Tenho parte da alma completamente despedaçada. E ela nunca mais cantou da mesma maneira. Porque nada é agora como era antes. São demasiados os estilhaços espalhados, esperando a esperança de dias melhores. Mas onde estão eles? Existem sequer? Para mim, são um mito urbano. Não sei e não conheço verdadeiramente o que são «dias melhores»; não sei que espécie de tempo é essa, tão rara, tão extinta. Mas as pessoas forçam-me a procurá-los. Parece que entrei num campo de tiro, à caça de gambozinos, como se a minha vida dependesse disso. Todavia, é tudo mentira, tudo uma ilusão que me querem enfiar pela goela abaixo as vezes que forem necessárias até que eu a repita sob a forma de palavras que tanto abomino ou como os silêncios tão característicos da minha nova condição. Não me enganem: a banda sonora da minha vida nunca mais será a mesma.
E eu nunca mais cantei da mesma maneira. Porque há canções que agora já não conheço, outras que não posso ouvir, umas que nem suporto dominar a sua existência, outras que me basta ler como um poema para o meu corpo personificar o meu coração e cair em minúsculos pedaços impossíveis de recolher; há sempre um bocado que fica pelo caminho, no chão, disperso, desprezado, desprendido e perdido da origem. Agora, tenho de ignorar determinadas faixas para continuar de pé, tenho de cancelar a repetição de outras para evitar atropelos no meu peito; outras têm de ser destruídas da minha memória, porque são demasiado dolorosas para ver uma e outra vez, indefinidamente, intensamente, eternamente. E gritam-me alguns para que não o faça. E respondo eu: a dor é minha, o arrependimento será meu; essas memórias, recuperá-las-ei quando o meu coração estiver de novo no sítio certo, com alguns dos seus fragmentos recuperados, colados com cuidado e de forma permanente. Porque não posso reviver todas as minhas nostalgias se não tiver um corrimão a que me possa agarrar enquanto desço por esse labirinto que me assusta; pelo menos, por agora. Porque o meu chão é feito de palavras e também elas me estão a falhar.
Não me neguem: as palavras nunca mais serão as mesmas. E existem umas muito peculiares que eu sei que não posso ouvir de ânimo leve, porque o meu mundo se desfia com uma violência física inimaginável. Nem de ânimo leve, nem com toda a seriedade que passeia pela mente de todos os indivíduos: há palavras que agora doem e que antes me enchiam de amor. Mas não são só as palavras em si.
As palavras são compostas por letras, mas também por tons de voz, cores, contextos, cheiros, mundos; as palavras são seres inanimados que se movem em cada gota do meu sangue e que me fazem provar vezes sem conta que a vida é tanta coisa junta que não bastam as palavras que inventámos até hoje para a descrever. E, agora, algumas delas atingem-me em cheio na frágil alma que agita o meu corpo; uma em particular. Uma palavra que me custa a ouvir quando vinda das falas de estranhos, da voz de uma criança no corredor das bolachas, da boca das vizinhas babadas, de seres humanos quase adultos que odeiam e amam ao mesmo tempo a dona daquela palavra. Uma palavra que, quando tem de sair dos meus lábios, me deixa com reacções contrárias, me desconcentra e confunde, me obriga a repensar todo um vocabulário, que faz querer recuar no tempo, me provoca uma enxurrada de emoções, tudo no único segundo que aquelas três letras demoram a existir no ar. Porque essa palavra, para mim, são demasiadas palavras juntas.
a-v-ó: Tem os olhos cinzentos como nunca vi, da mesma cor do cabelo, uma cor de outro planeta. A tez é escura, exibindo com um modesto orgulho as manchas que pontuam as faces. Não é muito grande, mas tem encolhido ao longo dos anos; talvez esse crescimento invertido tenha sido provocado pela quantidade de amor que lhe tem chovido nos ombros. Cheira a sabedoria, isso é certo. A sabedoria e a carinho, muito carinho, mas também a princípios, valores, ideais. Cheira a bem, porque o mal a gente espanta a cantar. E esse perfume também tem outros odores, a flores, acho; não sei bem o que é, mas gosto. Há sempre um colo e um ombro no meio de todo o caos que é a vida; e disso nunca há ruptura de stock.
a-v-ó: Há óculos que estão sempre desparecidos e colheres de pau que nunca foram usadas. «Para que é que eu preciso de mais uma? Já tenho tantas!». «Porque esta é simbólica. É de bambu. Não se estraga como essas. É como nós». Há abraços; raros, mas há. Há risos e muitos sorrisos. Há um sentido de humor imperial apesar de todas as merdas que aconteceram na vida. Há muito amor para dar e vender. Há roupas típicas, rotinas típicas, momentos típicos. Há também infâncias e adolescências fora do comum. Há cuidar de crianças numa zona provinciana, criá-las quase como suas, fazê-las crescer com a humildade tão característica daquele coração. Há uma contadora de histórias inveterada que nunca foi à escola. Tem a palete de cores completa e partilha-a comigo. Tem a mania de contrariar, teimar, não ceder, e a vontade de querer aprender, conhecer, estar presente. Tem os dois lados da mesma moeda, porque nada é só um. Tem as pernas curtas, mas um coração de longo alcance que surpreende. Tem arrependimentos mas também tem perdões.
a-v-ó: Tem tudo. É perfeito. Pretérito Perfeito.