ZIRA E FIRE – PARTE II
Passaram quase
quatro anos desde que Zira fora presa. Muito mudou entretanto. Lá dentro, a
jovem ligou-se à colega de quarto, Layla, e não arranjou inimigos. Foi sempre
discreta e nunca revelou os seus segredos, fosse do que fosse, a ninguém. Passava
os dias a treinar como se ainda andasse na Academia e muitas das colegas apreciavam
esse seu lado. Até chegou a dar algumas aulas colectivas, coisas básicas. De
resto, só Layla sabia as razões da prisão de Zira, que não as oficiais e também
só ela sabia o que Zira iria fazer quando saísse da prisão. A resposta à
pergunta era sempre a mesma: “Vou voltar à vida que tinha antes de vir para
aqui”. E sempre que Layla insistia, perguntado a que “vida” é que a amiga se
referia, esta nunca lhe dava uma resposta.
Cá fora, também
muito tinha mudado. As notícias chegaram a Zira através de outra rapariga,
Delia, que entrou uma semana antes de Zira sair. A miúda de 19 anos reconheceu
Zira através da sua tatuagem das sapatilhas de ballet. As duas tornaram-se
inseparáveis por conveniência: Delia contava-lhe como andavam as coisas lá fora
e Zira relatava-lhe as suas aventuras nos dois lados. Os últimos dias da jovem
na cadeia foram passados num treino mais intenso que o habitual. Tanto o seu
corpo como a sua mente começavam a focar-se num objectivo mais concreto. O fim
aproximava-se…
Faltavam catorze
meses para concluir a pena quando Zira foi libertada por “bom comportamento”. A
jovem ria-se cada vez que pensava na expressão: Bom comportamento, dizem eles… Eles nem fazem ideia do que eu sou capaz…
A primeira coisa que fez foi caminhar até à cidade, onde, por dois dias, se
tornou carteirista e dormiu na rua. Quando já tinha dinheiro suficiente, começou
a executar o plano que delineara nos 46 meses de prisão que vivera. Cortou o
cabelo, que entretanto crescera, da mesma maneira que o tinha cortado quando se
tornara parceira de Fire. Comprou roupa desportiva, justa e preta, e recuperou
as velhas sapatilhas de ballet, que guardara numa pequena arca, na cave do
apartamento onde morara. Pegou na roupa velha que encontrou e deu-lhe um novo
destino: doou-as, anonimamente, ao orfanato onde crescera, para que fossem
usadas por quem precisasse. Depois de arranjado o guarda-roupa completo, Zira
procurou um sítio onde pudesse pernoitar sem ser incomodada. Descobriu uma
carrinha pão-de-forma numa sucata e comprou-a com algum do dinheiro que lhe
restava. O que sobrou foi para pagar aos donos da sucata, para que ela pudesse
lá manter o seu esconderijo sem denúncias à polícia ou quaisquer outros inconvenientes.
Assim que tinha
tudo organizado e estável, Zira pediu tinta preta para tecido a um dos donos da
sucata. Apesar de estranhar o pedido, o velho arranjou-lhe a tinta. Numa noite,
a jovem despejou a tinta numa lata grande e misturou-a com água, dando-lhe mais
volume. Com um sorriso ansioso, pegou nas velhas sapatilhas e mergulhou-as por
completo na tinta preta. Começava, assim, o regresso à vida antes da prisão…
***
No dia seguinte,
Zira calçou as sapatilhas, entretanto ligeiramente modificadas, e saiu à
procura de um objecto que lhe fazia falta: uma arma. Entrou em contacto com o
antigo fornecedor de Fire, que também a conhecia, e marcou um encontro. O homem
de 32 anos surpreendeu-se quando viu Zira entrar no seu refúgio; não por estar
diferente do que ele conhecia, mas por estar ainda melhor. Ela disse-lhe que
queria uma arma específica e, assim que ele lha deu, Zira bateu-lhe na cabeça,
deixando-o inconsciente. Quando o homem acordou, assustou-se: estava preso a
uma cadeira, descalço, com fios eléctricos por todo o lado, mas dentro do seu próprio
refúgio. Zira estava à sua frente, com um sorriso maníaco, balançando a nova
arma na mão direita. Depois de cumprimentar o homem, ordenou-lhe que lhe
contasse tudo o que acontecera desde que ela tinha sido presa. Após vários
momentos de tortura, que incluíram tiros, electricidade e pancadaria, o homem
revelou toda a organização que entretanto crescera: Fire era agora o chefe
principal, dirigindo subordinados e equipas, zonas e transacções; tudo o que o
senhor Montague fazia antes de ser assassinado por… Fire. Foi assim que ele ascendeu, então…, pensou Zira, sorridente. Antes
de sair do refúgio do fornecedor, a jovem telefonou para a polícia, dizendo que
lhes deixara um pequeno presente, indicando a morada e desligando o telefone
antes que a secretária pudesse dizer alguma coisa.
