Querida amiga,
Antes do bom, o mau: vou tentar afastar-te como ninguém, apesar de nunca me largares.
É esse um dos maiores buracos negros que se prendem no meu peito. Será esse que provavelmente verás primeiro que todos os outros. Será esse que te iludirá primordialmente, como se nem o visses chegar. Aliás, no princípio, nem te vais aperceber que ele lá está, que ele me vai sugar, que ele te vai arrastar para terra firme e abandonar-me em alto mar, rodeada dos desperdícios de carinho e das migalhas de amor a que estou já habituada. Vou tentar afastar-te como se essa fosse a única forma de te salvar da ilusão que sou eu, como se essa fosse a única maneira de me proteger de tudo o que poderia correr mal. Vou afastar-te e esse será o primeiro passo para sabotar a nossa relação.
Depois, sempre que tentares forçar a entrada nesse terceiro quarto do grande palácio que é o meu coração, vou magoar a tua essência, vou rasgar-te as feridas, vou despedaçar-te o coração. Tornar-me-ei na tua pior desilusão, o teu maior desgosto, aquela alma que nunca perdoarias e não mais deixarias entrar. Tornar-me-ei no teu último objecto de ódio.
Tenho consciência do estado em que tu ficarias, assim como a tenho do meu próprio destino. Mas será que tu terás consciência de tudo isto? A tua sabedoria tem anos, mas há manhas que nem um ancião dissecaria lá do alto dos seus milénios. Os teus «porquês» ficariam no fim, meio perdidos entre a raiva e o desespero. Só os notarias quando tivesses ultrapassado tudo, tarde demais para tomar qualquer atitude.
Mas deixa que te responda já a todos os teus futuros «porquês».
Este meu buraco negro vai acordando e adormecendo, numa dança intermitente que se dissipa tão depressa quanto nasce. Ele só acordará definitivamente quando estivermos no nosso auge, quando a nossa amizade estiver mesmo a chegar àquele ponto de não-retorno, quando tivermos uma ligação extraordinariamente profunda, quando formos apenas uma. Será na nossa melhor fase que as minhas defesas me vão atraiçoar. Será aí que as minhas paredes se irão reerguer num ímpeto e com uma força imbatível, como se tivessem nascido de novo. Será aí que eu vou questionar absolutamente tudo e vai ser nesse momento que a minha experiência de vida me vai arruinar novamente. Sabotarei tudo o que construímos e fá-lo-ei por que, no meu âmago, a voz da infância grita-me que nunca serei feliz e que, se o sou agora, é por erro do Fado que me pintaram. Pior: ela berra-me que foi tudo mentira e que, na realidade, nunca tu quiseste os meus laços, aqueles que eu tão bem trato, aqueles que eu tão bem faço para proteger. Acredita: será a nossa morte.
Habituei-me a ver o céu azul como uma farsa. Cresci a ouvir que os pássaros cantam porque viver dói e não porque a vida é bela. Acostumei-me à desgraça, ao romper de laços, à malformação do meu castelo da afectividade, ao desmerecimento de qualquer quadro positivo na minha linha cronológica. Aprendi que quando tudo corre bem, algo de mau está para acontecer; algo que destruirá o meu peito, uma e outra vez. Por isso, para não me magoar uma e outra vez, aprendi a defender-me: não sentir, impedir que os outros entrem, andar sempre com um pé atrás, como se os telhados sobre mim fossem de palha, como se o chão que piso fosse nada. Saboto as coisas boas porque não sei lidar com elas. Já escrevi uma vez e reescrevo com as mesmas letras: «Por que não é com o sofrimento que eu não sei lidar; é com a felicidade». É o príncipe dos meus demónios, a sabotagem. Combato-o há demasiado tempo para não reconhecer cada passo que ele irá dar até conquistar o que sobra do meu reino.
Mas não te deixes intimidar, por favor. Não deixes que os meus demónios te afastem de mim, que te verguem como a mim o fizeram. Por favor, sê forte! Forte por ti e por mim. Forte pelas duas. Porque eu não consigo fazer isto sozinha e sei que tu queres acompanhar-me nesta viagem. Tu mais do que ninguém.
Por isso, conto-te agora os bons: ser-te-ei leal, da mesma forma que o és para mim, da mesma forma que o serás para mim.
Por que eu agarro e não solto. Não sou de largar. Não sou de me ficar pela metade; por isso, vou querer dar-te tudo o que tenho e tudo o que não tenho. Dar-te-ei o meu tempo, o meu coração, a minha essência. Ser-te-ei leal, tão leal que até estranharás. Estarei do teu lado quando menos esperares e deixar-te-ei ir quando precisares. Impedir-te-ei de cair quando estiveres perto do abismo, mas deixar-te-ei senti-lo, porque caminhar no fim da linha alimenta a nossa vontade de viver. Roubar-te-ei o ruído de fundo e ajudar-te-ei a ver o Sol como se as nuvens nunca tivessem existido. Ser-te-ei leal, tal como a tua alma mo pediu desde o primeiro dia. E talvez eu ainda não entenda na totalidade o teu humor, talvez eu ainda não decifre facilmente os teus olhares, talvez eu ainda não tenha decorado os teus passos já vividos. Talvez eu ainda tenha muito para descobrir em ti, tal como tu tens para conquistar em mim. Mas uma coisa é certa: por tudo o que eu sou e por tudo aquilo que és, ser-te-ei leal até que me peças o contrário. Em suma, serei aquela chata que te chateia a um Domingo para me dares na cabeça. Porque isso faz parte de ti e tu fazes parte de mim.
Não nos percas pelo caminho.
Um beijo,
C.
"You may call it in this evening
But you've only lost the night
Present all your pretty feelings
May they comfort you tonight
And I'm climbing over something
And I'm running through these walls
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
Everything you're trying to say to me
I had the strangest feeling
Your world's not all it seems
So tired of misconceiving
What else this could've been
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
Everything you're trying to say to me
So open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind
Say something, say something
Something like you love me
Less you wanna move away
From the noise of this place
Well I don't even know if I believe
I don't even know if I believe
I don't even know if I wanna believe
Anything you're trying to say to me
So, open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind
So, open up my eyes
Tell me I'm alive
This is never gonna go our way
If I'm gonna have to guess what's on your mind"