ZIRA E FIRE – PARTE I
Sarah apressou-se
a sair de casa, em direcção à Academia de Ballet, onde era bolseira. Desde
pequena que queria ser bailarina e o orfanato onde crescera sempre a ajudara na
conquista do seu sonho. Agora, já trabalhava e já sustentava o seu próprio
apartamento - ou, melhor dizendo, o seu pequeno T0, nuns subúrbios pouco
agradáveis à primeira vista. Mas Sarah estava a viver o seu sonho; tudo o resto
era um extra que facilmente suportava. Só havia um factor instável, mas
impossível de resistir: Tony, ou A. J. Fire, como era conhecido. O único
problema é que ele era um criminoso, temido pelos membros mais novos de todos
os gangs da zona e bem conhecido por outros
noutras zonas. Todos os dias, sempre que Sarah saía de casa, ela encontrava-o a
caminho do autocarro. Enquanto ela esperava na paragem, ele olhava-a do outro
lado da rua, ao longe, quase não se notando a sua presença, mas fazendo-se
sentir o suficiente para que a jovem corasse de timidez e desejo. Quando o
autocarro chagava e Sarah entrava nele, A. J. Fire levantava-se e via-a
desaparecer no interior do veículo. Depois, sentava-se, de novo, esperando que
o autocarro passasse por si, para que pudesse rever a bailarina, que, sempre
que podia, se sentava à janela, para o observar uma última vez. Era a única vez
que se viam durante o dia. À noite, quando Sarah voltava da Academia, a cena
repetia-se. Todos os dias eram assim: pequenas visões das paixões um do outro
era tudo o que tinham.
A. J. tinha todas
as raparigas que queria, mas havia apenas uma que ele desejava infinitamente:
Sarah. Talvez por ser bailarina. Talvez por ser intocável. Talvez por ser a
única rapariga de cadastro limpo que conhecia. Mas bem, ele não a conhecia.
Conhecia o seu tipo, isso sim. Elegante, silenciosa, «bem comportada»,
confiante, mas, ao mesmo tempo, frágil. Aquele tipo de rapariga que apetece
corromper. E, oh, como ele queria corrompê-la! Torná-la irracional, feroz,
temível e maliciosa. Queria torná-la uma versão feminina de si mesmo. As
raparigas do seu gang não eram boas o suficiente para serem
suas, a todos os níveis. Eram flores de estufa, que só tinham garganta... A. J.
Fire jurara a si mesmo que iria converter a bailarina numa criminosa exemplar.
Já tinha a sua atenção; agora, só precisava da sua lealdade e confiança.
O dia de Sarah
foi dos mais calmos que tinha tido ao longo dos anos. A preparação da nova peça
ia mais avançada do que se pensava e, por isso, o treino era mais leve. Como de
costume, tomou um duche rápido, na Academia, e foi para casa pelo caminho do
costume. Quando estava quase a chegar à paragem onde saía, percorreu o outro
lado da rua com o olhar, procurando A. J.. Porém, não o viu em lado nenhum. Deve estar a «trabalhar»...,
pensou, descendo as escadas do autocarro e começando a caminhar até casa. A
meio do caminho, Fire apareceu-lhe à frente, cumprimentando-a com um simples
«olá». Sarah parou, de repente, olhando-o nos olhos.
— Olá... –
Retribuiu, um pouco insegura. Fire apaixonou-se logo pela sua voz.
— Bem, sei que és
uma miúda ocupada, mas queria saber se estás disponível para sair, hoje à
noite. – Fire disparou o convite, sem piscar os olhos. Sarah surpreendeu-se.
— Hoje à noite?
Tipo, agora?
O olhar de
surpresa dele fê-la sorrir com um pouco de atrevimento no olhar. Afinal, o
nível de atracção física entre ambos era imensurável e aquele tipo de linguagem
era algo que ele não esperava de uma rapariga como ela. Pois, ele enganava-se
(e muito) a respeito dela…
— Exacto, agora.
