Esta é a sexta mensagem do ciclo que iniciei com "Até ao Verão", e esta foi baseada num sonho.
TEMPO DE REVIVER
«Ouvi-o com atenção.
Cada palavra, cada tom, cada lágrima. Absorvi como esponja e senti como meu. Observei-o
com cuidado. Os olhos verdes sofridos, os lábios trémulos, as mãos suadas, frias,
nervosas. A voz possuída, dolorosa, fraca e, ao mesmo tempo, tão poderosa. Os
seus gritos, os seus apelos, o seu desespero; tudo me atingiu como um tornado
que vi chegar e para o qual decidi não me preparar. Ele balançava o corpo para
a frente e para trás, impossível de parar, de pensar, de se acalmar, de
esperar, de viver. Impossível viver, era o que ele me dizia. Não lhe respondi,
não reagi sequer à sua explicação. Esperei que imperasse o silêncio, ainda que
tão ruidoso como aquele iria ser. Mas esperei. Tinha que esperar. Falar-lhe
naquele momento iria diminuí-lo, destruí-lo ainda mais. Por isso, esperei.
Ao fim de quarenta e
cinco minutos de um choro incontrolável, de uma berraria desesperante e de todo
um esvaziar emocional, ele calou-se. Os seus olhos pararam, os seus lábios
petrificaram, as suas mãos pasmaram, o seu corpo desumanizou-se. Ele parou;
parou e fitou o chão. Depois, desprendeu-se do chão e deteve-se nos meus olhos:
“Ajude-me, por favor”. Três palavras e um olhar difícil, uma voz calorosa, um
sorriso distante. “Vou-te ajudar, meu
pequeno”, pensei, sem reagir, mantendo serena a linha que me pintava os
lábios. “Vou-te ajudar e não vou deixar
que fiques igual a mim”. “Conta-me tudo do início, com calma. Temos muito
tempo”. Lancei-lhe um sorriso maternal, carinhoso, amigo, compreensivo. Ele
acenou e recompôs-se na poltrona: sentado de pernas abertas, de cotovelos nos
joelhos, com as mãos a segurar as têmporas era a sua melhor posição para ser
sincero, verdadeiro, ele mesmo.
Ele recomeçou toda a
sua história. O início era sempre igual: ele conhecia uma amiga de uma amiga e
ambos começavam a falar, como amigos. Ou porque frequentavam os mesmos sítios,
ou porque tinham um horário compatível ou porque se sentavam no mesmo lugar na
cantina. Por uma qualquer razão, como sempre acontece, a amizade florescia. Ela
ganhava um amigo e ele, uma amiga. Até que, como sempre lhe acontecia, a
bondade dela, a sua simpatia, o seu carinho, a sua disponibilidade, o seu
simples sentimento de amizade atingia-o como flecha envenenada. Ele começava a
sentir outra coisa por ela. Era só a partir deste momento que todas as suas
histórias mudavam, para acabarem todas da mesma maneira. Havia várias opções,
mas três revelavam-se mais comuns: ou ela era comprometida e ele, aí, desistia
e automaticamente tornar-se-ia somente um amigo e ficava feliz com isso,
verdadeiramente feliz; ou ela era solteira e não lhe correspondia, o que o
levava a viver para sempre num conflito interno (gostar dela, mas não poder
gostar mesmo); ou, como tinha acontecido da última vez, não interessar se ela é
ou não comprometida, é preciso fugir para evitar a ilusão, a decepção, o
coração partido.
Ele contou-me as três
versões, como contara faseadamente nas onze consultas que já vivêramos. O peso
da solidão, do medo, naquele corpo, naquele espírito de vinte e três anos era
ainda maior do que parecia. E eu revia-me nele. Do alto dos meus trinta e cinco
anos, eu sentia-me vivamente na pele daquele rapaz, como se o fosse realmente. E
aparentemente, ele percebia-o, ele sabia-o. O seu olhar pedia-me ajuda não como
profissional, mas como um igual, que já experienciara exactamente aquilo que
ele estava a passar. E aquele olhar dizia tudo: “como foi consigo? Também se
sentiu perdida, abandonada, vazia? Também se viu infeliz, melancólica, sem
vontade de apreciar a vista, sem vontade de viver?”. E a minha não reacção
dava-lhe as respostas que ele procurava. O meu silêncio dava-lhe o “sim” que
ele precisava de ouvir, de saber. Saber que não estava sozinho era o primeiro
passo para afastar todos aqueles medos. E bastava-me um silêncio para dar esse
primeiro passo.
Mas, a certa altura, o
silêncio deixa de ser suficiente. E os seus olhos exclamam-no com impaciência.
E é aí que entra a minha experiência. Começo por explicar-lhe que nem todas as
pessoas dão tanta importância a tudo isto como nós dois. Nem toda a gente
entende o que é viver com medo da rejeição e de nunca poder confiar nos outros.
Nem toda a gente tem a infelicidade de se apaixonar assim do nada, de se sentir
atraído por alguém que a vê com dignidade, respeito e carinho. Nem toda a gente
sabe o que é não conseguir traduzir isso como uma relação humana normal. Nem
todos sabem como é não conseguir lidar com isso. Digo-lhe que pode estar pouco
acompanhado, mas que nunca está só. Digo-lhe que faz parte de uma minoria, mas
que não é o único. Faço-o sentir-se compreendido sem, para isso, ter que o
enganar. Não preciso disso, não preciso de inventar que me identifico com ele,
não preciso de fingir. É a maior das verdades. Somos iguais; estamos no mesmo
nível. Naquelas sessões, o meu velho eu surge num recanto da minha memória para
ajudá-lo a ele, que se afirma num todo amargurado. E ele sente-se amado na mais
pura das formas.
