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quinta-feira, 23 de maio de 2019

"Yellow", Coldplay

A felicidade é contagiante. Emane de quem emanar, atinja quem atingir; ninguém lhe fica indiferente. Torna-nos mais poderosos, faz-nos querer ser melhores. Atira-nos para um mundo de inibições emocionais, obrigando-nos a largar as algemas e a partilhar insistentemente aquele sorriso luminoso, de orelha a orelha. Os olhos brilham e o mundo parece girar com outras cores; tudo é luz. O coração brota como um fogo amigo, o sangue viaja com mais calor, a vida no peito fica mais quente. Os ossos amaciam, como se a pele delicada os beijasse. De repente, parecemos amor personificado; como se a felicidade fosse amor. Sabemos que não é aquele género de amor romântico – é apenas um dos amores mais puros – mas a emoção é muito parecida. As pétalas de rosa ganham outro cheiro e a calma de um verde-relva invade-nos a mente. A música atinge outro tom e deixamos de querer saber de tudo o resto.

Esta felicidade contagiante não finita, nunca. Qualquer coisa parece relembrá-la, mesmo quando já não a sentimos ao primeiro toque. Ela partilha-se e, por isso, anda sempre por aí. Desta felicidade, faz parte o estar feliz pelo outro. É essa a felicidade contagiante: ser feliz porque a outra pessoa está feliz. E nunca interessa quem: se um estranho, se um amigo, se a nossa cara-metade. Está-se feliz porque o outro está feliz, e isso basta para se manter assim.

Este género de felicidade faz com que achemos que iremos superar todos os nossos obstáculos, que as impossibilidades são apenas palavras, e que nada no mundo pode parar aquilo que estamos a sentir. Temos coragem. Pela primeira vez, temos coragem para seguir em frente, para avançar por certo caminho, para chegar a um destino há muito desejado. Pela primeira vez, somos invencíveis e queremos que os outros o sejam connosco. Temos vontades expressas de querer ser diferente, de querer ser melhor, de querer ser o que se se sente ser. Queremos expulsar a verdade sobre aquilo que somos e gritar ao mundo que seremos isso mesmo.

É isto que sinto quando olho para ti: uma felicidade contagiante, um momento eterno que parece sedimentar uma revolução emocional. Para mim, és luz negra misturada com todas as cores que existem neste mundo cinzento. Um espírito selvagem num corpo muito mal domesticado; a tua essência entusiasma-me de uma forma surpreendente e a surpresa é aquele género que pontilha todo o positivismo que em ti carregas. És diferente do normal de uma forma difícil de definir. E a felicidade nos teus olhos, mesmo quando tristes, é algo que me faz sentir feliz.

Infelizmente, e como parece ser costume, esta minha felicidade está a evoluir para algo mais, corporizando-se naquilo que eu há muito sinto por ti, mas que nunca tive oportunidade para o expressar, muito menos agora que estás só. E isto é perigoso. É-lo por várias razões, demasiado óbvias: primeiro, por que tu tens que fazer o luto, sozinho; depois, por que só me verás como uma amiga, e eu estou cansada de ser incorrespondida como algo mais. Tudo fica à beira da catástrofe quando percebo que, mais do que perigoso, este sentimento é traiçoeiro e vai-me enganar novamente.

Como sempre, um momento de felicidade contigo começa por ser melancólico ou apenas sincero; começamos pela negativa e crescemos, um ao lado do outro, um com o outro, um para o outro, para sentimentos mais divertidos, atingindo a felicidade em simultâneo, como uma gargalhada suave quase inaudível. Há um fio de cabelo nessa felicidade que, para mim, é muito mais do que um momento feliz. É um abraçar-te junto ao peito, oferecendo-te consolo e, ao mesmo tempo, procurando consolo nos teus grandes olhos; um primeiro passo na construção de uma relação futura. É esse fio que sempre me arruína a vida.

Sigo-te com o olhar, tento sentir o calor da tua pele, observo os teus gestos, detenho-me no teu peito, nas tuas costas, no teu rosto; procuro o teu nome, a tua presença; anseio pela tua companhia, mesmo que silenciosa; a tua silhueta é a forma do meu irremediável desejo; espero por ti como quem espera pelo Sol. Tudo isto de forma involuntária. De repente, dou por mim a pensar, a sentir tudo isto, de uma maneira natural, sempre tão fora de tempo. Sei sempre como começa e tenho sempre certezas sobre como acaba; mas nunca consigo evitar. Uma e outra vez, digo “nunca mais”; mas acabo sempre por cair nesta teia de emoções. E é sempre quando menos deveria ser...

