Esta é a quarta mensagem do ciclo que iniciei com "Até ao Verão", um ciclo sobre o tempo das coisas, o tempo de tudo...
TEMPO DE ME ENFRENTAR
O dia não me tem estado
a correr muito bem. Acordei estranha, diga-se, melancólica; sim, aquele estado
depressivo voltava para me assombrar mais um dia. Nada parecia valer a pena, e
ainda só eram sete e meia da manhã. O que aprendi ao longo dos anos com isto é
que, quando o dia começa assim, vai ser um dia muito difícil. Até poderei
sorrir, rir até, mas irei chorar e perder-me com uma rapidez tremenda, e aí não
há volta a dar. Tenho que sentir aquilo e, se não o fizer, a dor vai
arrastar-se e estragar tudo aquilo onde eu pusera a minha alma. Então, hoje, caminhei ao Sol, para recolher alguma boa energia, algo que raramente
preciso de fazer. Funcionou por um bocado; funcionou até entrar no edifício que
agora mais parece a minha casa. Foi automático: abri a porta e todas as más
energias me rodearam, contentes por me ver. A vontade de trabalhar foi-se,
claro está. Mas tinha que ocupar o meu tempo; tinha, agora, que arranjar o
máximo de trabalho que pudesse fazer, para distrair a minha cabeça. Lembrara-me
que um amigo me dissera que também estaria lá, hoje. Rezei para que estivesse e
para que não estivesse, ao mesmo tempo. Queria que estivesse lá um amigo, mas
não aquele. Não que ele não seja digno de me ver neste estado; é exactamente
isso que eu não queria – que ele me visse neste estado. Decidi enviar-lhe uma
mensagem, na esperança de que isto me passasse (se bem que eu já sabia que não
ia passar, mas eu sou idiota, o que é que querem!). Ele não respondeu. “Boa,
ficou a dormir!”, pensei contente, por dois segundos e, de repente, toda a
minha melancolia voltou. Tentei trabalhar. Fui lavar a cara, antes de me sentar
ao computador. Preparei tudo o que tinha a preparar para trabalhar e...
Fiquei quieta, em frente
ao computador. Todo aquele peso sentimental que eu sentia me invadia o corpo,
despedaçando-me o coração aos bocadinhos, tornando caos toda a paz que havia na
minha cabeça. Iria ser impossível trabalhar. Levantei-me outra vez, fui lavar a
cara outra vez, sentei-me ao computador outra vez e outra vez fiquei quieta. As
minhas mãos tremiam, o meu peito ardia, nada parecia meu. Todo o meu corpo
tinha sido possuído por uma melancolia indescritível. Eu estava à beira das
lágrimas. Precisava de ir dar uma volta, arejar. Decidi ir almoçar. Ignorei
tudo à minha volta e fui. Não ajudou; continuei naquele estado, à beira do
precipício emocional. É então que o tal amigo me liga. Pergunta-me se ainda cá
estou. “Merda! Tu vieste!”, pensei, enraivecida comigo mesma. “Sim, estou no
bar”, respondi tentando formar um sorriso no rosto. Tentativa falhada. “Ok, vou
aí ter contigo”, comprometeu-se a sua voz, no outro lado da linha. “Não, não
venhas! Eu vou arruinar o teu dia! Não venhas!”, gritava a minha mente; a minha
boca nada disse. Respirei fundo infinitamente, preparando-me para mostrar um
grande sorriso quando ele aparecesse, tentando enterrar toda aquela
negatividade. Ele chegou e a primeira coisa que fez foi olhar-me com olhos
preocupados. Bem, eu tentei, tentei com muito esforço, mas ele lia-me com uma
facilidade impressionante. Claro que logo começaram as perguntas básicas do
“estás bem?” ou “sentes-te bem?”. E o que é que eu respondi? Que estava tudo
bem, claro está. Ele foi buscar café. E as perguntas mantiveram-se. “Hoje estou
melancólica. Também não posso estar todos os dias sorridente, não é?”, respondi
a rir, um riso extremamente nervoso, daqueles que me saem quando eu não quero
que ninguém veja o que verdadeiramente se está a passar. Aquilo passou. Subimos
para trabalhar e separámo-nos. Ele haveria de ir querer almoçar e haveria de me
perguntar se eu queria ir com ele. Claramente eu iria dizer que sim. Fiz de
tudo para tentar ficar melhor. Adiantei algum trabalho (quase nada) e ouvi
música poderosa, mas o precipício continuava mesmo ali em frente. Este
simplesmente não iria ser um bom dia...