São poucas as palavras
que lhe digo. No meio dessas poucas, há sempre frases que gosto de repetir,
outras que tento evitar, mas vejo-as como necessárias. E é então que, nesta
décima segunda sessão, ele explode. “Eu quero sentir aquelas inseguranças que
se sentem quando se está com alguém! Será que ela me vai trair? Será que ela
gosta mesmo de mim? Será que ela vai querer-me para sempre? Será?”. Todas
aquelas perguntas voam da sua boca com uma força tremenda. É esse poder que ele
tem que libertar e foi esse poder que ele, finalmente, decidiu mostrar-me. O “eu
quero ser inseguro com alguém” foi um passo gigantesco no seu pequeno e desconsolado
mundo. Soltar aquela frustração era aquilo que eu queria que ele fizesse. Mas
ele não ficou por ali. Também ouvi muitos “estou farto de ter medo de arriscar”,
“estou farto de ter medo de ficar sozinho”, “eu quero ter aquele medo que um
homem tem quando a mulher dos seus sonhos o sente distante”, “eu quero sentir
aquela dor pré-reconciliação de perder alguém”, “eu quero sentir todo o mau e
todo o bom que se sente quando se ama alguém”.
Sorri-lhe, com
entusiasmo. Ele agora estava de pé, a caminhar de um lado para o outro,
esbracejando, dizendo tudo o que lhe vinha na alma. Aquele desabafo era um
prémio incrível para mim e para ele. Para mim, que senti que o ajudava. Para
ele, que se sentia ajudado. Aquela explosão estava a fazer bem aos dois. E ele
não tinha medo. Pela primeira vez, ele cortava as suas próprias amarras e expunha-se
como um coração único, próprio, irrepetível. O ambiente mudara naquela ampla
sala. De repente, todas cores tornaram-se vivas e brilhantes, os peitos
elevaram-se e os sorrisos eternizaram-se. A diferença entre o início da sessão
e aquele preciso momento era quase impossível. Mas ambos fizemo-la acontecer. E
estávamos felizes, os dois. Quando ele finalmente acabou, quando finalmente se
sentiu extremamente mais leve, aproximou-se e abraçou-me, agradecendo com
palavras, olhares e suspiros. Retribui-lhe o abraço e acrescentei um “não tens
que agradecer” ao meu sorriso de orelha a orelha. Depois, ele pegou na mochila
e saiu do consultório, com uma enorme alegria de viver.
E foi aí que eu percebi
que aquele espírito podia ser o meu; que aquele indivíduo poderia ter sido eu.
Puxei a segunda gaveta da secretária e revirei todo o seu conteúdo à procura
daquela foto. Quando senti os dedos tocarem o papel velho, parei. Quereria
mesmo recordar o passado? Ignorei-me e agarrei a maldita foto, tirando-a para
fora da gaveta e levando-a aos olhos. Fixei a figura que, dez anos antes, me
fizera sentir aquilo que o Paciente sentia; aquele medo de confiar, de querer
ter, de não saber lidar voltou num ápice. Como dez anos eram eliminados nuns
meros dois segundos. Ele nunca soube; ou talvez soubesse; mas eu vivi aqueles
dois anos de amizade como um martírio emocional quase impossível. Queria amá-lo
e, ao mesmo tempo, não queria. Queria aprender a ser sua amiga, mas não
conseguia. Nunca consegui. A terceira opção do Paciente era a minha vida
constante com o Homem da Fotografia. Sempre que estava com ele, lá surgia o
horrível conflito interno que nem se interessava pelo estado civil Dele. Das
vezes que Ele teve namorada e das vezes que não teve, de todas essas, de qualquer
uma, eu sempre estive naquele impasse. Nunca aprendi a lidar com isso, nunca
consegui lidar com isso. E por isso, fugi. Isolei-me, deixei-me ficar só. E era
isso que eu não queria que o Paciente fizesse: que optasse pela via eternamente
dolorosa...».
"Todos os dias te amo, te quero, te chamo
Tu sabes que eu ainda espero
Todos os dias te amo, te quero, te chamo
Tu sabes que eu ainda espero
Abracei
Os dias que tivemos
As horas que passamos
Os corpos sendo um só
E beijei
Senti teus lábios ternos
Varrendo os meus invernos
Somente com um olhar
Somente com um olhar
Às vezes até me pergunto se existo sem ti
Preocupado por seres
O único assunto que me faz manter aqui
Às vezes até me pergunto se existo sem ti
Preocupado por seres
O único assunto que me faz manter aqui
Partilhei
Fui teu por poucas horas
Não sei por quem tu choras
Nas noites sem luar
E calei
A dor que me criaste
Dos braços em que entraste
Deixando-me sem ar
Deixando-me sem ar
Às vezes até me pergunto se existo sem ti
Preocupado por seres
O único assunto que me faz manter aqui
Às vezes até me pergunto se existo sem ti
Preocupado por seres
O único assunto que me faz manter aqui
Todos os dias te amo, te quero, te chamo
Tu sabes que eu ainda espero
Todos os dias te amo, te quero, te chamo
Tu sabes que eu ainda espero
Às vezes até me pergunto se existo sem ti
Preocupado por seres
O único assunto que me faz manter aqui
Às vezes até me pergunto se existo sem ti
Preocupado por seres
O único assunto que me faz manter aqui
Todos os dias te amo, te quero, te chamo
Tu sabes que eu ainda espero"