Que músicas já foram comentadas. . .

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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

"Bedshaped", Keane

    Hoje, pela primeira vez em tanto tempo, senti-me só. Completamente só. Abandonada. Insignificante. Pela primeira vez em tanto tempo, senti o vazio que me absorve como um fogo incontrolável. Senti o absolutamente nada. E a prova disso está naquele forte desejo que me invade logo a seguir: o desejo de não querer sentir coisa nenhuma, nunca mais. O processo é repentino. O meu corpo, outrora cheio de vida, despeja-se de toda e qualquer emoção; os meus olhos perdem a luz, a única coisa que os distingue do espelho baço em que se tornam, assim do nada; os meus lábios, as minhas mãos, as minhas pernas, o meu cérebro, nada obedece, nada reage aos estímulos que se lhes apresentam à frente. Tudo é insignificância, nada interessa.

    As horas passam, mas o tempo não corre. O silêncio impera, governando todos os estados de espírito. Os olhos abrem, fecham, vêem e ‘desvêem’ a realidade. A paisagem, porém, é sempre a mesma. Os olhos contemplam um nada pouco curioso; os mesmos olhos apagam-se para verem exactamente a mesma coisa. Não há diferenças entre adormecer e acordar, entre ser feliz e sofrer. Não há diferenças. Tudo é igual. Nada tem valor. Nada se distingue. Nada é igual. As mãos tocam mas não sentem. Não há texturas. O sedoso não existe; o áspero tão pouco. O veludo é fumaça e a lã, transparência. Não há calor nem frio. Há toda uma sensação inócua de que, de facto, temos frio. Não é algo que se sinta; apenas se sabe que assim é. Sabemos que devíamos aconchegar o nosso corpo numa manta quente, escondendo a t-shirt que temos a protegê-lo; mas optamos por não fazê-lo. O frio não é real; o frio não parece real.

    O cansaço é a única constância, a única certeza. A pequenez das coisas mais belas é despedida por uma fadiga que já não precisa de apreciar tais feitos, que já não quer saber de tais coisas. Enquanto tudo é nada, o mesmo cansaço faz-me perceber que, afinal, ainda preciso de tudo. Claro que é apenas uma noção, um ‘apercebimento’. Passar à acção, voltar a sentir-me gente, é difícil. Sair de um processo de solidão é moroso, desgastante, quase fatal. Da mesma maneira que escolher ficar também o é. Mas esta solidão, tão rara, tem um poder imenso sobre mim que me faz questionar toda uma vida de pugilista. Esta solidão é uma solidão muito específica.

    É aquela que me faz sentar numa cadeira, ficar a olhar para o ar e deixar-me a pensar. Não penso em nada de útil. Não penso em trabalho. Não penso nos amigos, nem na família. Penso em mim e na minha incompetência em combater tal avalanche sentimental. Penso no motivo que me leva a pensar em coisa nenhuma. Penso no porquê de me sentir assim, tão desesperada, tão fria, tão só. Penso na razão que me leva a perder tempo para pensar neste meu grande ego. Nunca chego a uma conclusão plausível. A única hipótese que me ocorre para explicar tanto sofrimento é a que, de facto, eu mereço isto. E talvez seja por causa do meu egoísmo desmesurado, do meu esgotamento sentimental, da minha impotência em controlar as minhas emoções. Talvez seja por isso que este vazio me faz tanta mossa. Talvez seja por ser tão sensível que me sinto tão débil, tão fraca, tão vazia.

***

    Hoje, já não me sinto tão só. Conversei comigo mesma e compreendi algumas coisas. Sim, sou sensível. Não aquele género de sensível que chore nos filmes românticos ou aquele que veja as suas susceptibilidades facilmente feridas ou até mesmo aquele que se sente atacado por palavras assoladoras. Sou sensível porque sinto as coisas com demasiada sensibilidade. Sinto muito, a muitos níveis. Sinto muito, com intensidade. Não há meios ‘sentires’. Não há meios ‘amares’, meios ‘não gostares’, meios ‘perceberes’ nem meios ‘discordares’. Eu amo por inteiro, não gosto por inteiro, percebo por inteiro e discordo por inteiro. Nada fica pela metade. Nada fica por um quarto ou por dezasseis avos. Tudo é feito a cem por cento. Se gosto, se não gosto; se devo, se posso, se nem quero... Não interessa o que seja. Seja o que for, fá-lo-ei por inteiro, nunca pela metade.

    Talvez seja por isso que, quando me sinto só, seja tão complicado de deixar de o sentir. Eu sinto muito. Eu tenho que sentir muito. E tenho que senti-lo até ao fim. É um processo completo, que envolve muitos momentos de introspecção e reflexão. Descubro muitas novidades sobre o meu ser, a minha força interior, a minha essência; mas também desencadeio demasiadas perguntas que raramente são respondidas. E existe uma que me assombra todas as vezes: “Porque é que me sinto assim?”. Sempre que tento responder, o tiro nunca acerta no alvo. Nunca soube o porquê até hoje: não existe um alvo. Não há uma resposta certa. Há todo um manancial de circunstâncias que ajudam a compreender tal solidão; e desse conjunto faz parte um termo bem lixado: a saudade.

    Sempre que me sinto só, sinto saudade. Saudade de alguém ou de alguma coisa. Às vezes, até sinto saudades de um determinado aroma ou de uma cor específica. É algo estranho, confesso, mas eu sou estranha. Quando tenho aqueles momentos em que estou sentada na cadeira, a sentir coisa nenhuma, dou por mim a imaginar certa pessoa, ou certo momento; penso numa memória que gostava de repetir e percebo que nunca poderei revivê-la. Penso nos meus arrependimentos, mesmo até naqueles que tenho a certeza que não me deveria arrepender. Grande parte das vezes, penso em alguém especial. Claro que há sempre um ‘alguém’ metido nestas questões. Mas, lá está, estes momentos acontecem muito poucas vezes e, normalmente, só quando existe um ‘alguém’ envolvido no assunto. Acho que é normal. Mesmo que não seja, tanto me faz. Se estou a sentir, porque raio haveria de o negar?


    Não faz sentido para mim reprimir emoções. Não está na minha essência fazê-lo. Por isso, vou deixar-me sentir só. Vou permitir que este vazio se apodere de mim como algo natural. Porque, para mim, isto é natural. Não é um processo que me agrada, como está claro. Se não, com que moral viria eu para aqui escrever sobre isto? Não teria qualquer cabimento. A única, ou melhor, uma das razões para me expor desta maneira é muito simples: mostrar ao mundo que, por detrás de um sorriso atraente, por baixo de um olhar meigo, pode estar todo um universo vazio, repleto de negativismo e solidão, mas que isso não significa que estejamos vazios, negativos ou sós. Quer dizer que todos, todos sem excepção, temos um dia mau. Apenas uns mostram-se mais que outros...

"Many's the time I ran with you down
The rainy roads of our old town
Many the lives we lived in each day
And buried altogether 
Don't laugh at me
Don't look away 

You'll follow me back
With the sun in your eyes
And on your own
Bedshaped
And legs of stone
You'll knock on my door
And up we'll go
In white light
I don't think so
But what do I know?
What do I know?
I know! 

I know you think I'm holding you down
And I've fallen by the wayside now
And I don't understand the same things as you
But I do 

Don't laugh at me
Don't look away 

You'll follow me back
With the sun in your eyes
And on your own
Bedshaped
And legs of stone
You'll knock on my door
And up we'll go
In white light
I don't think so
But what do I know?
What do I know?
I know! 

And up we'll go
In white light
I don't think so
But what do I know?
What do I know?
I know!"

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