“Desejo-te do fundo do meu ser há tanto tempo que já nem o consigo esconder das minhas páginas em branco. Desejo-te demasiado e preciso de expulsar este anseio antes que ele expluda e te atinja, devastando tudo à tua, à nossa, volta. Já não confio na minha boca para se manter fechada sobre este assunto. Preciso mesmo de escrever sobre isto, antes que te procure e to diga na cara; iria destruir-nos aos dois. Prefiro gritá-lo com todas as letras que mereces do que suprimi-lo até que se extinga. Mas, também, seria impossível extinguir-se; a atracção é tão forte que acho que nunca vou superar isto, nem quando já nem reconhecermos os nossos próprios corpos.
Não descanso
enquanto não me desfizer deste peso que carrego desde que te conheci. São
demasiados anos a sobreviver a um delicioso inferno cá dentro. A temperatura
está sempre demasiado alta quando me surges no pensamento e tudo o que era a minha
luz de salvação transformou-se num mar de ilusões voluptuosas em que me afogo
por vontade própria. Como se de repente, a minha cabeça deixasse de comandar o
meu corpo, o meu coração, para se entregar inteiramente à tua imagem divina,
abraçando-te como o meu mecenas, que me alimenta a todos os níveis.
O palácio para
onde me levas não deixa margem para dúvidas: eu sou feliz ali, em cada canto,
em cada quarto, porque tu és o rei e eu sou a rainha, as amantes e as criadas;
tu estás lá para mim e eu sou toda tua, como se nada existisse entre nós. A
liberdade é imperatriz e amor é coisa que não falta. Levas-me por caminhos
desconhecidos, com um sorriso hipnotizante no teu rosto esculpido em mármore,
qual obra de arte. Mas és real, e eu sigo-te como fiel companheira, a única
obediência que suporto no meu espírito. E deslizamos pelos corredores até à
próxima porta, uma e outra vez, escondendo-nos no meio dos jardins que deixamos
em cada cama, em cada chão, como se os lençóis estivessem vivos e tivessem alma,
deixando a revolta pelo caminho.
Nenhum outro
homem poderá alguma vez suplantar tudo o que tu despertas no meu âmago, pois tu
sabes exactamente onde é que eu me oculto quando o meu corpo não quer reagir. A
minha voz solta-se porque tu sabes precisamente onde é que ela precisa de ser
ouvida e que tom deve ser cantado. Descoberta num meio de um lago de águas
paradas, tu amotinaste-me e eu sou agora o prenúncio de um oceano insurrecto,
incapaz de se conter. A rebelião que nele habita é agora a rotina, como se a
bonança fizesse parte de um sonho estranho que vivi em tempos.
Destruíste a
timidez em mim. Foste o primeiro; e, não tenho certezas, mas suponho que, por
agora, serás o último. Quando houver outro, as expectativas já estão demasiado
vincadas. O próximo terá de te superar, mas tu eternizaste-te na minha mente,
no meu coração, no meu corpo. Em cada ruga, em cada dobra, em cada falha, o
toque das tuas mãos marcaram o meu físico imaginário, como se o tivesses
percorrido de uma ponta à outra, devagar, depressa, a tantos ritmos. E eu nunca
consigo desprender-me dos teus olhos, esses olhos que me chamam e me devoram
com subtileza e desassossego, provocando um alvoroço no meu peito em cada
momento que te fixas em mim. Tudo acontece ao mesmo tempo mas tu fazes-me
sentir como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Como é que alguém algum dia
transporá a linha que tu desenhaste em mim?
Naquelas
alturas em que a minha cabeça não está perdida no meio de tanta luxúria, o meu
pensamento consegue focar-se numa coisa só: aquilo que nos une, a nossa
relação, o nosso elo. Nesses momentos, consigo apreciar os nossos silêncios da
mesma forma que reverencio os nossos barulhos. Nessas pausas, permito-me
desfrutar da tua companhia e apenas dela, ignorando o teu corpo nu e os teus
olhares opiáceos e sorrisos sedutores. E tu deixas-me fazê-lo, porque também tu
aprecias estes instantes, em que compartilhamos tranquilidade e conforto só com
a presença estática um do outro. Paramos para sentir a leveza dos nossos génios,
venerar a paz dos nossos âmagos, sorrir perante os nossos corpos etéreos. Paramos
para existir um no outro, nas cores mais bonitas que alguma vez vi.
Mas isto é
tudo na minha cabeça.
Não te vejo há
meses. Parece que, na vida real, te perdi para o mundo; e tenho certezas,
porque tu próprio mas deste, que te perdi para ela, a tua mais-que-tudo
verdadeira, aquela que, de facto, existe nesta forma, na tua vida. Parece que
te sumiste para sempre. O facto, porém, é que eu continuo aqui e, tanto quanto
sinto, tu estás aqui também, encostado a mim, libertando o teu perfume nas
minhas roupas, conquistando-me a cada passo, cada gesto, cada olhar, como se
nunca tivesses desaparecido da minha vista, como se ainda caminhasses ao meu
lado, abalroando-me com delicadeza, a tua mão abraçando a minha sempre que
podia. E é este o grande mal da minha tão fecunda imaginação: é que tudo, amor,
tudo é possível..."