– Fire voltou a impor o seu tom ligeiramente autoritário, incrivelmente
apetecível para os ouvidos de Sarah.
— Por mim, tudo
bem. – Aceitou Sarah, com um sorriso mais inocente. – Onde?
— Onde quiseres.
– Sugeriu Fire, olhando-a com provocação.
— Em minha casa?
– Contra-atacou Sarah, sem pensar duas vezes. Fire passou as mãos pelo cabelo
despenteado.
— Cozinhas tu? –
Sarah riu-se com a pergunta e Fire sorriu com o olhar, recordando-se que nunca
ouvira uma voz tão hipnotizante como a dela a rir-se.
— Claro. – Respondeu
a jovem, começando a andar em direcção a casa, obrigando Fire a caminhar ao seu
lado. – Se quiseres, até podes ajudar…
— Ah, achas-me
com cara de quem cozinhe? – Riu-se Fire. Sarah sorriu; o riso do jovem era
sedutor. – Tenho uma reputação a manter, como bem sabes.
— Como bem sei? –
Retorquiu Sarah, levantando uma sobrancelha, fingindo-se ignorante. – Eu nem te
conheço! – Riu-se, por fim. Fire decidiu provocá-la.
— Não me conheces
e convidas-me para tua casa?
Sarah reparou que
faltavam apenas alguns metros para o apartamento onde morava e aquela era uma
boa pergunta que merecia uma resposta cuidadosa. Por isso, Sarah… lançou-se de
cabeça.
— Não me conheces
e convidas-me para sair? – Idiota!,
disse a si própria.
— Acho que a
melhor forma de te conhecer é sair contigo… Ou não? – Riu-se Fire, esperando
que Sarah tirasse as chaves da mala, para abrir a porta do apartamento.
— Na teoria,
estás a entrar comigo… – Desta vez, foi Sarah que se riu, depois de perceber o
que dissera. Fire riu-se também. – Mas sim, é…
— Por acaso,
prefiro entrar. Sair é demasiado... – Fire parecia procurar uma palavra em
específico, enquanto Sarah abria a porta e os dois entravam no pequeno
apartamento.
— Fácil? – A
jovem encontrou uma palavra que lhe pareceu adequada à situação.
— Exactamente! –
Exclamou Fire, depois de Sarah trancar a porta. – Nunca pensei que nos
completássemos tanto...
— Espera até
chegarmos à sobremesa… – Provocou Sarah, deixando as segundas intenções
pairarem no ar sedutor que se começava a formar.
Fire sorriu com
desejo e seguiu-a até à cozinha, em passos largos. Sarah sentiu-o atrás de si,
como se de uma sombra se tratasse e, antes que pudesse fazer alguma coisa, ele
abraçou-a por trás e beijou-lhe o pescoço. Num suspiro, Sarah virou-se de
frente e beijou-o, pela primeira vez. Fire soltou os lábios da boca da jovem e
olhou-a de perto, pela primeira vez. Depois de um sorriso e um olhar trocados,
Fire cravou o seu corpo contra o de Sarah, sentindo-o pela primeira vez. Sarah
apertou a cintura de A. J. contra si, pela primeira vez. E, pela primeira vez,
o T0 foi usado para algo mais do que treinos, cozinhados ou noites bem
dormidas…
***
Tinha-se passado quase
um ano desde que A. J. Fire e Sarah – ou Zira K., como era mais conhecida –
começaram a namorar. A vida dele estava mais completa: tinha uma parceira no
crime e no coração, assim como uma tatuagem a mais. Também tinha ascendido na
hierarquia do gang, controlando,
agora, uma zona maior da cidade. Mas foi a vida dela que deu uma volta de 180
graus. Ao fim de umas semanas, acabou por deixar a Academia, dedicando-se
completamente à nova vertente profissional, sendo treinada por Fire, que lhe
reconheceu um «talento natural para a coisa». O seu cabelo escuro comprido
estava agora cortado curto, na diagonal e assimétrico. Os seus braços, costas e
peito estavam decorados com tatuagens simbólicas, das quais a sua preferida era
a que tinha junto ao coração: um par de sapatilhas de ponta, pretas, desenhadas
como se estivessem expostas numa montra, com os seus laços pendendo delicadamente.