Começo a perceber-me da gravidade da situação quando sei que já não controlo as minhas acções, os meus anseios, os meus pensamentos. Estou a cair; mas ainda demoro a chegar ao fundo. Estou a aproveitar-me da tua situação, da tua procura pela minha confiança cega, pela minha maneira de te ouvir e de te perceber; o meu peito começa a substituir a amizade por outra emoção mais forte. Como um idiota que não aprende com os erros, o meu coração não é capaz de se conter na explosão de emoções que começa a sentir. (Os problemas que ficaram por resolver na infância e adolescência, de facto, destroem-me a vida adulta).

Já sei onde este caminho, que ainda agora principiei, me vai levar. Os reinos mudam, mas os trilhos são sempre os mesmos. Primeiro, vamos tornar-nos próximos, como já está a acontecer. Vais começar a confiar mais em mim, vais incluir-me no teu círculo de confiança, buscando o meu ombro, os meus ouvidos, as minhas opiniões. Vais permitir-me uma aproximação diferente do que é normal. Eu estarei sempre lá para ti; primeiro erro dos inúmeros que irei cometer neste caminho. Vou aproximar-me de ti e dar cada vez mais de mim, criando aquele tipo de ligação que, mais tarde, me irá fragmentar; mas estarei lá, com um sorriso.

Depois, essa ligação vai crescendo; vamos passar a falar mais vezes, a estar mais tempo juntos, a consolidar uma amizade especial. Eu vou-me enterrar nesse sentimento, levar tudo isso, e mais, a peito, prender-me ao teu espírito como se eu fosse o teu pilar-base. Entrelaçar-me-ei numa espiral emocional que nunca irás preencher. Por que tu vais ficar por ali, naquela amizade especial; mas a minha escalada nunca vai parar de subir. Essa amizade, para mim, continuará a evoluir para algo mais e, aí, já não irás corresponder.

É então que surge a dor, o peito magoado, o coração partido. E isto vai arrastar-se, pelo facto de eu não te querer abandonar por causa do que sinto; quero continuar a corresponder às tuas expectativas, quero manter-me no teu círculo íntimo. O penoso caminhar continuará existindo até eu perceber que o meu mundo começa a ficar confuso para ti. E, aí, afastar-me-ei. Não por que não tenho vontade de estar junto a ti, não por que não te quero sentir junto a mim, mas sim por que tu te vais aperceber do meu sofrimento. Mas eu não quero que recues, por isso, recuo eu. Prefiro ser aquela que se afasta quando tu estiveres melhor do que aquela que te fará sentir culpado por estares bem com a vida. Não quero que te envolvas nos meus sentimentos tristes, para resumir de forma simples toda a rejeição, dor no peito e infelicidade geral.

Quero que sejas feliz; e, se para isso, eu tiver que sair do cenário, fá-lo-ei com certezas e sem medos. Por que o que eu mais quero é que sejas feliz, estando ou não estando a meu lado. Portanto, se, para tu continuares feliz, eu tiver que procurar a felicidade noutro lado, irei fazê-lo com toda a naturalidade. Por que não é com o sofrimento que eu não sei lidar; é com a felicidade...

"Look at the stars
Look how they shine for you
And everything you do
Yeah, they were all yellow

I came along
I wrote a song for you
And all the things you do
And it was called "Yellow. "

So then I took my turn
Oh what a thing to've done
And it was all yellow

Your skin
Oh yeah, your skin and bones
Turn into something beautiful
Do you know?
You know I love you so
You know I love you so

I swam across
I jumped across for you
Oh what a thing to do
'Cause you were all yellow

I drew a line
I drew a line for you
Oh what a thing to do
And it was all yellow

Your skin
Oh yeah your skin and bones
Turn into something beautiful
You know
For you I'd bleed myself dry
For you I'd bleed myself dry

It's true, look how they shine for you
Look how they shine for you
Look how they shine for
Look how they shine for you
Look how they shine for you
Look how they shine

Look at the stars
Look how they shine for you
And all the things that you do"

"Someone That Cannot Love", David Fonseca


Esbocei um sorriso triste, libertando as lágrimas num suspiro profundo. Pareceu-me vê-las correr pelo ar frio, sob a mesa parcialmente vazia, como borboletas. Com os olhos secos e de coração apertado, levantei-me devagar. O peso do meu corpo morto excedia as minhas expectativas. As palavras sacudiam-me o cabelo, como se o afagassem. O amor esmagava-me os ossos, corroía-me a mente e queimava-me o peito. Como é que amar podia doer tanto?