Pouco tempo depois, lá
apareceu ele, para ir almoçar. Inspirei fundo e mantive todo o ar no peito numa
(outra) tentativa frustrada de conter todos aqueles maus sentimentos. E, por
fases, as perguntas voltaram, e eu tentava evitá-las. Ele estava visivelmente
preocupado e queria que eu falasse com ele. Mas como é que eu iria falar com
ele se, assim que abrisse a boca para dizer qualquer coisa, iria desatar a
chorar? Não queria fazer essas figuras à frente dele, nem queria deixá-lo num
estado negativo – logo ele que tem sempre um sorriso no rosto. Nem pensar que
eu ia deixá-lo melancólico! Eu desviei-me das perguntas e disse-lhe que, se
falasse sobre aquilo, ele também iria ficar melancólico, porque aquilo era
contagioso. Ele riu-se e isso fez-me rir; mas depois veio a derradeira
pergunta: “não estarás deprimida”? Ah, se ele soubesse! Com toda aquela
inocência nas três palavras que lhe voaram dos lábios como se de ar se tratasse,
o meu mundo começou a desmoronar. Queria responder-lhe que sim, queria
explicar-lhe o porquê, queria desabafar com ele, mas, em vez disso,
respondi-lhe “podemos não falar mais disto, se faz favor?”, com a voz ríspida e
trémula. Ele ficou um pouco surpreso e concordou. Mas eu não consegui segurar o
meu castelo. Pela primeira vez na minha vida, levantei-me, virei-me para uma
pessoa e disse-lhe “eu vou dar uma volta ou assim”, e saí disparada para a
casa-de-banho, para libertar toda a água que me cobria os olhos. Nunca isso me
acontecera. Enquanto eu tomava esta acção, ele só pedia desculpa. Ele pedia
desculpa! Desculpa porquê? Por preocupar-se com uma miúda que conhece há pouco
tempo? Eu é que devia desculpar-me por deixá-lo naquele estado e daquela maneira!
Eu é que devia ter sido forte, agarrar todas as minhas pedras e reconstruir o
meu castelo antes de ele me ver, de me falar, de me ler... Depois de uns dois
minutos naquele cubículo, com miúdas aos berros a fazer sabe-se lá o quê,
limpei as lágrimas e vi-me ao espelho. Desviei a cara com vergonha. Respirei
fundo, pela bilionésima vez, e voltei para junto do meu amigo. As suas
desculpas voltaram e as minhas invadiram-lhe o discurso. Tentou animar-me;
perguntou-me se havia um assunto do qual pudéssemos falar que não me deixasse
naquele estado, que me ajudasse a ultrapassar aquilo. “Coisas engraçadas”,
atirei com aquele riso mascarado. E ele lá me contou uma comédia trágica da sua
vida, que me fez rir, desanuviar, afastar-me daquele buraco negro. Não lhe agradeci
por isso. Não podia; se o fizesse, tudo iria voltar e as lágrimas pintar-me-iam
novamente o rosto. Decidi não lhe agradecer; preferi manter aquele bom
ambiente. Pensei em tudo o que a sua voz pronunciava; tudo mesmo. Pensei na
maneira que os seus olhos não me julgavam e se abriam para me abraçar. Pensei
no seu sorriso, quando ele se virava para mim... E, ao mesmo tempo, pensava,
“como é que te vou dizer que já tentei (...), sem
que comeces a olhar para mim de maneira diferente? Como é que te vou dizer a
ti, que te conheço há pouco tempo, que sou (...), que toda a melancolia
que sinto advém de vários anos de sofrimento interno e de desespero emocional?
Como é que desabafo contigo sem que me julgues? Como é que te posso dar essa
confiança?”. Não que a não a mereças, porque, clara e comprovadamente, mereces.
Mas sou eu mesma que me imponho essa barreira, sou eu mesma que me repito que
tu me vais olhar como uma coitada, como uma miúda patologicamente triste, que
se vitimiza e que não merece a dedicação seja de quem quer que seja. Tu não és
assim; e eu sei que tu não és assim; mas eu
imagino-te a reagir assim, quando sei que não o farás. O medo da rejeição é
demasiado poderoso. Então, eu penso nisto e opto por guardá-lo para mim. E
depois afundo-me....
Agora, estou aqui a
escrever este texto enorme (e falta-lhe tanta coisa!) e penso “como é que todas
as outras pessoas viveriam se tivessem estes meus pensamentos? Como é que seria
viver como as outras pessoas, sem este medo terrível de confiar, de dar a mão,
de me deixar cair?”. É isto que me define, é isto que me regula: o medo de me
partilhar com alguém. Talvez um dia eu consiga conversar com este meu amigo e
dizer-lhe tudo isto, agradecer tudo o que ele fez naquele tão curto espaço de
tempo e contar-lhe, com o castelo sempre de pé, toda esta minha mágoa, sem
libertar um único suspiro de desespero. Espero que um dia consiga fazê-lo. Até
lá, fica por escrito...
"Love that once hung on the wall
Used to mean something, but now it means nothing
The echoes are gone in the hall
But I still remember, the pain of December
Oh, there isn't one thing left you could say
I'm sorry it's too late
I'm breaking free from these memories
Gotta let it go, just let it go
I've said goodbye
Set it all on fire
Gotta let it go, just let it go
You came back to find I was gone
And that place is empty,
Like the hole that was left in me
Like we were nothing at all
It's not what you meant to me
Thought we were meant to be
Oh, there isn't one thing left you could say
I'm sorry it's too late
I'm breaking free from these memories
Gotta let it go, just let it go
I've said goodbye
Set it all on fire
Gotta let it go, just let it go
I let it go and now I know
A brand new life is down this road
And when it's right, you always know
So this time I won't let go
There's only one thing left here to say
Love's never too late
I've broken free from those memories
I've let it go, I've let it go
And two goodbyes led to this new life
Don't let me go, don't let me go
Don't let me go, don't let me go, don't let me go, don't let me go
Won't let you go, don't let me go"