A bagagem pesa. Arrasto-a mais uns quilómetros; o tapete
rolante não acaba, mas eu sei que ele é finito. Haverá um terminal, onde posso
pesar a bagagem e admitir tudo o que comigo carrego e tudo aquilo que nunca
carreguei. Um terminal onde deixarei por escrito tudo aquilo que nunca irei
carregar. A bagagem pesa, mas a balança não acusa. É pó, é ilusão; essa bagagem
não existe para mais ninguém; apenas eu consigo confirmar o embarque da tão
pesada mala. A bagagem pesa. Arrasto o trolley sempre na mesma direcção:
em frente. Porque para a frente é que é o caminho, diz o povo. A minha frente é
lenta, o meu avanço é tímido. Não vejo nada; só sinto o peso da bagagem, puxando-me
no sentido contrário, puxando-me para tudo o que já fui, puxando-me para um eu
de outrora.
A bagagem pesa, mas o mundo não pára. Não pára, por enquanto;
sei-o, e sei-o melhor que ninguém. Eu vou entrar nesse barco, e vou entrar com
a minha bagagem, a minha bagagem que pesa. E a porta vai-se fechar e eu sei que
o mundo vai parar a qualquer momento. Atravesso a porta; levo a bagagem. O
mundo segue caminho; eu espero pelo fecho da porta. O mundo continua a passear.
A porta fecha-se. Paro; fico em silêncio; sou só eu e a minha bagagem, a minha
pesada bagagem. E espero; espero com a mala pela mão, pousada nas suas quatro
ridículas rodinhas minúsculas. Espero. E continuo a esperar. E a espera
torna-se interminável. Afinal, talvez o mundo não pare. Encolho os ombros;
tento seguir viagem.
A bagagem pesa; é cada vez mais pesada. Mas eu vou no barco;
porque pesa então a bagagem? O mundo não parou; porque pesa então a bagagem? As
dúvidas instalam-se, mas eu sigo caminho. O primeiro sinal acontece: uma das
quatro rodinhas rebenta; como se isso fosse minimamente possível. Mas acontece.
Paro. Pouso a minha mala. Olho, incrédula, para a peça que falta. O mundo pára.
Será agora? Não. Ainda consigo arrastar o trolley. O mundo retoma o
caminho, impávido para com o meu choque. Não sinto diferença alguma, excepto o
facto de ser mais difícil equilibrar e arrastar a mala. Mas o caminho faz-se
bem; e ela não me perturba o caminhar. Sigo, rapidamente recomposta do
minúsculo percalço. A bagagem pesa. As três rodinhas ajudam-me a carregá-la. É
pouco, mas basta. Não gosto de perder nada da minha vida, então, guardo, na
minha mala, a rodinha que se partiu.
A bagagem pesa, mas a rodinha não estorva. Inconscientemente, tudo
está diferente. Mudo? Não, não preciso de mudar. Tudo segue nos conformes. Mais
uns metros. Outra explosão. Menos outra roda. Paro, perplexa; tudo aparenta
estar igual, mas, de repente, o peso da minha bagagem aumenta; e eu ainda não
tinha arrumado a segunda rodinha que se soltara. Agora, não parece ser só a
bagagem que pesa; agora, também os meus pés pesam. Abano a cabeça, negando as
evidências. Tudo está igual, repito. Um pé atrás do outro e sigo caminho; mais
uns metros por aquele corredor de um barco em movimento. E o espaço vai ficando
apertado, mas não me importo; não me incomoda, esse aperto que pouco me sufoca.
A bagagem pesa e parece ser cada vez mais difícil arrastá-la
com segurança. A sua caminhada parece confusa, mas segue sempre na mesma
direcção. A bagagem pesa, os pés pesam, as pernas pesam. Sem me dar conta,
carrego mais do que pensava; mas carrego. Vou andando, com calma, serena como a
água que abraça este chão que piso com pouca confiança. Nunca vejo ninguém pelo
caminho; estou sempre sozinha. Sozinha; nunca só. Arrasto o meu corpo e a
pesada bagagem mais do que ponderara conseguir, até a terceira rodinha se
escapulir do grande objecto que carrego. Parei, sem reacção; restava-me apenas
uma roda, uma única roda que, supostamente, deveria ajudar-me a transportar
aquele peso. Agora, os meus ombros recusavam-me o indispensável auxílio para
percorrer o resto daquele corredor. Eu sentia o meu destino próximo; não seria agora
que iria desistir.