Continuou a
percorrer o caminho hierárquico na organização até chegar a Fire. Adaptou-se
rapidamente ao calçado simbólico, que unia o passado ao presente, e sorria por
isso. Pelo caminho vingativo, deixava “presentes” à polícia local: criminosos
amarrados a cadeiras, pilares ou até tubos de esgoto, feridos com marcas de
fortes golpes e um ou dois tiros, mas sempre vivos. Ao seu lado ou à sua volta,
estavam também dispostas provas dos crimes de que eram autores: fotos, papéis,
o que fosse que os mandasse para a prisão. No meio disso tudo, Zira também
deixava um bilhete para a detective Grace, onde constava apenas um coração
desenhado – uma espécie de assinatura. Demorou pouco mais de um mês para Zira
encontrar a sede de Fire. Era um armazém na zona industrial, que lhe fazia
lembrar os tempos em que namoravam. Feita a descoberta, Zira foi visitando o
armazém, secretamente, tentando perceber como funcionava ali a logística:
quantos homens, quantas mulheres, quantas armas, quantas hipóteses. Zira
percebeu que Fire passava lá as noites, o que dava a entender que tinha lá um
quarto. A jovem também sabia algo que realmente a incomodava: Fire arranjara
uma nova parceira oito meses depois da ex ter sido presa. Pior ainda era que a
nova alfa adoptara um nome muito parecido ao de Zira: Kira. E nem sequer tem nada que dê para agarrar…,
resmungou a jovem depois de ver a miúda, vezes sem conta. Decidida a amedrontar
a rapariga – e toda a organização – Zira planeou a sua chegada ao pormenor. Uns
dias depois, desencadeou a sua última tarefa…
Numa manhã
solarenga, Zira levantou-se da “cama” que o banco da carrinha pão de forma
proporcionava e vestiu-se como de costume, mas, desta vez, optou por não levar
a arma. De mente e espírito aberto, percorreu a estrada até ao armazém de Fire
e, sem mais nem menos, entrou com ar possante, escancarando as duas grandes
portas. Um “guarda” – o miúdo não devia ter mais que 16 anos – deu o alerta,
apontando a arma a Zira, que parou a olhar para ele, com um sorriso sedutor. No
piso térreo, surgiram vários rapazes/homens e três raparigas, enquanto, do piso
de cima, apenas apareceram dois homens, que Zira reconheceu como seus antigos
subordinados, e a idiota da nova alfa, em trajes menores. Quando a viu, Zira cuspiu
para o chão e sorriu, maliciosamente. Por trás da alfa, apareceu aquele por
quem ela mais esperara: Fire, que fez um ar extremamente surpreendido por vê-la.
Zira passou logo ao ataque.
— Não faças essa
cara, porque eu sei que tu sabes que eu vinha... – Fire não respondeu nada, nem
mesmo quando a sua parceira o olhou, indignada. – Tiveste saudades? – Riu-se a
jovem, cativante. Fire derreteu-se.
— Queres subir? –
Todos os membros olharam para Fire, atónitos.
— Nem me
apresentas, querido? – Provocou Zira, começando a andar em direcção às escadas.
— Quem é esta? –
Atirou Kira, virando-se para Fire.
— Zira K.. –
Respondeu Zira, de repente e bem alto. – Reconheces? – Kira fitou, com espanto,
a ex-alfa, tal como os membros mais novos do gang.
— Tu nem me
deixas falar, Z.. – Brincou Fire, chamando a ex pela alcunha de namoro.
— Oh, já me
conheces! – Alinhou Zira, quando se aproximou do casal. – Estou a ver que tens
uma boneca nova… – Comentou, olhando Kira de cima a baixo.
