Em homenagem às crianças americanas que partiram esta sexta-feira passada...
A saudade está em tudo: no amor, na amizade e na perda. E é aqui que ela mais se afirma, é aqui que ela mais se faz sentir. É na morte de alguém que amamos, ou apenas conhecemos, que nos apercebemos do quanto vamos sentir a sua falta. Vamos sentir os seus carinhos, as suas qualidades, os seus defeitos, as suas ambições, os seus desejos; os seus medos e os seus actos de coragem; a sua covardia medida e os seus princípios reais. Vamos sentir falta das conversas tontas, dos pensamentos colectivos, das 'chispas' e do 'não morremos hoje, nem casamos amanhã', do 'amo-te, do 'adoro-te' ou do 'gostei de te conhecer'; do 'odeio-te', do 'deixa-me em paz', mas 'abraça-me'; do 'não' que queria dizer 'sim', do 'sim' que queria dizer 'deixa-me pensar'; do 'cala-te', em vez do 'adoro a tua voz'. Sentiremos aquelas expressões especiais, como 'sou teu amigo' e 'só quero o teu bem', ou aquelas como 'tenho que ser honesta', porque uma amiga diz-te quando estás feia e quando estás linda, e não a deverias censurar por isso.
A saudade também impera quando alguém vai e não volta, nunca mais. Quando perdemos alguém, o peso da perda é tão grande... A saudade dos bons momentos aumenta ainda mais esse peso. Afundamo-nos em tristeza, em mágoas, em arrependimentos, desculpas e medos. Por vezes, recusamo-nos a seguir em frente; outras, obrigamo-nos a fazê-lo nós próprios. Podemos ser orgulhosos e repudiar ajuda ou podemos até libertarmo-nos com aqueles que menos esperam que o façamos. No entanto, por mais que tentemos esquecer essa pessoa, a saudade vai ficar para nos atormentar ou acalmar o espírito, para nos manter à tona das águas bravas que a vida é. A saudade, a princípio, vai corroer-nos, dar-nos falsas esperanças de voltar a encontrar alguém como aquele que partiu, e até mesmo iludir-nos com um nevoeiro de palavras e sentimentos. Mas, depois, é a saudade que nos faz ver que amámos a sério, que tomámos decisões e fizemos as escolhas certas; que sentimos o que deveríamos ter sentido; que dissemos o que queríamos da melhor maneira que podíamos; que discutimos da mesma maneira que perdoámos; que vivemos como era suposto vivermos.
Meninos e meninas do Connecticut, sim, é injusto terem partido muito cedo, terem suspendido para sempre a vossa curta vida desta maneira. Fugiram-nos por entre os dedos pelos punhos de alguém desesperado por sentir-se vivo. Mas a saudade vai manter-vos presos à terra, nos nossos corações e na nossa memória. Os vossos pais vão lembrar-se, os vossos irmãos vão lembrar-se, os vossos tios vão lembrar-se, os vossos amigos vão lembrar-se, os vossos vizinhos vão lembrar-se e o resto do mundo também. Todos vão lembrar-se, todos vão sentir a vossa falta, todos vão ter saudades vossas.
Para todas aquelas pessoas que já perderam alguém: recordem essa pessoa por um segundo que seja e sorriam, alegrem-se por um segundo que seja por a terem conhecido. É essa pequena memória, esse pequeno sorriso, essa saudade, que a vai manter para sempre no vosso coração.