“Inspirei fundo, silenciosamente,
expirando, de seguida, sem qualquer ruído. Sentia o frio do chão do palco a
abraçar-me os pés, cobertos apenas pelas mini meias transparentes, mas não o
permiti fazê-lo. Devagar, levantei-os um a um e rodei-os, vagarosamente, com a
destreza de uma ginasta. Remexi os ombros e a cabeça, inclinando-me, depois,
para trás, estendo os braços, tentando fazê-los tocar nos calcanhares. Voltei à
postura inicial e debrucei-me para a frente, agarrando os tornozelos com as
mãos. Pus-me direita, novamente, e repeti a respiração. Conseguia sentir a
ansiedade do público, a expectativa, a impaciência. Olhei para os meus colegas
e amigos, de pé, atrás de mim, à espera do meu sinal para entrarmos em cena.
Todos estávamos ansiosos pela estreia de «Revoluções». Trabalhámos muito para
esta peça e esperávamos que o primeiro acto fosse um sucesso. Lembrei-me das
inúmeras reuniões onde discutimos as coreografias, os cenários, as músicas, as
roupas, tudo. O Zé é mesmo um génio,
pensei, sorrindo, quando me lembrei do meu melhor amigo — e irmão por afinidade
— a dirigir essas reuniões.
Olhei o cenário. O texto introdutório à
peça, projectado na tela, no fundo do palco, estava a chegar ao fim. Quando
acabou a mensagem ao público, foram aparecendo as assinaturas de todos os
membros da nossa companhia, como se eles as estivessem a escrever na tela, com
esferográficas coloridas e brilhantes. Virei-me para os meus colegas e chamei-os
com gestos, avisando-os de que estávamos prestes a entrar em cena. Todos
ficaram atentos, ganhando uma nova dose de energia, entusiasmo e emoção.
Lancei-lhes outro olhar. Eles começaram a aquecer o corpo, sacudindo os braços
e as pernas e dando uns saltinhos, ao mesmo tempo que rodavam a cabeça. Olhei,
de novo, para a tela de projecção: vi surgir o logótipo da companhia, com o
nome completo por baixo: “Encarnar a História - Companhia de Artes
Performativas”. Voltei a encarar os meus colegas e fiz-lhes um olhar promissor
e um sorriso entusiasta.
Por segundos, pensei nas nossas
indumentárias e adereços. As duas únicas peças exactamente iguais que tínhamos
em comum eram um par de boxers pretos
e uma pequena “caixa”, que transportávamos às costas, tipo mochila; tudo o
resto era diferente. Dependendo daquilo que iríamos representar (e do género,
claro está), as roupas mudavam.
Os homens usavam uma espécie de camisola
transparente, de mangas compridas, à moda do século XVIII, feita de um tecido
tipo seda. Não tinha botões e era aberta à frente, até metade do tronco, sendo
que, atrás, tinha um buraco propositado, onde encaixava a pequena mochila. Na
cintura, usavam um cinto preto, de onde pendiam algumas mechas de couro
entrançado, decoradas com contas azúis, brancas ou vermelhas, florescentes e
brilhantes. As pernas estavam cobertas com collants quase transparentes,
salpicados com pontos luminosos azúis, em filas verticais. Os pés não tinham
qualquer protecção, assim como as mãos. Em cada tornozelo, tinham uma bracelete
grossa, dourada, a imitar ouro, todas diferentes, mas todas decoradas com
motivos florais, em relevo. A cara estava pintada com três riscas diagonais
luminescentes, cada uma no sentido descendente (deitadas para a esquerda): uma azul,
uma vermelha e uma branca. Na cabeça, usavam uma espécie de elmo, feito de tule
preto, translúcido, que lhes resguardava apenas a cara, deixando transparecer
as pinturas luminosas e o azul brilhante das lentes de contacto especiais.
