"Acordei com a saudade amarga de a sentir a meu lado. Estendi o braço
esquerdo para o lado respectivo da cama; o colchão estava vazio. Não a encontrei lá deitada, nem me encontrei
a mim junto dela. O meu «nós» passou
a «eu» como nunca o fora antes. E o «eu» dela
era só, como o meu era. Levantei-me com a mesma saudade com que acordara;
afinal, a saudade era a minha companheira sempre que ela não estava. Caminhei
até à casa-de-banho com a saudade habitual, mas, desta vez, acompanhado também
por um sorriso que apareceu só porque se recordou do sorriso dela. Esse sorriso
levou a um olhar doce, que levou a uma caminhar confiante e a um levantar de
cabeça efectivamente humano. Até aí, era máquina de saudade, o meu corpo mole e
triste. Agora, e depois de todas estas acções sentimentais, até o meu cabelo
parecia vivo. Lavei a cara; reparei que tinha cor. O preto e o branco haviam
sido multiplicados e as cores primárias apareceram como que num piscar de olhos
inédito. O que um sorriso faz a uma
pessoa... De repente, tornei-me alguém.
O tempo caminhava mais depressa do que eu.
Depois de me despachar, fui para a cozinha. E a saudade, agora mais alegre, lá
me acompanhou. E levou amigas! A felicidade, a tristeza, a ansiedade e a
acalmia vinham tomar o pequeno-almoço comigo e com a saudade. No fim de contas,
elas eram as suas convidadas. Preparei o meu café com leite e ouvi-as
conferenciar entre si. Desliguei-me delas, não por má educação, mas porque não
queria ouvir a sua conversa. Além disso, tinha fome, o que não era costume, por
isso decide comer, para variar. Enquanto as torradas faziam, pensei nas manhãs
de pequeno-almoço com ela. Outro sorriso... Estava a gastar os sorrisos muito
depressa, hoje. Tinha que os poupar, ou não? Sei lá, tinha tantas boas
recordações que, provavelmente, tinha sorrisos para dar e vender... E ainda
sobravam alguns para mim e para ela. Ela... o sorriso dela nos seus lábios, nos seus olhos, no seu cabelo, no seu
corpo... Os sorrisos dela estavam em
todo o seu ser e estavam em mim. A saudade puxou-me com força para uma cadeira,
obrigando-me a sentar. A tristeza olhou-me nos olhos e... sorriu., triste. A
felicidade correu a abraçá-la, reconfortando-a. Os meus olhos deixavam cair as
lágrimas ao mesmo tempo que a boca esboçava um sorriso e as mãos se
entrelaçavam; era a ansiedade que tremia, explosiva e entusiasmada. A acalmia
fazia um discurso que ninguém parecia ouvir, mas ao qual todos obedeciam. A
saudade fez-me recuar no tempo. Vi-a
rodopiar à minha frente, com aquele vestido de renda, bege e leve; o cabelo
esvoaçante, os braços delicados. Antes que pudesse olhar o seu rosto, tudo
desapareceu e o passado surgiu de repente, gritando-me insultos. Cheirou-me a
queimado; esquecera-me das torradas. As minhas convidadas (e «convidado»)
eclipsaram-se. Estava novamente sozinho...
Torradas queimadas não tornavam o meu
pequeno-almoço no melhor do mundo, mas, quando partilhado com a saudade, até
que nem era mau. Tudo acontecia com algo mais: mais cor, mais alegria, mais
sentido, mais qualquer coisa. Era “mais” qualquer coisa, por isso, era bom. A
saudade investiu em força, relembrando-me que “mais” é bom, mas “dois” é
melhor. Dois, apenas dois... Porque é que custa tanto? A saudade dizia-me para
correr atrás dela, porque também ela tinha saudade e duas saudades juntas
eliminavam-se uma à outra. Era difícil ter saudades da saudade. Mas eu tinha...
Eu tinha saudade... Saudade minha, saudade dela,
saudade da saudade dela... Como era
possível sentir tanta saudade junta? Só
alguém que sente muito e que tem muito para sentir é que consegue sentir
tanto..., dizia-me a acalmia, enigmática nas suas palavras e sensata nos
seus gestos. Seria possível tanto
sentimento numa só manhã?, perguntei-me com um sorriso transparente. A
acalmia riu-se; a saudade meteu-se à frente e respondeu que, provavelmente,
também ela estaria assim. Estaria mesmo?”
Ele
“Começava a ficar farta de esperar pelo
futuro; ainda por cima, tinha que esperar com o lado direito da cama vazio.