Com uma roda apenas, a mala revelava-se difícil de conduzir;
sempre que eu a endireitava, ela tombava ou avançada numa rota desgovernada,
com impetuosidade. E o meu corpo, acusando o cansaço, começava a deixar de
colaborar. Revoltei-me contra o pesado objecto; lá arranjei uma fórmula
misteriosa para continuar a caminhar sem parar constantemente para compor tudo
o que se descompunha; mas era difícil, muito difícil, muito mais difícil do que
aquilo que imaginei que fosse. Agora, além da bagagem, dos pés, das pernas, dos
ombros, também o meu coração pesava. E pesava ainda mais do que tudo o resto
junto. Caminhar tornou-se rastejar; respirar transformou-se numa tortura
incessante; chegar ao meu destino, atingir o final daquele corredor, fazer a
tão bela viagem, pareceu-me objecto de uma ponderação poderosa. Valeria mesmo a
pena carregar-me até essa meta?
Num piscar de olhos, a rodinha que sobrevivera a todas as
peripécias, finalmente, soltou-se. Parei, apática. Tinham-se acabado as rodas.
Tinham-se acabado os apoios. Tinham-se acabado as vontades de puxar tão pesada
bagagem. Tinha-se tudo acabado. Sem aviso prévio, encontro uma porta lateral;
seria um atalho? Talvez valesse a pena, então, continuar aquele percurso. Abri
a porta, símbolo da alternativa a um destino longínquo.
Pela primeira vez, vi cor, depois de tanta monocromia que
emanava daquele corredor. Mas aquela cor não me parecia autêntica. Havia
qualquer coisa que me impelia para ela, mas algo mais que fazia fugir. Não
sentia nada: nem peso no peito, nos ombros, nas pernas, nos pés; nem um peso de
uma bagagem carregada, partida, desfeita. Olhei o corredor; o seu silêncio
assustava-me. Olhei a porta aberta; a cor seduzia-me. A escolha deveria ser
óbvia: iria entrar naquela porta. Mas a bagagem não andava; tinham-se acabado
as rodas. Aquela alternativa seria a única saída; não me interessava onde ia
dar o corredor, aquela porta era a saída. Mas a bagagem não andava.
Então, tomei a mais importante decisão até àquele momento: pousar a bagagem do
lado de lá da porta. Enchi-me de coragem, inspirei todo o ar que me envolvia.
Sentia todas as gramas do meu corpo a flutuarem. E, então, a bagagem foi-se.
Virei a cabeça em direcção ao corredor; de volta ao barco. Dei
o primeiro passo. A bagagem já não pesa. A liberdade começa.
"Seems that I have been held, in some dreaming state
A tourist in the waking world, never quite awake
No kiss, no gentle word could wake me from this slumber
Until I realize that it was you who held me under
Felt it in my fists, in my feet, in the hollows of my eyelids
Shaking through my skull, through my spine and down through my ribs
No more dreaming of the dead as if death itself was undone
No more calling like a crow for a boy, for a body in the garden
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love with the wrong world
And I could hear the thunder and see the lightning crack
All around the world was waking, I never could go back
Cause all the walls of dreaming, they were torn wide open
And finally it seemed that the spell was broken
And all my bones began to shake, my eyes flew open
And all my bones began to shake, my eyes flew open
No more dreaming of the dead as if death itself was undone
No more calling like a crow for a boy, for a body in the garden
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love with the wrong world
Snow White's stitching up your circuit-boards
Synapse slipping through the hidden door
Snow White's stitching up your circuit-board
No more dreaming of the dead as if death itself was undone
No more calling like a crow for a boy, for a body in the garden
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love, so in love
No more dreaming like a girl so in love with the wrong world
Snow White's stitching up your circuit-boards
Synapse slipping through the hidden door
Snow White's stitching up your circuit-board
Synapse slipping through the hidden door"