As mulheres usavam uma espécie de soutien
desportivo sem alças, azul ou vermelho, coberto com uma mecha de tecido branco
transparente, como a camisola masculina, que cruzava sobre o peito, dando uma
volta no pescoço e atando no fundo das costas, mesmo por baixo da mochila. Na
cintura, tinham um cinto preto, igual aos dos homens, que suportava a saia toda
recortada. Era uma daquelas saias que eram mais curtas à frente e mais
compridas atrás, aumentando a cauda, na diagonal. Porém, o tecido sedoso tinha
sido cortado em madeixas verticais e essas madeixas tinham sido entrançadas e
decoradas com contas luminosas azuis, vermelhas ou brancas. Quando as raparigas
se fossem mexer, as tranças dançavam com elas e, quando estivessem paradas, as
tranças voltavam à “formação de saia”. As pernas tinham sido pintadas, desde as
pontas dos pés até às ancas, com as cores luminosas que decoravam os collants
masculinos. Os pés estavam calçados com mini meias e as mãos estavam cobertas
com luvas curtas, de um tule branco transparente, que acabavam com folhos, no
pulso. Nas costas de cada luva, estava desenhada uma estrela de nove pontas ou
um qualquer símbolo de alquimia. As unhas estavam pintadas com as cores da
bandeira francesa e, nos ombros, carregavam ombreiras douradas, com motivos
florais desenhados em relevo. Na cara, tinham as mesmas pinturas que os
companheiros, mas no sentido oposto (inclinadas para a direita). Nos seus
olhos, também usavam lentes de contacto luminosas, mas prateadas, em vez do
“azul-relâmpago” masculino. Na cabeça, suportavam um diadema de renda branca,
que começava na cana do nariz e ia abrindo, cobrindo a testa com desenhos
campestres. Eu estava vestida desta maneira, mas tinha mais um acessório: uma
capa translúcida, branca, até ao chão, tipo imperador, que pendia das minhas
ombreiras e que estava enfeitada com pontos luminosos, que se iam dissipando,
debaixo para cima.
Realmente, tínhamos feito um excelente
trabalho com os seis trajes diferentes que criáramos para o guarda-roupa de
“Revoluções”, mas este que representava a Revolução Francesa era o meu
favorito. Além do mais, eu iria encarnar a Liberdade, que conduzia a Nação
Francesa para uma nova era. Quem é que não gosta de ser o protagonista de vez
em quando?
De repente, as luzes apagaram-se e o pano
preto caiu, escondendo o palco do público. Começou a ouvir-se o som de trovões
fortes a explodir pela sala, ao mesmo tempo que se viam luzes que se
equiparavam a relâmpagos tempestuosos. Ansiosos e concentrados, corremos para o
palco e posicionámo-nos conforme tínhamos coreografado: fazíamos um grande
quadrado que ocupava todo o palco, deixando uma distância razoável entre cada
um de nós. Eu ficava na última fila, mas numa posição central. Seria a primeira
a começar. Estava nervosa por isso, mas também estava entusiasmada por “liderar
as tropas”, pela primeira vez, em cinco anos de Companhia. Os meus colegas
deitaram-se e encolheram-se, fechando-se como conchas, sobre si mesmos. Ajudei
o pessoal dos bastidores a estender um grande lençol preto por cima dos meus
companheiros, tapando-os. Esse pano servia para esconder, principalmente, a luz
que eles emanavam, e iria ser retirado no momento oportuno. Ligou-se o
projector atrás da tela onde iria passar um vídeo que ambientava este acto:
apareceriam luzes aleatórias e cenários franceses ao longo da nossa actuação.
Fiz sinal aos meus colegas, indicando que estava tudo pronto. Eles foram
acenando uns aos outros, transmitindo a mensagem. Ouviu-se um trovão mais
forte, que nos serviu de aviso. A tempestade fictícia abrandou um pouco. Então,
deitei-me numa posição como se tivesse acabado de desmaiar. Vi “Acto I –
Liberdade, Igualdade, Fraternidade” projectado à minha frente, no pano preto do
palco. O pano começou a subir. Inspirei fundo, fechei os olhos e encarnei a
personagem. Ia começar.