Caminhei-me pela rotina como se flutuasse; tudo era automático e eu não tinha controlo sobre as minhas carnes. Peguei num copo vazio, enchi-o de água e voltei a sentar-me na minha mesa predilecta. O café parecia mais cheio que o normal. Havia pessoas novas também. Outrora, a minha personalidade curiosa teria permanecido a observá-las durante alguns minutos, procurando os laços nas suas conversas e desvendando os seus olhares penetrantes. Hoje, tal como ontem, a curiosidade era apenas uma palavra. Como tantas outras, a sua essência compunha-se de letras, não de sentimentos. Estava mal de amores e as palavras, agora, eram só palavras.

Perscrutei o ecrã do meu objecto de trabalho. A página em branco permanecia intocável no meu computador. O meu ganha-pão era escrever; se ainda não o fizera, a minha fonte de sobrevivência esgotar-se-ia depressa. Sou escritora e não consigo escrever. Escrevo com o coração e, quando o coração não quer, as mãos não escrevem, a obra não nasce.

O peito magoava-me; amar doía-me como nunca doera. A dor era tanta que era como se o meu coração tivesse sido esmagado por uma rosa de vidro, espetando infinitos estilhaços num órgão que tanto idolatro. Sabia-o de cor, amava-o com todas as minhas forças e, mesmo assim, isso não chegava. Ele não me queria. Até agora, ser incorrespondida era a forma mais dolorosa que eu conhecera de ser magoada. Apenas as palavras me consolavam. Apenas o meu trabalho, o meu trabalho de sonho que poderia ser simplesmente chamado de «prazer remunerado», era aquilo que me fazia seguir em frente. Mas, hoje, essa força de vontade que me impelia a escrever, a trabalhar, em suma, a viver, parecia estar a esgotar-se.

Dei mais um gole no café expresso, o terceiro antes do almoço, que repousava no canto direito da mesa, junto à janela. O sininho da porta de entrada deu sinal aquando da entrada de um jovem casal, claramente apaixonado, que se sentou na mesa junto à minha, mesmo à minha frente. Decidi que iriam ser eles a minha fonte de inspiração para o trabalho de hoje. A forma como comunicavam um com o outro sem emitir qualquer som, naqueles dez segundos que demoraram a fazer o pedido, chamou-me à atenção. Discretamente, aconcheguei-me no assento, inclinando-me para a janela e reposicionando o computador, para poder observar os seus torsos encherem-se de ar, as suas mãos caminharem uma na outra sob a mesa e os seus sorrisos explodirem pelo ar.

À medida que esperavam, falavam um com o outro, mas também conversavam com os olhos. Quase conseguia ver as suas frases traduzidas nos cantos de cada sorriso. Ela estava de frente para mim e parecia eu há uma semana. Os olhos brilhantes, os lábios num sorriso constante que nunca diminuía, as covas do rosto tão acentuadas que deixavam rugas. O amor transbordava daquela face ruborizada. O seu riso ecoava pelas paredes de tecto alto do estabelecimento e obrigava os restantes clientes a lançarem diversos tipos de olhares na sua direcção. Era interessante reparar como é que as pessoas reinterpretavam as gargalhadas quando se apercebiam do contexto em que elas eram emanadas. Fui tirando notas de todas as suas atitudes, tanto das espontâneas como das claramente planeadas. Ditei-a como um todo para as minhas páginas de trabalho. Agora, queria-o a ele.

Pedi a um dos empregados um «reservado» para pôr na minha mesa. Frequentadora do espaço há vários anos, ele não hesitou em dar-ma. Conheciam-me como família, ali. Por isso, não estranharam quando reservei a minha mesa e me mudei momentaneamente para outra, apenas com a minha ferramenta de trabalho. A mesa que se encontrava a duas medidas a seguir à do casal estava livre e foi aí que assentei para retratar o homem da relação que me prendera o espectro. Muito diferente daquele que hoje me magoava, aquele traduzia os sentimentos da mulher que o acompanhava, exacerbando-os à sua medida, correspondendo às suas emoções como quem se vê ao espelho.