— A boneca tem
nome! – Resmungou Kira, com raiva.
— A boneca fala,
que engraçado... – Cuspiu Zira, levantando a sobrancelha e rindo. Fire riu-se
também, o que abalou um pouco a posição de Kira. – Ela é boa na cama?
Toda a gente
fitou Fire: Zira estava a jogar um jogo perigoso. Desarmar a alfa em frente ao gang inteiro e daquela maneira era uma
estratégia que podia revelar-se contrária ao que deveria ser. Mas Zira nem
vacilou. Ela sabia que não havia ninguém melhor que ela para Fire, fosse no que
fosse. A resposta saiu dos lábios do chefe de uma forma muito natural.
— Nem te chega
aos calcanhares. – Kira fez um ar desolado quando Fire respondeu à pergunta.
— Eu sabia. –
Sorriu Zira.
— Se sabes que és
a melhor, porque é que perguntas? – Riu-se Fire, desviando Kira e
aproximando-se de Zira.
— Porque há
pessoas que não sabem… – Provocou Zira, beijando Fire com fogosidade. –
Precisamos de falar. Vamos para o teu quarto? – Fire nem respondeu; apenas
entrou com Zira no quarto e fechou a porta, deixando tudo e todos.
Ninguém queria
acreditar no que acabar de acontecer, principalmente Kira, que vira a sua autoridade
questionada por uma ex-alfa, que só tinha fama. Mas bem, tendo em conta o
sucedido, a fama era-lhe merecedora…
Zira passou o dia
inteiro com Fire, a fazer mais do que apenas “falar” – os gritos de prazer de
ambos ouviam-se a milhas – e, no fim do dia, Zira ainda teve a lata, segundo
Kira, de dar ordens a subordinados seus e sair impune. Inconscientemente, todos
sabiam que ela voltaria e, da próxima vez, viria (ainda mais) armada.
***
Finalmente,
chegara o dia D. Enquanto o sol esteve no alto, Zira preparou-se para a “festa
de logo à noite”, como lhe chamou, e, ao final da tarde, pôs-se a caminho do
armazém. Enquanto todos dormiam – excepto os jovens guardas – Zira subiu ao
telhado e disparou contra eles, com soro tranquilizante, deixando-os
adormecidos. Depois, voltou a descer e entrou, em silêncio. Foi percorrendo as
salas e quartos, neutralizando toda gente que encontrava, levando-os, depois,
para um canto da entrada do armazém. Ainda ninguém dera o alarme. Assim que reunira
todos os membros do piso térreo, Zira passou para o piso superior, com muito
mais cuidado. Os treinos que fizera na cadeia mostravam-se essenciais nas
manobras que executava. Ao fim de uns minutos, só restavam Fire e a outra. Zira
entrou no quarto, silenciosamente e com a atenção redobrada. Quando olhou para
a cama, sorriu, maliciosamente. Fire continuava a dormir nu. Já a outra… Estava
com uma camisa horrível e estava de costas para Fire, toda encolhida. É mesmo idiota…, pensou Zira, revirando
os olhos. De seguida, apontou-lhe o tranquilizador e disparou, repetindo o
mesmo com Fire.
Quando todos
acordaram, tiveram reacções diferentes: os mais novos entraram em pânico,
enquanto os mais velhos procuravam uma saída e outros nem reagiam. Todos
estavam na mesma situação: atados a cadeira, pregadas ao chão, apenas com a
roupa que tinham no corpo que, no caso de Fire, era nenhuma. Havia uma carrada
de papéis espalhados meticulosamente no chão, juntamente com fotografias e
outros objectos.
— O que é que
estás a fazer, Zira? – Perguntou Fire.
— O que é que te
parece? – Contrapôs a jovem.
— Que nos vais
matar a todos? – Tentou Fire, em tom de brincadeira. Os mais novos fizeram um
ar ainda mais assustado.
— Estás parvo? –
Riu Zira. – A boneca deu-te cabo dos neurónios, estou a ver…
— Já te disse que
a boneca tem nome! – Respondeu Kira, balançando-se na cadeira.
— Tu ainda não
percebeste que eu não quero saber do teu nome para nada, pois não? – Retorquiu
Zira. – O teu nome não interessa a ninguém e não é por ser parecido com o meu
que vai ser lembrado por alguém. Vê se cresces, miúda. – Riu-se a jovem.