Começou a tocar a banda sonora escolhida:
“Radioactive”, dos Imagine Dragons. O vídeo começou com luzes que dançavam ao
som da música. Timidamente, as três luzes do palco — azul, vermelha e branca —
começaram a aparecer. Quando começou a letra, comecei a desencostar-me do chão,
com um ar atordoado. Sentada, levei o braço direito ao peito e fingi estar com
dores. Quando deu a parte da respiração, fingi inspirar e expirar, com força,
como se expelisse a dor e inspirasse o poder. Com um olhar triunfante, fui-me
levantando, com a teatralidade de um indígena, movimentando os ombros e
arrastando o corpo, à medida que ficava totalmente de pé. Caminhei com uma pose
delicada, mas vitoriosa, com os olhos que transmitiam a energia do fogo que
sentia pelo corpo todo. Os ombros acompanhavam as pernas contrárias, num
caminhar poderoso. Estava quase a chegar o refrão quando eu parei na frente do
palco e olhei de relance o público, com um olhar intenso e ardente. “I’m waking
up”: estendi o braço direito, para o lado, o esquerdo para o outro e
debrucei-me para a frente, numa espécie de vénia; o pano preto que escondia os
meus colegas foi puxado pelos bastidores, de repente, ao mesmo tempo que fiz o
meu cabelo voar para trás, quando levantei a cabeça e os braços, rápida e
imperiosamente. Os meus companheiros levantaram-se de uma só vez, cabisbaixos e
apáticos. “I feel it in my bones”: voltei a estender um braço para cada lado,
fingindo agarrar as cordas invisíveis que prendiam os meus colegas e comecei a
dançar ao som da música, mexendo os braços, as pernas, a cabeça, o corpo todo
como tínhamos ensaiado, numa dança quase ritualística. Os meus companheiros
imitavam-me, como marionetas humanas que começavam a ganhar vida e
livre-arbítrio. “Welcome to the new age”: dávamos passos para a frente e para
trás, com um ar possante e imperial, como se mandássemos naquilo tudo. “I’m
radioactive”: agitávamos o corpo como uma espiral, repleta de poder e ambição,
movendo o corpo ao ritmo da música. Ao longo de toda esta primeira cena, as
luzes do palco e as luzes projectadas na tela acompanhavam-nos no sentimento e
ambiente que se criara. Sentia-se a batida da música no peito, como se ela
estivesse a invadir o nosso coração; quase como se estivéssemos possuídos por
ela. E o objectivo era esse.
“I raise my flags”: com os meus colegas “transformados”
em pessoas, peguei num ceptro, que um deles me entregou, e puxei um fio do
topo, com força, de onde saiu a bandeira francesa. “And dye my clothes”: começou
a chover uma espécie de pó azul, que pintava os nossos corpos e o palco, ao mesmo
tempo que a tela apresentava um vídeo aéreo de como seria Paris nos tempos pré-Revolução.
Eu agitava a bandeira de um lado para o outro, enquanto caminhava até ao fundo
do palco. “It’s a revolution, I suppose”: com uma atitude provocatória, espetei
o ceptro num trono vermelho e dourado, exuberante, posto pelo pessoal dos
bastidores durante a nossa actuação inicial. “We’re painted red to fit right in”:
caminhei de volta ao centro do palco, seguida pelos meus colegas, ao mesmo
tempo que choviam pétalas de um vermelho-sangue, inundando o cenário. “I’m breaking
in”: dançámos todos juntos até ao fim do refrão, repetindo passos e
apresentando novos movimentos, à medida que o vídeo da tela se começava a focar
na Bastilha, uma prisão que se apresentava como símbolo da monarquia absoluta.
Mas a nossa Bastilha era diferente:
correspondia a uma grande torre de pedra, no meio de uma praça, e que tinha
inscrita, na vertical, em si mesma, a palavra “Bastilha”. Os nossos gestos
quase loucos acompanhavam as luzes e a música, transmitindo sentimentos fortes
que envolviam sempre as mesmas palavras: poder, ambição, força, loucura, enfim,
Revolução. Íamos percorrendo o palco, trocando de posições, dando tempo ao
pessoal dos bastidores para fazer os últimos arranjos para o clímax da nossa actuação.
“All systems go”: as luzes acalmaram, assim
como os nossos movimentos e expressões faciais. Enquanto voltávamos às posições
iniciais, dançando devagar e com uma teatralidade pouco luxuriante, levávamos os
braços atrás, à mochila que tínhamos nas costas, e íamos puxando, muito
devagar, os dois fios, cruzados, que fechavam o nosso equipamento especial.