Sorri-lhe, imaginando-o ali deitado,
a olhar para mim. Ele nunca dormia na
primeira noite que eu voltava. Com a mesma rapidez com que o sorriso aparecera,
chegou a mágoa, a tristeza, a melancolia e a saudade. A primeira lágrima ainda
apanhou o rasto do sorriso, que fugiu a correr, mas a segunda já só sentiu a
mágoa; a saudade ainda veio primeiro que a tristeza e a melancolia foi a última
a entrar no meu coração. De repente, perdi a conta às lágrimas. Porém, a
memória decidiu reagir, enviando as recordações certas para baterem à minha
porta sentimental. A saudade, tal qual um cavalheiro, abriu-lhes a porta e
fê-las convidadas sem hora de saída marcada. Logo se indignaram todas as que já
lá estavam, indo amuar para um canto, observando as recordações comandarem o
meu corpo. Só agora conseguia levantar-me e ir tomar um duche; mas fui a única
que entrei na casa-de-banho; elas esperaram lá fora, todas elas. Apenas me
acompanharam ao pequeno-almoço.
Enquanto procurava o doce de cereja para
pôr nas torradas que estavam a fazer, elas puseram a mesa e sentaram-se a
conversar. Perguntavam-se umas às outras porque é que eu não falava; como se eu
ali não estivesse. Sorri quando ouvi a saudade defender-me, esclarecendo as
amigas de que o problema era que eu tinha demasiadas saudades dele, assim como ela tinha saudades da
saudade dele. A mágoa encolheu-se;
também ela sentia o mesmo. Olhei-a com doçura, sorrindo-lhe. Ela olhou-me de
volta, esperançosa. O dia estava quase a chegar...”
Ela
“Esta mistura de sentimentos matava-me. Era
uma mistura que me fazia lembrar uma dança infernal. Eu era mau dançarino;
tinha dois pés esquerdos e nunca estava no ritmo certo. Esta dança matava-me da
mesma maneira que esta espera no aeroporto o estava a fazer. Como me podia sentir
tão morto e tão vivo ao mesmo tempo? A saudade sorriu-me em resposta; ela sabia
que eu não queria uma resposta, pelo menos, não em palavras. Eu só queria vê-la, tê-la, reencontrá-la...
Depois de experienciar a eternidade por cinco longos minutos, vi-a surgir no horizonte. Os meus
sentimentos acalmaram-se, juntando-se ao meu lado, expectantes. À medida que ela caminhava para mim, as minhas
companheiras olhavam-me, tentando perceber a minha futura reacção. Porém, a
saudade foi a única que me deu a mão. Quando olhei para ela, ela olhou-me de
volta e sorriu. Nunca vira tanta paz no seu rosto. Deixei cair uma lágrima; as
amigas da saudade fizeram o mesmo. Olhei de volta para ela e comecei a correr na sua direcção. Ela começou a andar mais depressa, fazendo esvoaçar todas as pontas
soltas da sua farda militar, lembrando-me o vestido de renda. Dos seus olhos,
escorriam lágrimas impacientes. Ela
abriu os braços e eu agarrei-a,
pegando-a ao colo, rodopiando uma vez
apenas. A dança de sentimentos atingiu o seu ponto mais alto como nunca
acontecera, pelo menos, não com tanta verdade, poder e alegria. O nosso beijo
de boas-vindas fez chorar as nossas saudades, mágoas, alegrias, tristezas e
acalmias. Era demasiado sentimento num só momento; tanto que até as nossas emoções
sentiam. «Amo-te tanto» foram as únicas palavras que pronunciámos; tudo o
resto, os nossos sentimentos falaram por si. As saudades uniram-se como nunca e
as suas companheiras decidiram juntar-se a elas. Cada uma voltou ao seu lugar
sabendo que demoraria para voltar a sair do seu esconderijo. Pelo menos,
assistiram ao reencontro...
Despedimo-nos delas com sorrisos; elas
despediram-se de nós com muitos acenos. Outro beijo e um abraço mais forte.
Finalmente, a nossa dança voltara ao que era antes de entrar em palco:
eterna... Para sempre, eterna...”
Ele
"Chegaste de passos apertados
Os olhos embargados
Cheios de medos teus
Pediste que te levasse a mágoa
E que te tocasse a alma olhando para os meus
Apertei-te contra ao peito, num abraço perfeito
A rua como companhia
Às vezes escura e fria
Pura realidade
Ninguém olha p'ra ti
Com olhos de gente
Ate mesmo indiferente
A quem és de verdade
Esquece o teu mundo lá fora
É hora de ir dançar
Esta noite dança só p'ra mim
Que esta dança nunca tenha fim
São asas que me dás
Levam alto p'ra longe
Esquece o teu mundo lá fora
É hora de ir dançar
Esta noite dança só p'ra mim
Que esta dança nunca tenha fim
São asas que me dás
Levam alto
Esta noite dança só p'ra mim
Que esta dança nunca tenha fim
São asas que me dás
Levam alto p'ra longe
até de mim
até de mim"
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