As suas roupas, agora, eram muito mais práticas, justas e discretas do que o
habitual. O preto, o vermelho e o azul-escuro eram mais que abundantes no roupeiro
que compartilhava com Fire. Sim, Zira mudara-se para o abrigo do namorado, num
armazém abandonado, deixando o T0 para outra pessoa que quisesse seguir um
sonho.
No meio disto
tudo, a jovem viu-se a provar que merecia o seu lugar de alfa, através de pequenos
assaltos, incêndios e mentiras; tudo era feito em nome do seu amor por Fire,
que a acompanhava sempre nessas andanças. A luta pelo cargo mais desejado – e pelo
coração do rapaz – era feroz e Zira tinha que se concentrar em marcar uma posição
firme, irrefutável e que, ao mesmo tempo, desse confiança aos outros membros do
gang, ou «irmãos», como se chamavam
uns aos outros. Por isso, Zira ajudava Fire na tomada de decisões e impunha-se
autoritária sempre que sentisse necessário. Por vezes, os membros mais novos
desafiavam-na, mas Zira calava-os apenas com o olhar. O seu nome era sinónimo
de poder, medo, fascínio e confiança. A jovem era conhecida e reconhecida por
todos aqueles que faziam parte daquela vida.
Fire gostava de
vê-la assim, poderosa como ninguém. A certa altura, até achou que ela poderia
ultrapassá-lo sem quaisquer dificuldades, mas o amor que ela tinha por ele
sempre a manteve fiel ao seu lugar. E ela gostava de estar onde estava. Todos
os dias provava isso, fosse de que maneira fosse. Por vezes, bastava um simples
olhar para tranquilizá-lo. Outras vezes, o mesmo olhar poderia deixá-lo louco e
a conversa só acabava no quarto – ou onde calhasse. Por isso, nada preparara
Zira para o que acontecera naquele dia…
Fire recebera
informações preciosas que o iriam ajudar num assalto a uma sucursal de um banco.
Depois de apresentar o plano a Zira, esta explicou-lhe os riscos implícitos mas
prometeu-lhe protecção caso algo corresse mal. Numa troca de beijos fogosa, os
dois deram os toques finais no plano e transmitiram-no aos membros escolhidos
para a tarefa. Seria um pouco mais arriscado do que o costume mas tudo seguiria
no bom caminho se todos fizessem o planeado. Com tudo esclarecido, meteram-se a
caminho do alvo. Quando lá chegaram, cobriram o rosto com máscaras negras e
ameaçaram os funcionários com armas de fogo ligeiras. O processo foi-se
desenvolvendo com a naturalidade que lhe era costume, mas algo de inesperado
aconteceu: uma patrulha da polícia passara na rua, por acaso, e reparara no que
se estava a passar. De imediato, Fire e Zira deram as ordens de retirada e de separação
dos elementos do grupo, para se tornar mais fácil a fuga. Porém, Zira foi
puxada por um dos funcionários, que a atirou ao chão. Ela respondeu com uma
rasteira, fazendo cair o homem. Quando se levantou, à pressa, para correr atrás
de Fire, já a polícia entrara e a agarrara, com força, imobilizando-a. Sem
saber como, Zira tinha sido detida…
De volta à sede,
Fire nem queria acreditar no que acontecera: a sua namorada e parceira tinha
sido capturada pela polícia e de certeza que seria presa. Ignorando por
completo o saque espalhado em cima da mesa, Fire correu para o quarto e chorou,
pela primeira vez na sua vida. Não queria perdê-la; queria resgatá-la, queria
libertá-la, trazê-la de volta. Sabia que tinha que ir reportar o sucedido ao
chefe de toda a organização, o senhor Montague, e também sabia que ele não
ficaria nada contente com a situação…
***
— Se me disseres
os nomes, a tua pena será menor. – Repetiu-lhe Grace, a detective encarregue do
caso de Zira. Esta olhou-a com ferocidade.
