SER HISTORIADOR
«Teoricamente, um historiador é aquele que estuda a História e tem como “primeiro dever (…) não trair a verdade, não calar a verdade, não ser suspeito de parcialidades ou rancores”. Pode conhecer a História mais antiga ou a mais recente, mas nunca sabe do futuro. No entanto, pode antevê-lo, com base no passado e no presente. Pode dar aulas, pode investigar e pode escrever. Um Historiador pode fazer tudo o que quiser, até mesmo desistir, como todos os Homens. Mas um historiador não desiste, nunca! Enfrentando a sociedade em que vive, o historiador luta sem medo para descobrir a “verdade” e mostrá-la a todos os que dela fugiam ou os que a ignoravam.
Aristóteles dizia: “O historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo facto de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido”. Já Graham Greene dizia: “Os historiadores são pessoas que se interessam pelo futuro quando este já é passado". Mas, ser historiador é muito mais que isso…
A minha paixão pela História é do tamanho do mundo, mas muito discreta. Além disso, é mais uma alternativa incrivelmente positiva para o meu futuro do que um objectivo concreto, porque o verdadeiro objectivo é outro. No entanto, a História influencia bastante a minha maneira de ser. Descobri-a relativamente há pouco tempo, quando lia um romance de Andy McDermott, que nos leva à descoberta da Atlântida, através de uma arqueóloga que persegue mitos. Confesso que não é o livro indicado para aprender História, nem o mais correcto historicamente, mas é um dos mais indicados para se aprender a gostar, como os da Philippa Gregory. Porque foi assim que me apaixonei pela primeira vez. Apaixonei-me pela História e isso já diz muito de mim...
Até ao oitavo ano, nunca gostara de História: era difícil de compreender e impossível de decorar. Foi assim que entrou na minha vida, forçando os portões e irrompendo pela porta, numa rapidez e crueldade imensas que me obrigaram a trancar a mente. No entanto, para a leitura, a minha mente estava sempre disponível e foi pelas traseiras que a História conseguiu entrar novamente, pedindo licença e deixando a porta entreaberta, para que mais conhecimento entrasse. Agora, neste primeiro ano de Faculdade, a porta abriu-se totalmente para uma sala parcialmente ocupada, que espera por novos conhecimentos, sem horário de fecho e que vai manter-se aberta até ao fim dos meus dias. Ser historiador é aprender quando somos caloiros, finalistas, mestres, doutores, catedráticos, pais, avós ou simplesmente velhos. Nunca sabemos tudo e, por isso, a única coisa que sei é que um historiador nunca deixa de aprender, nem de ensinar.
Porque historiador é aquele que se levanta às seis da manhã para (tentar) mudar o mundo, para conhecer ou meramente respirar os raios de sol que emanam de Rá ou de Shamash. Não é ser maior que os homens, porque o historiador destaca-se no meio dos homens, mas não é maior que eles, nem nunca deve ser. O historiador respeita os “ignorantes” e, em vez de os manter na “ignorância”, oferece-lhe um pouco do seu conhecimento. Isso completa, tanto o historiador, como o “ignorante”. É amar a esposa ou o marido, os filhos e o trabalho. É dar prioridade à paixão pela História e à vontade de conhecer. É fazer escolhas. Essas escolhas não são entre o Bem e o Mal, nem entre o certo e o errado, mas sim entre o manter o presente e alterá-lo, entre esquecer o erro ou admiti-lo. É escolher entre assistir ou actuar, entre querer e conseguir. É escolher com base na experiência e nos conhecimentos. É escolher, simplesmente. É compreender.
Ser historiador é ser humano, acima de tudo. Não nos podemos esquecer que o Historiador também erra, tal como todos os Homens. Também cai, também perde e também sente. Por isso, por mais que seja obrigado à imparcialidade, ao distanciamento e à frieza, o Historiador acaba sempre por viver a vida profissional tão intensamente como a vida pessoal interior (sim, interior, porque a vida pessoal exterior é aquela que vivemos sem nos apercebermos, quase uma rotina, para manter o equilíbrio). Uma descoberta que faça entusiasma-o de tal maneira que pode desiludi-lo fortemente, se não for o que está à espera. No entanto, (quase) nunca pode demonstrá-lo, em termos sociais. Tem que dizer o que gosta e o que não gosta. Tem de fazer História com as fontes que tem, mesmo que lhe apeteça desprezá-las. Mesmo sendo humano, tem de trabalhar afastado do sentimento. E é por isso que eu, querendo ser Historiadora, me prendo na música para me libertar das minhas preocupações e sentimentos. Para evitar cair na subjectividade, quando trabalho. Para ser considerada uma profissional da História, uma cientista da História, alguém que merece tanto mérito como um médico ou um químico. Porque, nós, Historiadores, também temos um papel na sociedade. O nosso curso não serve só por isso. Precisamos de trabalhar com tudo, mas mesmo tudo, para usufruirmos dele. É mais difícil obter um reconhecimento digno por parte da sociedade em como nós somos úteis do que um Homem numa bata branca, mas nós gostamos que seja difícil. Gostamos de desafios e qual melhor desafio que poderíamos querer que o não reconhecimento do nosso trabalho por parte da sociedade? Assim, quando a surpreendermos, será um espectáculo ainda maior e melhor de se ver…»
CATARINA MONTEIRO
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