sem voz. Chorei. Choraste. Chorámos. E, no meio de
todas aquelas lágrimas, puseste o tão desejado anel no meu dedo.
DOIS ANOS DEPOIS
“Querido,
já é a terceira vez que este Anónimo te está a ligar!”, gritei da cozinha.
“Atende, então!”, berrou-me ele da
casa-de-banho.
Peguei no telemóvel e atendi o insistente.
“Estou sim?”, convidei, esperando alguma
voz de um qualquer funcionário de um call-center,
a querer receber comissão.
“Estava a ver que nunca mais, amorzinho!
Estou fartinha de te ligar! Onde é que andas?”
Uma voz feminina. O meu coração congelou. E
as lágrimas caíram...»
"Came in from a rainy Thursday
On the avenue
Thought I heard you talking softly
I turned on the lights, the TV
And the radio
Still I can't escape the ghost of you
What has happened to it all?
Crazy, some'd say
Where is the life that I recognize?
Gone away
But I won't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive
Passion or coincidence
Once prompted you to say
"Pride will tear us both apart"
Well now pride's gone out the window
Cross the rooftops
Run away
Left me in the vacuum of my heart
What is happening to me?
Crazy, some'd say
Where is my friend when I need you most?
Gone away
But I won't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive
Papers in the roadside
Tell of suffering and greed
Here today, forgot tomorrow
Ooh, here besides the news
Of holy war and holy need
Ours is just a little sorrowed talk
And I don't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive
Every one
Is my world, I will learn to survive
Any one
Is my world, I will learn to survive
Any one
Is my world
Every one
Is my world"