— Já lhe disse
que não vou denunciar ninguém. – Reforçou a rapariga, rangendo os dentes.
— Querida, os
teus cinco anos podem passar para dois, ou até para menos… Não vês a diferença?
– Grace insistiu com Zira, prometendo-lhe uma pena menor, mas a jovem não iria
abrir a boca.
— Primeiro que
tudo, eu sou tudo menos querida e segundo, você é que parece não ver a
diferença entre uma afirmação e uma negação. – Provocou Zira. – Qual foi a
parte do «não» que não percebeu?
— Então, vais
perder cinco anos da tua vida por uns tipos que não querem saber de ti para
nada e nem te ajudaram a fugir? – Perguntou Grace, num tom de voz alto o
suficiente para fazer tremer qualquer um; qualquer um excepto Zira, que nem
piscou os olhos.
— O erro foi meu,
sou eu que tenho de o corrigir. Além disso, eles preocupam-se o suficiente
comigo, acredite. Aliás, até era capaz de apostar que os informadores que tem
por aí sabem o meu nome e a minha reputação detrás para a frente e também já
devem saber que vai ser difícil substituir-me.
Grace calou-se
por momentos. Primeiro, ela achava incrível como é que uma rapariga como aquela
era capaz de ter a tamanha confiança e inteligência que demonstrava; segundo,
como é que ela sabia dos informadores que Grace lançara no terreno; e terceiro,
como é que ela sabia que a concorrência era pouca.
— Então,
detective, diga lá o que está a pensar? – Incitou Zira, num tom de voz
provocante e intimidador ao mesmo tempo que doce e inocente.
— Última
oportunidade. – Atirou Grace, sem pestanejar.
— Vemo-nos daqui
a cinco anos, Grace. – Sorriu Zira.
***
Dias depois, Zira
deu entrada na prisão feminina, longe de casa, longe de tudo. Deram-lhe uma
cela relativamente grande, com uma colega de quarto. Tudo tinha um ar frio e
Zira tinha que se habituar depressa. Para sua surpresa, no primeiro dia de
visitas, Fire apareceu para vê-la. Conseguira entrar com documentos falsos, mas
as notícias que trazia não eram boas. Ambos sabiam que não mais se veriam, não mais se tocariam, nos próximos cinco anos. Zira decidira que não poderiam
manter contacto de maneira nenhuma, nem por carta; era demasiado perigoso. Foi
também ela quem pôs um ponto final no namoro. No final, os dois choraram o que
puderam e separaram-se uma última vez. Quando Zira voltou para a cela, a última
coisa que fez antes de adormecer foi chorar; chorar até adormecer…
CONTINUA...
"Talking loud, talking crazy
Locked me outside
Prayin' for the rain to come
Bone dry again
Guess it's true what they say
I'm always late
Say you need a little space
That I'm in your way
It hurts, but I remember every scar
And I've learned
But living is the hardest part
I can't believe what I did for love
I can't believe what I did for us
Crash and we burn into flames
Stitch myself up and I'd do it again
I can't believe what I did for love
(What I did for love)
What I did for love
(What I did for love)
What I did for us
(What I did for love)
What I did for love
(What I did for love)
What I did for us
I'm a fool for your games
But I always play
Can't admit it was a waste
There's too much at stake
It hurts,
But I remember every scar
And I've learned
But living is the hardest part
I can't believe what I did for love
I can't believe what I did for us
Crash and we burn into flames
Stitch myself up and I do it again
I can't believe what I did for love
(What I did for love)
What I did for love
(What I did for love)
What I did for us
(What I did for love)
What I did for love
(What I did for love)
I can't believe what I did for love"
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