Todos estávamos coordenados e ansiosos para o grande final. Conseguia sentir o
entusiasmo e a expectativa dos meus colegas, do pessoal dos bastidores, do
público e até dos seis colegas que estavam a filmar o espectáculo, a partir de
seis perspectivas diferentes. Apesar da tomada da Bastilha ter acontecido num
dia de Verão, decidimos apresentá-la como um acontecimento de uma noite de
Inverno, tempestuosa, imponente, sem tréguas. Parecia ficar mais na memória, daí
também termos escolhido aquela música. “Straight from inside”: era agora.
“I’m waking up”: todos puxámos os fios ao
mesmo tempo. As mochilas abriram-se. Um par de asas verticais, pintadas com as
três cores – luminosas – da bandeira francesa, saiu disparada das nossas
costas. Em simultâneo, na tela, via-se o desmoronamento da Bastilha, em slow motion. Confettis negros caiam do
tecto. A música batia forte nos nossos corpos, sentindo-se cada instrumento e
letra como se fossem objectos físicos. A nossa dança tornou-se extremamente
forte, expressiva, épica e com alguns traços robóticos. Ouvia-se, como barulho
de fundo, e via-se, em substituição das luzes “normais”, os relâmpagos e os trovões
que tinham iniciado a nossa actuação. Tudo acontecia ao mesmo tempo, num misto
de danças, luzes, cenários e sentimentos demasiado potentes, que pareciam fazer
explodir tudo e todos. O público estava ao rubro e nós também. Era incrível.
Quando a música acabou, tudo ficou às
escuras e o pano preto do palco caiu, de repente, escondendo-nos do público.
Inspirei e expirei fundo, como se tivesse aguentado aquele suspiro durante toda
a actuação. Ouvimos a plateia a aplaudir, mas não perdemos tempo e saímos do
palco a correr, enquanto o pessoal dos bastidores limpava o chão e tirava o
grande trono do cenário, para o próximo grupo entrar em cena. Quando já
estávamos fora do palco, sorrimos uns para os outros, abraçamo-nos e
felicitámo-nos pela nossa actuação. Estávamos cansados, mas eufóricos e com
vontade de repetir toda a cena que acabáramos de apresentar. O público ainda
aplaudia, entusiasmado. Caminhámos para os bastidores, para mudarmos de roupa e
de pinturas; enfim, para trocarmos de personagens. O segundo grupo, que ia
entrar agora em cena, iria representar a revolução industrial e nós íamo-nos
preparar para a terceira cena: as revoluções de 1848. Ainda se ouviam os
aplausos do público, quando o teatro foi tomado pelos sons da máquina a vapor.
A sensação de primeira missão cumprida invadiu-me por momentos. Sorri,
orgulhosa. Tínhamos começado bem.”
"I’m waking up to ash and dust
I wipe my brow and sweat my rust
I’m breathing in the chemicals
I’m breaking in and shaping up
Then checking out on the prison bus
This is it, the apocalypse
Ohohoh
I’m waking up
I feel it in my bones
Enough to make my system blow
Welcome to the new age
To the new age
Welcome to the new age
To the new age
Ohohohohohohoh
I’m radioactive
Radioactive
Ohohohohohohohoh
I’m radioactive
Radioactive
I raise my flag and dye my clothes
It’s a revolution, I suppose
We’re painted red to fit right in
Ohohoh
I’m breaking in and shaping up
Then checking out on the prison bus
This is it, the apocalypse
Ohohoh
I’m waking up
I feel it in my bones
Enough to make my system blow
Welcome to the new age
To the new age
Welcome to the new age
To the new age
Ohohohohohohohoh
I’m radioactive
Radioactive
Ohohohohohohohoh
I’m radioactive
Radioactive
All systems go
The sun hasn’t died
Deep in my bones
Straight from inside
I’m waking up
I feel it in my bones
Enough to make my system blow
Welcome to the new age
To the new age
Welcome to the new age
To the new age
Ohohohohohohohoh
I’m radioactive
Radioactive
Ohohohohohohohohoh
I’m radioactive
Radioactive"