«Num dia chuvoso, discuti com os meus pais. Disse-lhes que os odiava. Eles perderam a fala, entre as lágrimas. Os meus dois irmãos mais novos choraram sem parar. O meu coração batia numa explosão de raiva e liberdade. Nesse mesmo dia, nessa mesma hora, fui para o meu quarto e arrumei algumas coisas - o essencial - numa pequena mala. Não inclui PC, mp3 nem telemóvel; apenas alguma roupa, um caderno e duas canetas azuis. Os números de telefone das pessoas que me interessam decorei-os há muito. Então, saí de casa, ainda estavam os meus pais no sofá sem reacção e os meus irmãos a chorar. Bati a porta com força sem me despedir de ninguém, nem do velho gato malhado que dormia na cozinha. Desci a rua com raiva, com as lágrimas do céu a completarem as minhas, que começaram a cair algum tempo depois. A roupa que levava a cobrir o corpo começava a ficar ensopada. Caminhava para longe, ainda sem destino, um caminho que fiz a noite toda até chegar a uma pequena ponte, onde pernoitei.
Isto aconteceu há quase oito anos. Nunca mais voltei. Nunca mais vi os meus irmãos, nunca mais ouvi a sua voz ou senti a sua mão na minha. Os meus pais... Nem uma palavra trocámos. Nem um e-mail, um telefonema ou uma mensagem de telemóvel. Nem sequer um pensamento, pelo menos da minha parte. Agora, recebi uma notícia da minha antiga família, pelo meu ex-namorado, através da nossa conta conjunta no facebook: a notícia da morte da minha mãe e do coma do meu pai, devido a um acidente de viação que envolveu uma dezena de carros e um camião que transportava combustível. O funeral da minha mãe seria daí a seis dias. A mensagem também dizia que os meus irmãos estavam maiores do que eu pudesse imaginar. Tinham agora dezoito e vinte e um anos. Ambos tinham alguém que amavam; o mais velho, há pelo menos dois anos. A mensagem acabava desta maneira: "Nunca deixei de te amar até teres deixado o meu coração vazio por completo, o que aconteceu há pouco tempo. Agora, mesmo sem te ouvir nem ver, parece que um bocado de ti voltou para o meu coração. Agora, voltei a lembrar-me de ti. Amo-te.".
Chorei. Chorei tristeza e saudade. Chorei o amor e a amizade que perdera. Mas ergui-me e voltei a erguer-me. Decidi ir. No dia seguinte, sentei-me na secretária e comprei um bilhete de avião para Portugal, para o dia do funeral. Agora, vivia nos Estados Unidos, em Los Angeles, num pequeno apartamento com o meu namorado Tyler e o nosso cocker preto, Marshall. Trabalhava num restaurante como empregada de mesa e adorava. Quando Tyler chegou a casa para jantar, contei-lhe o que acontecera e ele apoiou-me na minha decisão, acompanhando-me a Portugal. Contando os dias até à viagem, preparei tudo: roupa, alojamento, pet-sitter... No dia da viagem, o meu coração batia muito mais do que no dia em que parti. As minhas mãos estavam agarradas às de Tyler, que me consolava com abraços e beijos, sem palavras. A viagem pareceu mais longa do que era na realidade. À minha espera no aeroporto, ninguém... O meu destino era a Igreja da minha antiga localidade. Num carro alugado, conduzi com Tyler até lá. Enquanto a distância até à Igreja encurtava, as minhas memórias, vividas até aos dezoito anos nesta realidade, voltavam aos poucos e, com elas, também aos poucos, voltavam as lágrimas que derramei naquela longa noite. Tyler sentia-se como se aquela dor fosse dele. Tal como as minhas, as suas mãos tremiam e, tal como os meus, os seus lábios eram constantemente mordidos, para evitar um choro demasiado expressivo. Quando chegámos, limpei a cara e entrei de cabeça baixa na Igreja, com Tyler seguindo-me. Ouvia o Padre pronunciar algumas palavras, enquanto me sentava, discretamente. Alguns minutos depois, vejo uma figura alta a subir o altar e aproximar-se do microfone. Pelos seus olhos, percebi logo que era o meu irmão mais velho. A minha alma prendeu o meu corpo, deixando-o sem reacção. A voz do meu irmão a dar um último discurso pela minha mãe fez-me libertar uma gota sincera. No final da cerimónia e com o apoio de Tyler, aproximei-me dos meus irmãos. Quando eles me viram, os seus lábios nada disseram, mas os seus olhos denunciaram-nos. Estes diziam: "Perdoamos-te. Volta para nós." E foi o que fiz. Para sempre.»
Olá meu anjo :)
ResponderEliminarTenho seguido atentamente este teu fantastico blog, e digo te que noto em ti uma inspiração fantastica para a escrita, e até invulgar.
Espero que estas tristes linhas não sejam o espelho da tua vida, pois um ser humano tão fantastico como tu não merece tais atrocidades.
Sigo este teu blog desde Novembro e digo-te que me salvaste de por termo a esta vida miserável, vejo-te como uma lutadora, mas acima de tudo como uma vencedora, um obrigado a ti!
Despeço-me de ti meu anjo!
Muito obrigada!
EliminarAinda bem que marco a tua vida, porque esse é o meu objectivo: marcar a vidas das pessoas através da escrita.
Mais uma vez, obrigada!
P.S.: Por favor, diz quem és. Manda para o meu mail, sff.
Não tens de dizer quem és. Sou uma egoísta! Se queres assinar como anónimo, então fá-lo. Desculpa lá...
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