Vou-vos contar parte de um segredo. Uma parte de um segredo que não é tão secreto assim...
Às vezes, não consigo aguentar a vida. Simplesmente, não consigo. Todo o peso sobre os meus ombros, toda a pressão a que sou submetida, por vezes, é tudo demasiado. E o problema maior nem é esse. O problema maior é aquele que não se vê, aquele que cresce sem fim, dentro de mim, sem piedade nem permissão. Enquanto a pressão aumenta, os limites desvanecem-se, tornando-se mais fluídos que a água, mais distantes que o céu, mais perigosos que o fogo. A pressão aumenta e o sorriso diminui. O sorriso, o olhar, o tempo, o espírito... Tudo começa a ficar cada vez mais pequeno e pequeno, alcançando a linha do pormenor insignificante, desleixado, vazio, sem nada. Uma espiral que percorro vezes e vezes sem conta, perdendo a conta ao número de vezes em que já o fiz. As mãos tremem, o coração bate a mil, as pernas fraquejam, o olhar morre, o sentimento some. Devagar e de repente, o respirar deixa de ser sorte e passa a ser suplício. Escrever torna-se aborrecido. Estudar torna-se uma obrigação mais do que indesejada. Comer é um inferno. Dormir não existe. Tomar decisões é a coisa mais inútil, tal como manter uma conversa. O choro, o desespero, a dor e a solidão são coroados imperadores do dia e reis da noite. O tic-tac de um relógio surge como parceiro de diálogo ideal. Um pássaro é a personificação dos sonhos. A chuva é uma representação de um estado de espírito inato. Tudo fica diferente...
O mais estranho disto tudo é que isto acontece porque eu sinto que, apesar de tudo, as pessoas exigem demais, forçam-me, mas depois culpam-me. Dizem que sim, mas depois, fazem-me sentir culpada de todas as grandes e pequenas coisas que acontecem. E o que é que eu faço? Recuo, retraio-me, deixo-me prender nas amarras dessa gente porque acham que elas têm razão. Perco-me e paro de fazer o que gosto, por elas. Porque sei que, se não o fizer, não vou estar a ajudar nem a mim própria nem a elas mesmas. Porque sei que, se não recuar, se não voltar para elas, se não as fortalecer, irei culpar-me para o resto da minha vida. Sei que é errado desistir de nós pelos outros, mas que remédio tenho eu senão fazê-lo? O quê, é preferível fazer o que mais queremos neste mundo e saber que os outros estão mal, ou perder os nossos sonhos de vista e manter os outros na luz? É horrível esta dicotomia, esta pressão, porque eu quero fazer o que gosto, mas sinto que não devo porque há pessoas que precisam de mim mais do que aquilo que querem admitir e eu deveria ficar com elas. É desgastante! Faz-me afundar, lança-me no abismo como uma pedra que se atira ao rio e nunca mais é resgatada. Faz-me duvidar de mim, mais do que o costume. Oh, muito mais do que o costume! Faz-me sentir mal, degradante, egoísta... Faz-me sentir usada, perdida, sem destino, terrivelmente dependente. Provoca-me raiva e medo. Faz-me querer gritar, chorar até mais não. Faz-me querer fugir e nunca mais voltar. Deixar para trás tudo o que mais gosto e amo neste mundo, tudo por causa da pressão e da vontade dos outros...
Quero ser egoísta, mas não sou capaz. Prezo demasiado o que mais gosto e amo neste mundo para deixar tudo para trás. Mas a vontade de fugir fica; fica e continua a crescer. Tal como a vontade de chorar e gritar... Tal como a dor, o desespero, a solidão, o medo, a raiva... Tudo fica e tudo cresce, porque a pressão não diminui. Essa só extingue por momentos, porque, depois, volta. E quando volta, volta ainda mais forte. E, cada vez que isso acontece, eu vou ficando cada vez mais fraca. Vou enfraquecendo, diminuindo... E quando chegar ao limite dos limites, quando chegar ao ponto de ruptura, quando mais ninguém nem nada mais me puderem ajudar, nem as letras me poderão salvar...
"Help, I have done it again
I have been here many times before
Hurt myself again today
And the worst part is there's no one else to blame
Be my friend
Hold me, wrap me up
Unfold me
I am small and needy
Warm me up
And breathe me
Ouch, I have lost myself again
Lost myself and I am nowhere to be found,
Yeah, I think that I might break
Lost myself again and I feel unsafe
Be my friend
Hold me, wrap me up
Unfold me
I am small and needy
Warm me up
And breathe me
Be my friend
Hold me, wrap me up
Unfold me
I am small and needy
Warm me up
And breathe me"