— Querida, vais
responder? – Insistiu Fire. Kira bufou de raiva.
— Vou meter-vos a
todos na prisão, que mais poderia ser? – Retorquiu Zira, brincando com a arma.
— E como é que
vais fazer isso? – Continuou o alfa.
— Fácil. Vou
deixar-vos aqui, telefonar para a polícia e... Talvez encomende uma pizza para assistir ao espectáculo. –
Sorriu Zira, com naturalidade.
— Amor, o que é
que ganhas com isto tudo? Vais voltar para a prisão de qualquer das maneiras…
Zira aproximou-se
de Fire e sentou-se no seu colo, de frente para ele. Com uma perna de cada
lado, pressionou-se contra o seu colo, seduzindo o corpo do amante com subtileza,
que correspondia com paixão da maneira que podia. Com as mãos, agarrou o cabelo
de Fire e puxou-o, inclinando-lhe a cabeça para trás, num acto quase selvagem,
enquanto lhe beijava o pescoço. Quando chegou aos seus lábios, parou e olhou-o
nos olhos.
— Só preciso
desta vingança. Nada mais me interessa. – Disse Zira, num tom sinistro.
Fire não
conseguiu dizer nada. Aliás, nem conseguiu reagir. Ele realmente tinha mudado
aquela rapariga e a prisão ainda a tornou mais perigosa. Ela era uma obra de
tarde, a sua obra de arte, e, agora,
virara-se contra ele. Tal como o chefe, ninguém foi capaz de proferir uma única
palavra. Ninguém disse nada enquanto Zira telefonava para a polícia e escrevia
o bilhete para a detective. As vozes só surgiram quando os olhos viram Zira
despejar gasolina pelo armazém, à volta do pequeno círculo de criminosos e
provas. Ele não ligou a nenhum grito; era óbvio que ela não os ia queimar, nem
a eles nem às provas. Apenas lhe apeteceu pôr tudo a arder; deixava-a com o
sentimento de missão cumprida. Pouco tempo depois de estar a arder, Zira saiu,
permanecendo, na rua, à espera das autoridades.
***
— Não te percebo,
sinceramente... – Riu-se Layla, assim que viu Zira entrar, de volta, na sua
cela. – Não disseste que ias voltar à tua vida antes de vires para aqui?
— E voltei. –
Retorquiu Zira, com a maior das tranquilidades. – Antes de vir para aqui, era
criminosa. E, agora, estou de volta.
— Porquê? Podias
ter gozado a vida lá fora como deve ser…
— Chama-se viver
de consciência tranquila, Layla. Devias experimentar. – Riu-se Zira.
— “Consciência tranquila”?
– Gozou Layla.
— Também
conhecida como “vingança”. – Acrescentou Zira, deitando-se na cama, de barriga
para cima.
— E vê lá onde é
que isso te levou… – Constatou Layla, sentando-se ao lado de Zira.
— Era tudo o que
eu precisava…
— O quê?
Vingança?
— Sim… Vinguei-me…
Era só disso que precisava… Tudo o resto, é um extra…
Zira fez um
sorriso malicioso. Sabia bem, a vingança…
FIM
"Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
B-B-B-Be careful making wishes in the dark, dark
Can't be sure when they've hit their mark
And besides in the mean, mean time
I'm just dreaming of tearing you apart
I'm in the de-details with the devil
So now the world can never get me on my level
I just gotta get you off the cage
I'm a young lover's rage
Gonna need a spark to ignite
My songs know what you did in the dark
So light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
I'm on fire
So light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
I'm on fire
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
In the dark, dark
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
In the dark, dark
All the writers keep writing what they write
Somewhere another pretty vein just dies
I've got the scars from tomorrow and I wish you could see
That you’re the antidote to everything except for me, me
A constellation of tears on your lashes
Burn everything you love, then burn the ashes
In the end everything collides
My childhood spat back out the monster that you see
My songs know what you did in the dark
So light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
I'm on fire
So light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
I'm on fire
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
In the dark, dark
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
In the dark, dark
My songs know what you did in the dark
(My songs know what you did in the dark)
So light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
I'm on fire
So light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
Light 'em up, up, up
I'm on fire
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
In the dark, dark
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa.
In the dark, dark
Oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa, oh, oh, whoa"