Imaginei-o meu e logo sacudi esse pensamento. Era óbvio que ele nunca seria meu, por isso deixei essa esperança morrer. Mas intrigava-me aquela relação; queria saber mais sobre como eles tinham começado, queria conhecer a sua história. Mais uma vez, seriam as palavras a pintar-me um cenário que eu não tinha. Precisava disso; precisava de ouvir uma boa história, uma história feliz, para conseguir chegar ao fim do dia. Sentia-me compelida a interrogá-los e extrair a sua narrativa como se de veneno se tratasse. As minhas necessidades emocionais estavam a atingir um ponto de ruptura que me faria ultrapassar o limite.

Estava prestes a pisar o risco quando o beijo que vi acontecer me paralisou. Não havia palavras naquele gesto, mas, sem saber como, elas detiveram-me. Por instantes, o meu mundo parou. Mas apenas o meu; o deles prosseguiu de forma extraordinariamente natural, assim como o do estabelecimento. Os empregados continuavam a rodopiar entre as mesas, fazendo dançar as chávenas e pratos que carregavam com elegância. Lá fora, os carros passavam sem parar, e as pessoas corriam para as suas rotinas. Mas o meu mundo estagnara. Fixei o vazio com o olhar, bloqueando a mente, olvidando todo o género de pensamentos positivos.

O que é que é suposto fazermos quando temos tanto para dar e ninguém para o receber? O que é suposto fazermos quando tudo aquilo que temos dentro de nós cresce sem misericórdia? O que é que é suposto fazermos quando o amor, o carinho, a amizade, a confiança, o respeito e a vontade de estar com outro suplantam a racionalidade, transbordando do peito, sem ninguém para os tomar de braços abertos, pelo menos não da forma que queremos? É isto que é ser incorrespondido: ter tudo para dar, mas nada para receber de volta? É transbordar de emoções, que não conseguimos conter, mas ter que o fazer, porque a outra pessoa não as vai aceitar de volta? O que é que é suposto fazermos com isto tudo, engolir e calar? Reprimir? Fingir que não estão lá? Como é que é suposto fazermos isso? Como é que é suposto eu fazer isso? Sinto-me vazia, com tanto para dar. Como é que é possível, ter tanto, sentir tanto e, ao mesmo tempo, sentir nada pelo tanto que tenho?

O tiritar de uma colher de café que esbracejou para debaixo da minha mesa resgatou-me do naufrágio psíquico em que eu me enterrara. Senti-me agitada, como se algo me tivesse derrubado ou atropelado. Senti-me fora de mim. Por momentos, nem me apercebi do local onde estava. Um dos empregados deu-me uma cotovelada, acompanhada de um sorriso e de um «então, fez-se luz?». Lancei-lhe um sorriso rápido de volta e acrescentei para mim mesma: «não, a luz foi-se». Tinha caído na realidade. Estava a observar dois estranhos num encontro e estava a desejar que um deles fosse aquele par que eu queria ter, mas que não me queria a mim.

Olhei para o meu trabalho. Estava feito. Sem saber muito bem como, escrevera umas cinco páginas sobre uma felicidade que não sentia. Cinco páginas recheadas de palavras que, agora, me pareciam atacar e destruir. Palavras que trouxeram à superfície a imagem do meu objecto do desejo. Repentinamente, o meu coração fechou-se. Como fumo, a luz sumiu-se. E então, as palavras deixaram de servir...

"You locked up your heart
You wake up with tears and stars in your eyes
You gave it all to someone that
Cannot love you back

Your days are packed
With wishes and hopes for the love that you've got
You waste it all to someone that
Cannot love you back

Someone that cannot love

Love, ain't this enough
You push yourself down
You try to take confort in words
But words
They cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more

You secretly made
Castles of sand that you hide in the shade
But you cannot hold the tides that break them
And you build them all over again

You talk all these words
You make conversations that cannot be heard
How long until you notice that
No one is answering back

Someone that cannot love

Love, ain't this enough
You push yourself down
You try to take comfort in words
But words
They cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more

Love, love, ain't this enough
Pushing around
You try to take comfort in words
But words
Well they cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more

Someone that cannot love

Someone that cannot love
Someone that cannot love

Love, ain't this enough
You push yourself down
You try to take comfort in words
But words
They cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more

Love, love, ain't this enough
Pushing around
To find little comfort in words
But words
Well they cannot love
Don't waste them like that
Cus they'll bruise you more

You know they'll bruise you more
Words they will hurt you more
Words they will hurt you more

Yes they'll bruise you
Someone that cannot love
Someone that cannot love"